sexta-feira, 11 de maio de 2012

Diário de viagem: Manaus, parte 7


Manaus, 01 de fevereiro

O clima em Manaus é absolutamente instável. Sei que em todo o planeta o clima está meio doido e imprevisível, porém, aqui é demais. Euclides da Cunha tinha razão, a sensação é de que a paisagem pode mudar a qualquer instante. Quatro horas atrás fazia forte calor. Céu azul. Mas, com “sol de chuva”, segundo seu Sabá. Explicou-me ele que quando a luz do sol está muito branca e cortante, é sinal de que choverá mais adiante. O fato é que à tarde o céu fechou repetinamente e a chuva caiu com vontade. Continua chovendo, porém, com menos intensidade. Sentada à mesa de um café, à espera do jornalista que devo entrevistar, sinto frio novamente. O ar que chega até a varanda onde me encontro é úmido e gelado. Recorro à pashmina que tem sido minha companheira inseparável, nas visitas a gabinetes e escritórios invariavelmente congelantes. Tinha ouvido falar que todo mundo aqui vive no ar condicionado 24 horas. O frio da rua é que me surpreende.
Aspas no meu idílio com Manaus: ausência de perfumes no ar! Como é possível? Não há aromas de frutas, nem de flores, nem mesmo de comidas saborosas, ou de terra e folhas molhadas. Nada. Manaus é uma cidade sem cheiro. Confesso que isso me frustra. Talvez seja só a época do ano. As únicas frutas locais que se vê nas barraquinhas de rua são a pupunha e a tucumã. Frutos de palmeiras. Não rescendem. E sabem à raiz. São umas coisinhas muito sem graça, insossinhas. Provei a pupunha domingo passado. Após o recital de piano, e o tacacá frustrado, Vivi quis comer uma pizza. Voltamos ao bar onde havíamos estado com Paulo, semana passada, lá mesmo no Largo de São Sebastião. O dono, seu Rosendo, nos trouxe uma pupunha, para provarmos. Em termos de sabor, parece mais um inhame, ou uma batata-doce sem o doce. Aliás, os manauaras comem esse fruto com café, tal como fazemos em Pernambuco com o inhame. Mais uma fruta de aparência enganosa. Ela é redondinha, com a casca bem vermelha. Você imagina que vai morder uma carne suculenta e docinha, e não é nada disso. É preciso descascá-la e cortá-la em lascas, pois a polpa é firme e “massuda” como a da batata-doce.
História hilária, não registrada antes. Quando estávamos nesse barzinho, começou a chover. Todo mundo que estava nas mesinhas de fora correu pra se abrigar dentro da casa. Eu e Vivi fomos rápidas e conseguimos uma mesa dentro. Quando ela estava terminando de comer a pizza (eu estava saciada com minha pipoca e meu algodão-doce), dois homens se aproximaram e pediram para apoiar os copos de cerveja na nossa mesa. Claro que permitimos, e eu ainda lhes ofereci a metade da pizza, que Vivi não comeria mais. Entabulamos uma conversa. Eles eram do Paraná. Um físico e um matemático. Vieram para um congresso na cidade. Com três minutos de conversa eu tive vontade de ir embora. Aos cinco minutos, queria sair correndo. Um deles me perguntou o que eu fazia. Quando disse que era antropóloga, o mais magrinho perguntou: -- De que tipo de peixe?! Pior ainda foi a pergunta do outro: -- Vocês sabem o que é esse prédio enorme, cor-de-rosa, aí na praça?!!!! Céus. Eu quis sumir. Ninguém é obrigado a ter cultura geral; porém, esse tipo de ignorância revela um desinteresse pelo mundo à volta que me parece inadmissível. Levantei-me, a pretexto de pagar a conta, e fiquei conversando com os atendentes no balcão. Prosa muito mais interessante. Uma moça e um rapaz bem jovens e divertidos. Dali, sequestrei Vivi, sem dar tempo aos rapazes de dizer mais que “tchau” e “boa noite”. No caminho de volta para o hotel, Vivi teve uma crise de riso com meu estado de choque e indignação. Demos uma breve entrada na igreja de São Sebastião. Estava acontecendo uma reunião de oração. Ao entrarmos na igreja, uma música e uma voz muito suaves nos envolveram. Me senti tão bem! Acalmei meu espírito. Aproveitei para rezar um pouco.

