terça-feira, 14 de abril de 2015

Andando com Fé, eu vou: Dia 5

10/4/15

Duas lições, óbvias, mas nem por isso menos importantes. A primeira é que é realmente uma tolice ter ideias prontas e acabadas sobre as coisas, inclusive sobre os lugares. Eu achava que, na melhor das perspectivas, Miami se resumia a South Beach, e essa é apenas uma pontinha das coisas interessantes que a cidade tem para oferecer. Miami, para mim, era sinônimo de consumismo, esbanjamento, alienação e cafonice. Eu já tinha me surpreendido, em janeiro, com o charme de South Beach, cuja arquitetura art nouveau me deixou encantada. Coconut Grove e Little Havana me seduziram ainda mais.
A segunda lição dessa etapa é que viajar sem expectativas e sem planos estabelecidos pode mesmo ser profundamente gratificante. A visita a Miami foi muito boa! Minha intenção era apenas rever antigos e queridos amigos, e acabei conhecendo lugares insuspeitadamente interessantes. Me sinto profundamente agradecida a Carlos e Chrissy. Me despeço deles e do pequeno Santi já com um gostinho de saudade.
Chamo um Ubber e vou para o aeroporto. O motorista, Ricardo, é venezuelano. Vive há 14 anos em Miami. Queixa-se da situação em que se encontra seu país. Lamento não ter nada de muito animador para dizer-lhe.
Embarco para Nova Iorque sem qualquer programação feita. A única coisa que tenho definida é o hotel onde me hospedarei, em Greenwich Village. O resto será surpresa.
Um dia quase inteiro de viagem. Chego em Nova Iorque por volta das nove da noite. Pego um shuttle, meio de transporte com a melhor relação custo-benefício de deslocamento de qualquer aeroporto americano, quando se tem malas. Cruzamos Manhatan, e quando passamos por Times Square, somos impactados pelos luminosos enormes e em profusão, tão característicos da Big Apple. A imagem é efetivamente impressionante. Muita luz e muita cor juntos, concentrados em alguns metros quadrados. Impossível o sujeito ficar indiferente. Há uma intensa vibração naquele pedacinho de Manhatan, difícil de definir, mas é uma vibração distinta, uma energia frenética, quase palpável.
Um senhor canadense, sentado ao meu lado, que vinha dormindo até então, desperta de sua letargia e começa a conversar. Sua esposa está sentada à frente, ao lado do motorista. Quando este buzina porque alguns carros pararam à sua frente, ela lhe pergunta qual a utilidade de buzinar. Pergunta retórica, obviamente. A intenção é repreendê-lo pelo gesto que lhe parece conseguir pouco além de aumentar o caos da rua. A resposta do motorista da van tem conotação universal: Controlar a pressão arterial. Seguro o riso com dificuldade.
O casal de canadenses tem bastante idade e é engraçado observar sua dinâmica. Ela, paciente e diligente, ele, meio ranzinza. Vão tecendo comentários que sugerem certo nível de estranhamento frente à realidade nova-iorquina. O senhor começa a me contar como descobriu a pobreza, em Nova Iorque, aos 23 anos! Foi a primeira vez que viu um pedinte, e quase não pôde acreditar que havia gente, no mundo, cuja casa era a rua. Me fez um interessante relato sobre como, até vir a Nova Iorque pela primeira vez, ele acreditava que todas as pessoas tinham um trabalho e moravam em suas casas, ainda que fossem simples, em bairros operários, e que todas as crianças frequentavam escolas... Ele espantado com a pobreza em Nova Iorque, e eu com o fato de que um jovem ocidental de vinte anos, mesmo que seis décadas atrás, pudesse ter tal visão estreita e desinformada do mundo.
Finalmente chego ao meu hotel. Sou a última passageira, e a única que não desceu no burburinho da Manhatan central. Fico impressionada com o tamanho minúsculo do quarto. Pelo menos o hotel e a vizinhança parecem bem animados. Pessoas se aglomeram na porta do hotel. Parece haver uma festa em curso. Compro comida num mercadinho da esquina e me recolho, exausta. Como diz Verônica, essas viagens longuíssimas de avião, às vezes, parecem tão primitivas...

Dicas de viagem:
Comida: A lanchonete Five Guys (aeroporto de Washington) serve um bom hambúrguer, com carne fresca e pão bem macio.