Uma criança adorável

Alguns sábados atrás fui jantar com um casal de amigos muito querido. O encontro foi motivado pelo desejo mútuo de matar saudades e pôr a conversa em dia. Além disso, é preciso dizer que Clarissa cozinha divinamente. Portanto, eu estava muito feliz com a perspectiva da noitada. Chegando lá, vi mesa posta para quatro. Para minha surpresa, daí a pouco chegaria um outro amigo comum. Vinha acompanhado do seu filho. Gabriel tem 6 anos e é uma criança absolutamente adorável. Como gosto muito de crianças, rapidamente me familiarizei com ele e brincamos juntos durante boa parte da noite.
Além de todos os atrativos comuns às crianças – espontaneidade, alegria, ingenuidade, imaginação, vivacidade – Gabriel tem características cada vez mais raras entre seus pares. É uma criança doce e obediente! Como qualquer pessoinha da sua idade, ele procura garantir seus espaços e tenta satisfazer seus desejos, porém, quando contrariado, atende às razões dos adultos e obedece! Sem bico, sem cara feia, sem choro, sem birra. Fiquei absolutamente maravilhada com Gabriel. E dei parabéns efusivos ao pai pela educação (infelizmente) extra-ordinária do filho. Cumprimentos extensivos à mãe, claro, que não conheço. Digo infelizmente, porque essa deveria ser a regra. Não deveria haver nada de fora do comum no comportamento de Gabriel.
A infância vem mudando vertiginosamente. Isso é inegável e inevitável. Como todas as demais fases da vida, a infância é socialmente construída. Seus sentidos, valores, sua importância e todo o leque de comportamentos tidos por adequados e inadequados a esta fase do desenvolvimento humano variam conforme o tempo e o lugar. Ser criança no Recife, hoje, é algo distinto de ter sido criança na Europa Medieval, ou do que é ser criança entre os Kayapó. O fato é que o sentido e as vivências da infância estão mudando mais uma vez, nas nossas sociedades ocidentais. Entre outras mudanças, a infância tende a sofrer um encurtamento. Não quero emitir juízos de valor a respeito. A mudança faz parte da dinâmica social. Porém, tenho, sim, um problema com certas tendências que se vão cristalizando.
Vários analistas já vêm apontando o excesso de liberdades concedidas às crianças, e a concomitante dificuldade dos pais de estabelecerem limites e controlarem seus filhos. Muitas crianças vão se tornando pequenos tiranos. Cheios de vontades, não conseguem ouvir um não sem que isso desencadeie uma crise pontuada por cara feia, choro, gritos, esperneio ou outras cenas piores. O desfecho, com frequência, consiste em pais cedendo às vontades infantis. Ou seja, enquanto tiverem seus desejos satisfeitos, muitas crianças parecem anjos de candura, mas basta uma pequena contrariedade e o céu vem abaixo. Qual é o efeito mais preocupante dessa realidade? Ora, a infância, independentemente do contexto ou de sua duração, é sempre um período de preparação para a vida adulta. É o início do processo de aprendizagem social, quando vamos adquirindo as ferramentas necessárias ao desempenho de papéis que exerceremos ao longo da vida. Cada vez mais as ciências, nas suas disciplinas biológicas e humanas, vão enfatizando a importância das primeiras experiências como conformadoras das pessoas que viremos a ser, quando adultos. Portanto, a infância é o momento para aprendermos e incorporarmos valores como respeito, generosidade, solidariedade, compromisso, responsabilidade. Quando os pais não conseguem impor limites e dizer não a seus filhos, que adultos estão formando? Essa é a questão que angustia e preocupa. Os indícios são mesmo assustadores: alunos indisciplinados, professores abandonando o magistério por não conseguirem mais obter respeito na sala de aula, jovens que saem pelas madrugadas agredindo domésticas em pontos de ônibus, ou ateando fogo em mendigos debaixo dos viadutos. A lista de comportamentos inadequados, abusivos e, inclusive, criminosos poderia ser exaustiva.
Gostaria muito de poder acreditar que os gabriéis são a regra (e devo registrar que para minha alegria tenho alguns sobrinhos nesse perfil). No entanto, vejo multiplicarem-se os exemplos contrários. Pior, conheço muita gente boa, pais bem preparados, pessoas íntegras e sensatas, munidos de concepções acertadas sobre educação, e que diante do choro e da vontade imperativa de seus pimpolhos, acabam por sucumbir. Cada um que acenda sua luz amarela. O mundo em que nossas crianças viverão há de ser o reflexo delas mesmas.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O silêncio é de ouro


É indiscutível que o Brasil vive um momento de grande mobilidade social. A Nova Classe C é cada vez mais numerosa e, por que não dizer, ruidosa. Nesse processo de ascensão social, diminuem as desigualdades e acontece um salutar movimento de democratização do acesso a bens culturais. Basta ir a qualquer complexo de cinemas, numa segunda-feira de promoção para constatar que a sétima arte, projetada na grande tela, também vai conquistando novo público. É claro que isso é maravilhoso. No entanto, há uma contrapartida espinhosa. E sei bem que não faltará quem me chame de elitista, aristocrata, reacionária e assemelhados. Mas, alguém precisa falar da importância de se educar esse novo público.
Ir ao cinema tem se tornado uma experiência irritante. Sempre tem alguém que acredita estar na sala de casa, ou numa feira, ou num barzinho com amigos. Conversa-se em voz alta, comenta-se o filme o tempo todo, e fala-se ao celular com a maior sem-cerimônia. E se você, que pagou o ingresso para assistir ao filme no escuro e em silêncio (se quisesse os comentários não-autorizados você teria ficado em casa, com sua mãe), for reclamar, pode ser pior. Corre sério risco de ouvir desaforos ou ter de escutar risadinhas frouxas por todo o restante da sessão. No teatro, acontece fenômeno semelhante. Alguns meses atrás, no Santa Isabel, uma companhia mineira apresentava admirável encenação da peça de Nelson Rodrigues, A mulher sem pecado. No camarote do terceiro andar, à esquerda do palco, um grupo de pessoas ria, tecia comentários em voz alta e até gritava para os atores, pensando ser natural interagir com estes, como se estivessem numa sessão de circo. A culpa não é delas, certamente. Faltou quem as advertisse sobre o inadequado de tal comportamento.
Mês passado, no mesmo Santa Isabel, os belos acordes dos instrumentos da Orquestra Sinfônica do Recife tiveram de dividir o espaço sonoro com conversinhas, risos, toques de celular e “psius”. Sou pernambucana até a raiz da alma, portanto, me sinto em plena liberdade para tecer comentários comparativos. Nosso público tem um longo caminho a percorrer. Basta assistir a um concerto na Sala São Paulo, para perceber a diferença de comportamento da platéia. Tal como em todas as salas de concerto européias ou norteamericanas, o silêncio  na Sala São Paulo, antes e durante uma apresentação é sepulcral. Quando a orquestra toca só se escutam seus acordes, quando não está tocando, se uma pena cair no chão, será ouvida. Ninguém nem sequer sussurra, celulares jamais tocam ou vibram, pessoas não trocam de lugar, não se escutam cadeiras rangendo, nem papéis de confeito sendo abertos. Reina, sempre, o mais respeitoso silêncio. Respeito que não se dirige apenas ao trabalho dos profissionais no palco, mas à própria música. Obviamente, não se pode esperar de quem não foi ensinado, que se comporte exemplarmente numa sala de concerto. Por isso, seria muito bem-vindo um trabalho de educação das nossas platéias. As pessoas precisam aprender que o barulho – por mínimo que pareça -- fere o direito dos demais a fruir a boa música. Também não faria mal adverti-las de que aplausos só são adequados quando uma peça é finalizada, e nunca entre os movimentos. Quem sabe um pequeno panfleto, com regras de bom tom, entregue juntamente com o programa da noite.