Transporte: Para quem tem conexão de internet, o Uber é, na realidade, a melhor opção de deslocamento. Essa rede de motoristas particulares funciona por meio de um aplicativo excelente. O preço da corrida é incrivelmente barato, e o pagamento é efetuado por meio do próprio aplicativo. A pessoa não pega em dinheiro, e não é preciso dar gorjetas.

domingo, 12 de abril de 2015

Andando com Fé, eu vou: Dia 4

9/4/15

Durmo mal, por causa da gripe, que me pegou pra valer. Decido ficar a maior parte do dia em casa, não apenas por conta da gripe, mas pela necessidade de ordenar algumas coisas e refazer a mala.
Pelo meio da tarde, saio para um passeio a pé com Carlos e o pequeno Santiago. Santi tem três anos é uma criança fofa, com uns olhos soberbos, impressionantemente expressivos, e super carinhoso. Vamos até uma sorveteria orgânica próximo de casa. O sorvete de avelã estava divino. Textura perfeita. Na volta, fico um pouco com Santi num parquinho para crianças. Com surpresa e boa dose de estranhamento, me dou conta de que se trata de um parque “artificial”. Grama de plástico e terra de plástico no entorno de árvores que, estas, sim, são de verdade. Flores lilases, caídas das árvores, cobrem o gramado artificial, em vários trechos. Essa grama artificial é dura e desconfortável, coisa que verifico ao sentar-me no chão para brincar com Santi. O parque tem escorregadores, balanços, brinquedos de obstáculos, e um hipopótamo lilás que se move para frente e para trás. Uma grade separa o parque das crianças do parque dos cachorros, igualmente feito de chão artificial. Santi se diverte sozinho, com as flores caídas e água empoçada nos escorregadores de plástico. Em dado momento observo que deseja fazer pipi. E agora? Como resolver essa situação num parque de solo inteiramente artificial, portanto, sem areia ou terra que possa, absorver a urina sem maiores problemas???!!! Após alguns momentos de tensão, localizo uma nesguinha de terra no final do parque, junto a uma cerca viva, que me permite resolver a situação emergencial. Mesmo assim fico apreensiva, esperando que a qualquer momento se materialize na minha frente alguma figura de autoridade e me repreenda por aquele ato indevido. Alivia-me a consciência o pensamento de que é um absurdo um parque daqueles, todo fabricado do nada, não contar com um banheiro químico que seja. Afinal, é um parque infantil.
Um outro pensamento me intriga: por que um parque artificial, quando aqui nos Estados Unidos eles vendem gramados naturais maravilhosos? Não consigo atinar com outra resposta que não a profilaxia. Essa quase obsessão que eles têm de evitar acidentes, bactérias etc. Uma lástima. Correr num gramado artificial é completamente distinto. Aliás, ironicamente, umas meninas correm por esse gramado de plástico e caem todo o tempo, porque a cobertura artificial não lhes permite tatear as diferenças do terreno. Só que elas caem e não se machucam.

No final da tarde, Chrissy chega e tomamos um Ubber para Little Havana. Adorei o bairro cubano, apesar da rápida visita. O parque do dominó já estava fechado, mas do lado de fora, observamos uma animada roda de homens, jovens e velhos, que continuavam seus jogos. Afinal de contas, o parque pode ter hora de funcionamento, mas não a paixão pelo jogo, nem muito menos a convivência com os amigos e parceiros desse gostoso e pachorrento ócio de fim de tarde. Caminhamos um pouco pela Calle 8, coração do bairro, onde há um lindo cinema art nouveau, que ainda funciona como cinema!, e um belo centro cultural que quero conhecer com mais calma em uma próxima visita. Jantamos em um antigo restaurante cubano. Comida deliciosa. Matei as saudades de um bom moros y cristianos e de uma boa ropa vieja. O tamale também estava divino, extremamente bem temperado, com um toque de erva doce. Saindo do restaurante, caminhamos mais um pouco e acabamos entrando em uma loja de charutos cubanos, muito simpática, com vários sofás convidando a pessoa a sentar-se e “saborear” seu charuto. Por pura brincadeira, eu e Chrissy compramos um, nos sentamos e ficamos fumando e conversando. Os donos são extremamente simpáticos e passamos minutos divertidos. Eles nos contam que às sextas-feiras, põem os sofás nas calçadas, e que a rua se torna especialmente animada e convidativa. Realmente precisarei voltar a Little Havana um dia. Para finalizar a noite, paramos em uma das muitas ventanas que há na Calle 8, onde se vendem cafezinhos no estilo cubano, e tomamos um cortadito. Pela primeiríssima vez na minha vida, acho que tomei um café efetivamente saboroso em um estabelecimento comercial, em solo americano. Tiramos fotos com os galos que são símbolo da Little Havana e voltamos para casa. Fechamos minha última noite em Miami brindando com pro seco minha visita a esse maravilhoso casal, que me acolheu com tanto carinho e amor. 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Andando com Fé: Dia 3