Estou falando sério. Esse trabalho pedagógico bem merece ser iniciado de imediato. E deve ser estendido a outros tipos de apresentação em locais fechados, sejam teatros em geral ou salas de cinema. Neste caso, aqueles filminhos que mostram as saídas de incêndio e pedem o desligamento dos celulares, poderiam ganhar mais ênfase nesse último aspecto e incluir algo como: não converse com seus vizinhos; cinema não é lugar de conversa; respeite o direito dos outros ao silêncio. Aliás, é bem isso mesmo. Precisamos de uma grande campanha pelo direito dos outros ao silêncio. Se desejarmos a consolidação do Recife como um centro cultural de excelência, nosso percurso passa pela educação do público, logo, pela disseminação dessa regrinha básica de civilidade: no cinema, no teatro ou numa sala de música, o silêncio é de ouro.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

À beira do caminho, de Breno Silveira: visão de uma leiga


O filme de Breno Silveira, À beira do caminho, exibido num sábado de Cine PE, deixou-me profundamente comovida. Com toda a justiça, foi o grande ganhador do festival. Por isso mesmo, surpreendeu-me quando, vasculhando a internet, li as críticas de alguns especialistas na sétima arte. Lá estava o filme qualificado de piegas, cafona e coisas do gênero. Até a atuação de João Miguel foi acidamente criticada. Como diz uma amiga: fiquei bege. Estavam eles falando do mesmo filme por mim assistido?! Quanta distância frente à minha própria experiência com À beira do caminho! Achei importante alertar o leitor deste texto para tal fenômeno. Inclusive porque, contrariamente ao senso comum, acredito que gosto se discute, sim.
A linha básica do roteiro até pode sugerir pieguice. Um caminhoneiro amargurado e um órfão em busca do pai se esbarram e empreendem, juntos, uma viagem pelas estradas do Brasil. Quando o filme começou, tive uma sensação de déja vu. Lembrei-me imediatamente de Central do Brasil e pensei: que falta de originalidade! (tal qual as críticas lidas). Conclusão precipitada a minha. À beira do caminho é um filme belíssimo, delicado, e conta histórias de perdas, dores e reencontros de modo absolutamente particular. É verdade: embalado pelas boas canções de Roberto Carlos, o filme tangencia a breguice, e tem precisamente o grande mérito de não cair nela, nem resvalar no melodrama. É um primor: de roteiro, de fotografia e, sobretudo, de interpretação. João Miguel está soberbo no papel de João. A dor  que lhe dilacera a alma e impossibilita a existência é vivida pelo ator de um modo que eu só poderia chamar de visceral. Sua casmurrice é autêntica. Machado de Assis o aplaudiria e talvez até lhe tivesse tomado emprestada alguma inspiração para compor seu Casmurro. Vinicius Nascimento, na pele de Duda -- cuja mãe morreu, e que parte para São Paulo, em busca de um pai que ele conhece por uma pequena fotografia P&B --, é uma figura muito cativante. Olhos expressivos, cílios longos, carisma quase irresistível. A teimosia afetuosa de Duda vai lentamente vencendo a rabugice de João. A dor de um é o espelho invertido da dor do outro. E é esse espelhamento que permite a João encontrar uma saída para seu desespero. Trata-se de um filme todo composto de sutilezas, que encontram perfeita expressão nos gestos contidos de João. Às vezes há um mero levantar de sobrancelhas, ou um cenho franzido, em lugar de uma linha de texto. E aí, realmente, João Miguel fez toda a diferença. Aliás, minha impressão foi exatamente oposta à de certo crítico, para quem o ator sentiu-se constrangido com o texto. No filme que eu vi, João Miguel estava inteiramente entregue a João. Se João tivesse existido na vida real, sua dor não seria tão intensa como a de João Miguel, neste filme.
Para concluir, preciso estabelecer uma última contraposição às críticas que me pareceram injustas com o filme de Breno Silveira. À beira do caminho não é uma imitação inferior de Central do Brasil. É outra coisa. Porém, se for para compará-los, à parte a grande admiração que tenho por Walter Salles Jr., para ser honesta comigo mesma, devo dizer que achei À beira do caminho um filme melhor. Para mim, Central do Brasil tem uma certa dimensão fabular. É um momento de transição numa espécie de percurso entre a realidade e o mito, que Walter Salles realiza entre Terra Estrangeira e Diários de Motocicleta. Subjacente à história de Dora e Josué existe um discurso sobre o Brasil. Trata-se de uma viagem de descoberta, seja de si mesmos, seja de um Brasil profundo (muito já se escreveu a respeito). A cidade grande, inóspita e desumana, contrapõem-se à autenticidade, ao colorido, à afetividade do Interior. São flagrantes a mudança de colorido e de abertura do plano de imagem quando Dora e Josué deixam o ambiente urbano e começam a adentrar o Brasil.
À beira do caminho não tem nada disso. O país é secundário, é um adorno, um pano de fundo. A viagem entre Juazeiro e São Paulo poderia se dar entre quaisquer dois pontos distantes do mapa-múndi A principal “paisagem” do filme é a boléia do caminhão de João, e o que ele mais vê à sua frente são as traseiras de outros caminhões, com as frases prontas tão típicas, penduradas ao pé das rodas. João e Duda são duas figuras ordinárias, profundamente humanas, universais. Eis um belo filme sobre a fragilidade da vida, do amor, da vontade humana. Não somos senhores dos nossos destinos. Mas precisamos aprender a ser mestres da nossa vontade, e a suportar o risco e o peso de amar.  Como diz o pequeno Duda, numa das cenas mais fofas do filme: A gente tem que ser que nem caminhoneiro; olhar sempre pra frente. Na minha percepção de leiga, À beira do caminho bem seria merecedor de uma indicação ao Oscar. Me representaria com muito orgulho.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Amadorismo no final de semana do Cine PE


Parece indiscutível que nosso caminho rumo à consolidação da capital pernambucana como pólo cultural nacional é árduo e nossa marcha, trôpega. Se a oferta cultural é constante e de primeira qualidade, falta-nos mais profissionalismo na logística e sobra-nos leniência com as falhas. Testemunhei exemplos básicos no final de semana de Cine PE. Incrível como na 16ª edição desse festival, ainda houve tantos problemas técnicos e logísticos. É claro que o Cine PE é um evento maravilhoso, uma grande conquista para o Recife, um feito importante. Mas é preciso sermos honestos e encararmos nossas limitações, se quisermos ser grandes. No sábado, a desorganização da programação, aliada à falta de informações e orientação ao público me pareceu imperdoável. Segundo soube pelos jornais, problemas com o som na sessão da abertura levaram a uma alteração da programação de sábado. “Problemas no som” já são inadmissíveis em si mesmos (ainda mais na abertura!), mas suponhamos que tenha se tratado de uma fatalidade, algo absolutamente inevitável e imprevisível, como um rato advindo sorrateiramente na noite anterior e que na sua gula tenha feito dos cabos, um lauto repasto. Vá lá. No entanto, não havendo outra solução possível a não ser a mudança da programação, o mínimo que se espera da organização de um evento desse porte é que as informações sobre tais alterações se encontrem devidamente expostas e disponíveis para a assistência. Pois não foi o que aconteceu no sábado. Nem um mísero papel ofício, manuscrito que fosse, indicava ao público as alterações de programa. Quem chegou para assistir a Xingu, às 17 horas, descobriu, surpreso, já instalado na sala