 08/4/15

Saímos de casa pela manhã, eu, Chrissy, sua cunhada, Suny e a namorada, Barbara. Queria muito conhecer os Everglades, fazendo um passeio naqueles barcos com um grande ventilador atrás, mas ficava distante do nosso destino final, Key Largo. Então, paramos numa das entradas no lado leste. Descubro que os Everglades são um parque nacional enorme, um ecossistema único e com uma certa diversidade interna. A área que visitamos é uma mistura de charco e mangue, mas sem aqueles enormes capins que vemos nos filmes. Como quase tudo nos Estados Unidos, o passeio é todo estruturado, com passarelas de madeira, que nos permitem contemplar os jacarés, tartarugas, peixes e pássaros, em seu habitat, mas com ordem e segurança.
Assistimos a uma cena curiosíssima. Uma elegante garça cinza encontra-se parada num trecho alagado. Um jacaré ou alligator está a alguns metros de distância, igualmente parado, meio disfarçado no meio da vegetação aquática, que parece ser da mesma família da vitória-régia, o jacaré começa a movimentar-se lentamente em direção à garça. Esta se põe toda tesa, e eu penso que está pressentindo a aproximação do jacaré, ela levanta uma pata. De súbito, enfia o bico na água e sai segurando um peixe. Como as aparências enganam! Eu pensando que ela se preparava para fugir e a danada estava mais era preparando um bote. Enquanto sua vítima se debate na ponta do seu bico, o jacaré prossegue seu lento e calculado movimento de aproximação. A essa altura, todo um público de humanos assiste à cena de respiração presa. O pássaro engole seu almoço e o jacaré cada vez mais perto. Alguém exclama: Estamos prestes a testemunhar uma cena do National Geographics. Mas a garça finalmente dá sinais de perceber a presença do seu predador e afasta-se em movimentos igualmente lentos e suaves. Terá um fim bem melhor do que o do peixe.
De Everglades dirigimos em direção ao extremo Sul do país. Vamos para Key Largo, o primeiro ponto importante dos “Keys” ou “caios” da Flórida, uma enorme área costeira, formada por restingas, ilhotas, lagunas. A paisagem é bem bonita. A estreita rodovia, com muretas e meios-fios inusitadamente pintados de azul piscina, é uma linha reta desenhada no meio das águas. Em Key Largo, apesar da tosse intensa, que anuncia uma bela gripe, acompanho as meninas num passeio de barco com mergulho de superfície (snorkel). Uma belíssima barreira de coral se estende por uma vasta área, em alto mar. Nunca havia mergulhado de snorkel numa área tão extensa. O barco retorna ao pôr-do-sol. No caminho para o ancoradouro, passamos por casas que custam entre 6 e 10 milhões de dólares. Penso em como é curioso que passeios turísticos sempre incluam esse tipo de informação, que me parece absolutamente irrelevante. Enfim. Espero que os proprietários dessas casas sejam felizes, a despeito dos seus milhões.

Chego em casa cansada e meio mole. Afinal de contas, o que parecia apenas uma tosse irritante, é mesmo uma bela gripe.

Andar com Fé, eu vou: Dia 2

07/4/15


No vôo, assisti a Selma, um dos concorrentes do Oscar. É um filme razoável. Boa interpretação do ator que faz Martin Luther King, porém o filme carece de elementos poéticos que o façam mais interessante e menos lugar comum. A história real é que é impressionante, como de resto todas as histórias segregacionistas. Talvez o fato de uma violência tão absurda ter acontecido de modo institucional, num passado tão recente, e na nação que se tornou um símbolo da democracia e da civilidade seja o que mais contribui para tornar esse tipo de narrativa tão chocante.
O vôo foi tranquilo. Cheguei a dormir, porque estava bastante cansada. O serviço de bordo da TAM, registre-se, é impecável. Dedo tem toda razão: o vôo da TAM é infinitamente melhor que o da American Airlines, da simpatia e educação dos comissários de bordo, à qualidade da comida, e conforto da aeronave.
Minha passagem pela Imigração americana na madrugada desse dia 7 de abril foi curiosa. O oficial ficou intrigadíssimo com meu propósito de viagem. Tive que responder que ficaria dois meses nos Estados Unidos e que daqui vou para a Europa. Ele me encheu de perguntas e acabei dizendo, com muita naturalidade, que pretendo passar um ano viajando pelo mundo. “O que você quer dizer? Passar um ano viajando, sem trabalhar???!!!”. Se eu não tivesse uma certeza de FÉ de que vai dar tudo certo, teria ficado com grande receio dele me barrar. Mas, como sei que existe uma Vontade bem maior e mais poderosa que a daquele oficial de Imigração, me mantive tranquila, inclusive, segurando a vontade de rir. Afinal, eu não cabia em nenhuma de suas caixinhas: “Nunca vi nada semelhante”. Muito contrariado, acabou carimbando meu passaporte.
Também fui parada na Alfândega. Um oficial bem mais simpático que o primeiro me fez abrir uma mala. Felizmente, nem era aquela em que estavam os remédios que levo, preventivamente, e que tinha receio de que fossem retidos. Finalmente, liberada pelas autoridades americanas, peguei meu táxi para a casa de meus amigos, Chrissy e Carlos. O motorista do táxi era haitiano, e conversamos bastante, inclusive sobre a infame derrota do Brasil na Copa do Mundo. Ele me contou que ele e os amigos prepararam uma festa para assistir ao jogo, que ele foi pegar uma cerveja e quando voltou, o Brasil já tinha levado três gols. Já conheço essa triste narrativa.

Uma grande alegria rever meus amigos de Berkeley, e conhecer o filhinho deles. Santiago é um menino doce e carinhoso. Depois de dormir profundamente para me recuperar da viagem, saio com Chrissy e Santiago para dar uma volta no bairro. Eles moram em Coconut Grove. Trata-se de um bairro simpatissíssimo de Miami. Fiquei encantada. O bairro tem distintos cenários sociais, cada um deles com seu sabor pitoresco. A vizinhança de Chrissy é super arborizada e cheia de lojas e restaurantes charmosos. Tem ainda uma área com belas quintas, mansões de muito bom gosto, cercadas de árvores extensos jardins. Há a parte negra, com antigas casas de madeira bem conservadas (trata-se de uma vizinhança operária, e não de um gueto, como me explica Carlos), e há, ainda, Little Havana, que devo conhecer nos próximos dias. Sentamo-nos no Jaguar, um restaurante descolado, na vizinhança de Chrissy, que já foi um reduto de artistas, onde comemos ceviches deliciosos e bebemos margaritas perfeitas, para brindarmos o início do meu sabático e do processo de tenior dela. Sinto que começo essa aventura com uma energia maravilhosa. E estou encantada com Conconut Grove. Preciso reconhecer que Miami é cheia de surpresas.