escura, que havia uma sessão de curtas no lugar. Para inteirar-se sobre o que ocorreria na sequência, era preciso perambular pelo Centro de Convenções, indagando a funcionários muito mal informados, sobre exatamente que filmes seriam exibidos e em que horários. A desinformação dos funcionários do evento era, aliás, espantosa. A começar pela bilheteria. Um rapazinho atarantado vendeu-me um ingresso que daria acesso “a todos os eventos do dia”, quando, na realidade, só as sessões da noite eram pagas. Tendo chegado para a sessão da tarde, eu não teria necessidade de adquirir o ingresso, coisa que o rapazinho da bilheteria desconhecia. Como pretendia assistir também à sessão noturna, não fiquei no prejuízo. Tampouco se podem considerar prejuízo 8 reais. A questão incômoda é a desinformação e o despreparo das equipes. Para ser justa, devo registrar que no domingo já havia papéis bisonhamente pregados no cartaz da programação, informando mudanças de horário e de conteúdo. Ainda que toscos, eram melhor que nada.
Para completar os atropelos do sábado, o melhor dos curtas exibidos na sessão vespertina (o belíssimo e delicado Zé Monteiro: o homem que venceu as cinco mortes) congelou repetidas vezes. Não importa se foi problema de mixagem, de gravação, ou de falta de oração das freirinhas carmelitas de Olinda. A platéia não tem nada a ver com isso. Eventos como esse são programados e organizados com antecedência, permitindo a realização de todo tipo de teste preventivo. Problemas técnicos precisam ser realmente excepcionais. Por fim, em virtude da reorganização ou desorganização da programação – tal como já aconteceu em edições anteriores do festival – o longa da noite, Jorge Mautner: o filho do holocausto, começou a ser exibido tardíssimo, encerrando-se já quase à meia-noite e meia.
No domingo sucedeu episódio ainda mais lamentável. Estávamos lá, assistindo ao longa da noite, Boca (primoroso trabalho de fotografia, direção de arte, figurino e cenografia), de Flávio Frederico, quando subitamente acendem-se as luzes e o produtor, ofegante, surge no palco pedindo desculpas e informando que a exibição fora interrompida porque a sequência do filme estava errada!!!! Nunca realizei um filme, mas posso imaginar a frustração, a raiva, o desconsolo de diretor, produtor e artistas vendo sua obra ser desfigurada aos olhos de um grande público. Eu imagino que enfartaria. Sensação semelhante devem ter experimentado Breno Silveira e equipe na noite de abertura, quando o filme À beira do caminho foi exibido com som quase inaudível, segundo me contaram. Na sessão de domingo, fiquei passada com o fiasco por mim testemunhado; literalmente, morrendo de vergonha. Ao ver Rubens Ewald Filho passando, na saída do teatro, tive vontade de pedir-lhe desculpas, enfaticamente, em nome dos pernambucanos, por tamanho vexame. Faltou-me coragem. Outros convidados nacionais testemunharam a vergonha coletiva.
É realmente uma lástima que eventos tão belos em sua proposta e ambiciosos em sua envergadura padeçam de erros tão elementares. Os quais devem explicar, inclusive, porque vai se reduzindo o público do Cine PE. Lembro-me bem das primeiras edições do festival, quando os ingressos eram disputados a tapa. O Teatro Guararapes com gente saindo pelo ladrão e ainda assim muitos voltavam para casa de mãos abanando. Eu, inclusive. No último final de semana, o público nem chegou a lotar o térreo do teatro (platéia), em nenhuma das sessões. Seria bom que os organizadores refletissem a respeito. Nosso Cine PE pode ser muito melhor e maior, se vencermos um certo ranço amadorista que nos impede, não só neste caso, mas também, de consolidarmos uma imagem de excelência em termos de vida cultural, e até, de encetarmos vôos mais altos.
Aliás, pensando além do Cine PE, gostaria de insistir no fato de que essa falta de profissionalismo – ou amadorismo – é corriqueira nos nossos eventos. No concerto da OSR, de primeiro de maio, o pianista e compositor Nelson Ayres ficou visivelmente aborrecido com falhas no equipamento de som do Teatro Luiz Mendonça (novinho em folha!). Em show recente de Virgínia Rodrigues, no Santa Isabel, idem. Falhas no equipamento de som por pouco não comprometeram o trabalho dos músicos, um violonista e um celista. É vergonhoso trazermos profissionais reputados, que certamente são super criteriosos e exigentes com seu próprio trabalho, para submetê-los a problemas como microfonia e não retorno do som. Não sei se nos faltam técnicos, equipamentos, planejamento, enfim, não sou produtora, mas como público e, sobretudo, como recifense e pernambucana de coração, sinto ser imperativo que busquemos a excelência de nossos eventos culturais, não apenas em atrações, mas em logística. Nossos produtores e gestores devem essa a Pernambuco e, sobretudo, a seus próprios convidados.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Ainda a Orquestra Sinfônica do Recife


Ontem à noite houve outra lindíssima apresentação da Orquestra Sinfônica do Recife (OSR), no Parque Dona Lindu. Acompanhada ao piano por Nelson Ayres, e com a participação especial de Marina De La Riva, a OSR deu um show. Foi, aliás, elogiadíssima, pelos dois convidados. Os arranjos de Nelson Ayres para a Bachiana No 4 e para Bye Bye Brasil, de Chico Buarque, tiveram efeito extraordinário! A História de Lily Braun também ficou uma graça arranjada para orquestra, e bem acompanhada por Marina De La Riva (visivelmente emocionada e feliz com a apresentação na terra do avô). Essa aproximação entre a música clássica e a MPB é sempre benfazeja, e bela, muito bela. Os resultados são preciosos esteticamente, e o gesto em si tem tudo a ver com a tradição cultural brasileira, tão avessa a fronteiras e identidades rígidas. Tenho a impressão de que Villa-Lobos teria adorado a versão de sua Bachiana assinada por Nelson Ayres, com direito a baixo e bateria. Nossa OSR fez bonito ontem! Tocou com alegria, com alma. Palmas particulares para o maestro Gioia, cujo vigor se reflete na execução segura da Orquestra. Felizmente, um grande público – e muito heterogêneo -- prestigiou o espetáculo. Coisa bonita mesmo de se ver.
A nota triste fica por conta da informação de que nosso ilustre prefeito vetou um projeto de lei que estabelece a implantação de plano de cargos e salários para a OSR! E eu reivindicando uma Sala de Música para o Recife! Francamente, não se trata de miopia, e sim da mais absoluta cegueira. Boas orquestras precisam de profissionais excepcionais e de dedicação exclusiva. Os músicos das grandes orquestras ensaiam no mínimo 8 horas por dia. Almejam a perfeição. E a música clássica exige a perfeição. Por isso, é fundamental que esses profissionais sejam bem pagos, do contrário terão de complementar a renda familiar fazendo bicos em festas particulares Logo, não poderão dedicar-se à orquestra como deveriam. A Câmara de Vereadores ainda terá a possibilidade de derrubar o veto do Prefeito. Resta-nos esperar que nossos legisladores tenham mais largueza de espírito e visão de maior envergadura. Só chega longe quem mira o horizonte.