Andando com Fé: Dia 1

06/04/15
Comecei hoje minha aventura ao redor do mundo. Toda a última semana foi intensa, tomada pelos preparativos e providências que ficaram para os derradeiros momentos. Praticamente virei a noite arrumando a bagagem. Dificílimo me limitar aos 23 kgs que devem caber na única mala que me acompanhará. Mais um exercício de desapego, dentre os muitos que tenho feito nas últimas semanas. Viajar apenas com o essencial. Não cheguei no que deveria, mas estou perto. Decidida a deixar coisas pelo meio do caminho.
Estou ciente de que o desapego assegura a leveza. No entanto, entre a consciência e a prática, ou vivência, há um longo aprendizado.
Rápido almoço em família, em que ganho um lindo caderno de viagem, preparado carinhosa e caprichosamente para mim, com mensagens de papai, mamãe, Nica Quel, e de meus grandes amigos, além de pensamentos, trechos de música, orações, e muitos espaços em branco, para eu ir registrando pensamentos e fatos da viagem. Um presente ímpar e preciosíssimo, do qual não me apartarei. Será minha companhia permanente. Um modo de ter ao alcance dos olhos, aqueles que levo sempre no meu coração.
Família – papai, mamãe, Darlan --  e amigos-irmãos – Dani, Dedo e Karina -- no aeroporto. Uma sensação estranha de incredulidade. Depois de três anos acalentando esse projeto, chegou o dia. De verdade! Me despeço de pessoas que amo tão profundamente e sinto que, como eu, elas estão divididas entre a alegria por me verem realizando algo que tanto desejo, e a tristeza da saudade antecipada.
Embarco com a curiosa sensação de que a minha ficha não caiu de fato.
Bastante cansada pela sequência de noites quase sem dormir, cochilo no vôo até o Galeão.
Enquanto espero a chamado do vôo para Miami, faço as últimas ligações e mando as últimas mensagens pelo celular. São os derradeiros atos rituais, que me permitem partir com mais conforto e segurança. Nas últimas semanas e dias, foram vários os gestos e momentos de afirmação do carinho, do amor, da amizade que me conecta aos meus pais, irmãs e amigos. Tentei dizer-lhes, e espero que todos tenham compreendido, que se tenho coragem de me jogar nessa travessia ao redor do mundo, é apenas porque eles existem, é apenas porque o amor que nos conecta é profundo, sólido, concreto. Aliás, das coisas mais concretas da minha vida. Como lhes disse, vou porque sei que eles estão AQUI. E não falo apenas do aqui físico, do aqui-Recife ou qualquer outra cidade brasileira, por onde se espalham pessoas que amo, vou porque sei que eles habitam um AQUI permanente e imanente, que eu posso acessar a qualquer momento, e por todo o sempre.

Embarco com duas certezas: a de que não serei mais a mesma pessoa, e a de que voltarei para casa ao final dessa travessia.

“O real se dispõe pra gente é no meio da travessia” (Guimarães Rosa)

Por que uma pessoa decide largar todos os confortos e seguranças de uma vida bem estabelecida, profissionalmente bem sucedida, perto dos que ama, para se lançar numa aventura ao redor do mundo? Por que tirar um ano “sabático” e andar por aí sem destino muito certo, trabalhando em troca de acolhida?
Bem, é claro que as experiências são pessoais e intransferíveis, e cada um viaja por suas próprias e diferentes razões. Conhecer lugares, encontrar pessoas, entrar em contato com outras culturas, experimentar cheiros e sabores novos, fugir da rotina, descansar, relaxar. Todas essas são boas razões para viajar. Neste meu caso específico, viajar pode ser definido por uma frase que li num artigo de Paulo Coelho (logo ele), compartilhado comigo por um amigo queridíssimo: “Viajar é a experiência de deixar de ser quem você se esforça para ser, e se transformar naquilo que você é.”
A viagem que começo a fazer ao redor do mundo, portanto, não é diletantismo, não é extravagância, impulso, loucura, ou vocação para o ócio, tampouco se trata da mera realização de um sonho, mas resulta de uma necessidade profunda e crescente de fazer uma pausa para crescer. Resulta da urgência em repensar meu modo de vida, meus comportamentos, e encontrar um caminho para vivenciar, na prática, no cotidiano, aquelas que elegi como minhas prioridades, e que têm a ver com as pessoas que amo e com o mundo em que desejo viver. A verdade é que desde que comecei minha vida produtiva, em poucas fases fui capaz de priorizar, efetivamente, meus afetos e meus valores. Deixo-me frequentemente levar por urgências que não são minhas, deixo-me guiar por um perfeccionismo que me rouba o tempo das delicadezas, das delícias, e até do sono, que me torna prisioneira de ansiedades e de angústias sem real importância.
Como resultado desse frenesi em que voluntariamente tenho vivido, fui me distanciando de mim mesma. Quantas vezes tenho me surpreendido com a minha intolerância, impaciência, radicalismo, com minha incapacidade de ouvir os outros, antes de emitir juízos definitivos e peremptórios sobre os fatos e as pessoas. Pois foi essa sensação crescente de estranhamento de mim mesma o que me jogou nessa aventura de aprendizagem e redescoberta, que acabo de começar.
Não pretendo chegar a lugar nenhum, apenas desejo aprender -- ou seria mais correto dizer “reaprender” -- a viver com a simplicidade, a alegria e autenticidade da criança que eu fui. Trata-se, portanto, mais de uma travessia, que de uma viagem. Ao longo desse percurso, cujo traçado ainda desconheço, espero aguçar minha consciência e descobrir em mim as ferramentas para vivenciar a coerência que tanto almejo.

sábado, 1 de novembro de 2014

SEPARATISMO???


Muito preocupante esse clima de animosidades e essa ideia besta de separatismo, que anda rolando nas redes sociais e nas conversas pessoais, desde a reeleição da presidente Dilma. De início nem dei muita trela, mas comecei a ouvir argumentos acalorados a esse respeito, de gente que sempre foi ponderada, com visão crítica e bem informada da realidade brasileira. E quando os escuto falar, tenho a sensação de que se deixaram tomar por uma passionalidade irada e perigosa.
Tal como essas pessoas, fiquei arrasada com o resultado do dia 26. Uma tristeza profunda tomou conta de mim. Chorei e deixei que minha alma se vestisse de luto. A vitória do PT me pareceu um pesadelo, e cerrou ainda mais o horizonte de nuvens negras que eu enxergo à minha frente quando penso no futuro do Brasil. Como pudemos compactuar com tanta corrupção? Como pudemos dizer sim a essa quadrilha que se apropriou do Estado brasileiro de maneira tão despudorada, descarada, escrachada..... Como pudemos dar a vitória a uma campanha tão feia e baixa, que fez da mentira e da distorção cínica da realidade sua principal arma? Como pudemos avalizar esse clientelismo de estado, que transformou as velhas práticas coronelistas num programa oficial, que consome bilhões de reais do orçamento da União? E não me refiro ao Bolsa Família em sua concepção, mas ao uso eleitoreiro que o PT vem dando a ele, eleição após eleição.
E quando eu pensei que nada podia ser pior do que a reeleição de Dilma e do PT, vejo surgir com força esse discurso pueril e tosco sobre separatismo. Vejo pessoas inteligentes, íntegras e sensatas comprando o argumento vendido pela campanha do próprio PT de uma nação dividida entre “nós/elite/ricos/Sudeste” e “eles/povo/pobres/Nordeste”.
Eu poderia evocar razões objetivas para esvaziar esse argumento, como a votação de Dilma no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, terra do próprio candidato que desejávamos ter como presidente a partir de primeiro de janeiro. Essa seria uma boa razão para que eu não me sentisse nem um pouquinho envergonhada de ser pernambucana e nordestina -- se eu precisasse de uma razão, o que não é o caso.
O fato é que há argumentos bem mais importantes nesse debate. O separatismo é uma escolha contrária a tudo que vivemos e construímos até aqui como nação. Pior, é um discurso que ecoa grande falta de solidariedade, cegueira em relação ao passado, e uma visão autocomplacente das responsabilidades individuais com relação ao destino coletivo. Isso me deixa ainda mais triste que a vitória de Dilma e do PT.
Defender o separatismo como resposta à vitória do PT nas urnas significa comprar um argumento que não é apenas pueril, mas muito perigoso. A história mostra que processos separatistas, envolvendo estados nacionais, quase sempre estiveram atrelados à construção simbólica de diferenças que estigmatizam e, com frequência, desumanizam o “outro”. No caso específico em questão, essa operação simbólica de distinção já começou: “nós”, paulistas e sulistas, educados, conscientes, trabalhadores e honestos precisamos nos livrar “deles”, esse bando de nordestinos, nortistas, esfomeados, analfabetos e vagabundos, que “nós” nos cansamos de sustentar.
Sinceramente, espero que a indignação e a ira com a vitória da corrupção e do clientelismo de estado, no último dia 26, dêem rapidamente lugar ao bom-senso e à disposição para a luta. Espero que o PT não consiga vencer também no campo simbólico; e que a competência de um gênio do marketing não chegue ao ponto de nos legar um país efetivamente cindido entre “nós” e “eles”.

Espero também que todos os brasileiros de bem, que acreditam em valores como ética, trabalho, generosidade e solidariedade, e que hoje se sentem enojados e indignados com a vida política desse país, enxerguem que o separatismo é via da derrota e da desistência. É o famoso caminho fácil, a porta larga, que nunca conduz a bom termo. Certamente, é muito mais difícil fazer o embate político e cidadão no campo de batalha que está posto. Mas não se conquista nada de importante e precioso na vida sem muita luta, sem muita coragem. Sinto que os próximos anos serão para o Brasil, a nossa hora da verdade. Agora é que vamos ver se os filhos dessa pátria não fogem mesmo à luta.