A OSR e uma Sala de Música


A agenda cultural do Recife sofreu melhoras substanciais e graduais ao longo da última década. Atualmente, nossa capital conta, ao longo de todo o ano, com eventos artísticos da mais alta qualidade (digo em termos de programação; infelizmente, nossa logística ainda deixa bastante a desejar), e atendendo a todos os gostos. Temos vários festivais de teatro e de música, festivais de cinema, boas exposições, já nos inserimos, inclusive, nos roteiros das mais aquilatadas atrações musicais nacionais e internacionais. Contamos com boas opções de cinema cult ou de arte. Enfim, nossa oferta cultural é variada, qualificada e constante. Creio poder afirmar, sem perigo de soar como meramente bairrista, que Recife é a capital melhor servida em termos culturais no Norte-Nordeste. Talvez pudéssemos até disputar o posto de terceira capital cultural do país com Belo Horizonte e Porto Alegre. Algo a ser verificado.
O cenário é, portanto, alvissareiro. Falta-nos, no entanto, um elemento importante. Ainda não temos uma sala de concertos apropriada para abrigar apresentações de nossa Orquestra Sinfônica (OSR), ou para receber orquestras visitantes. Todas as chamadas capitais culturais do mundo têm uma sala decente destinada à realização de concertos. Esta pode parecer uma demanda elitista, mas não é. Ou por outra, mesmo se for elitista, justifica-se pela importância da música clássica de per si. Do ponto de vista da política cultural, logo, do poder público, faz tanto sentido preterir nações de maracatu, quanto orquestras sinfônicas. Ou seja, nenhum. Aos olhos do Estado, toda forma de manifestação cultural deve ter o mesmo valor. Como regra geral, orquestras sinfônicas precisam da atuação do Estado para subsistirem na condição de patrimônio cultural de uma cidade ou país. Necessitam, igualmente, de uma gestão eficaz e profissional, que lhes permita alcançarem um padrão de excelência internacional. A OSESP já conseguiu essa profissionalização, e a Sinfônica Brasileira, sediada no Rio de Janeiro, felizmente vai seguindo o mesmo caminho. Antes tarde do que nunca.
Quanto ao Recife, nossa OSR melhorou consideravelmente ao longo do tempo. Lembro-me bem da primeira vez em que assisti a uma apresentação, umas duas décadas atrás, no Parque 13 de Maio. Os desacertos eram notáveis até mesmo para uma ouvinte neófita como eu. Para orgulho de todos os recifenses, duas semanas atrás, a OSR fez uma bela apresentação no Teatro de Santa Isabel. O Concerto para fagote e orquestra, de Carl Weber, foi bem executado, com destaque para o solista, Péricles Johnson, prata da casa. Já a Sinfonia no. 2 de Tchaikovsky, sob a batuta vibrante do maestro Osman Giuseppe Gioia foi empolgante. A peça, já de si alegre, foi tocada com entusiasmo e, assim, ganhou força e vibração, impressionando a platéia. A beleza do espetáculo musical, contudo, destoava das cadeiras dispostas no palco, parecendo recém-saídas de uma sala para eventos de hotel, bem como dos suportes para partitura, descascados e emendados com fita adesiva. Sem falar no calor evidente, pairando no palco, onde alguns músicos suavam em bicas.
Testemunhando a cena, me veio a ideia de que já passou da hora do Recife ter uma sala de concertos decente. Eis uma tarefa a ser assumida pelo próximo prefeito. Ele poderia encabeçar o esforço e conclamar a iniciativa privada a investir numa sala devidamente equipada, com tratamento acústico e conforto para os músicos, de modo que estes possam estar inteiramente concentrados na melodia a ser extraída de seus instrumentos. Quem sabe se um Itaú, ou Bradesco, ou, melhor ainda, uma grande empresa 100% pernambucana pudesse investir nesse espaço em troca de batizá-lo. Admite-se até o apodo Hall, plenamente justificado pela grandeza da iniciativa. Com uma sala apropriada para a nossa OSR, a democratização do acesso à música clássica seria mais fácil e mais ligeira.