quarta-feira, 22 de abril de 2015

Dia 12: Novas experiências

17/4/15

Durmo muito e acordo surpreendentemente tarde.
A casa onde estou é efetivamente uma verdadeira bagunça. Lembro daqueles programas de TV que mamãe assiste, sobre casas super bagunçadas, que são magicamente transformadas pelas equipes de produção dos programas. Meu primeiro e forte impulso é me oferecer para limpar e arrumar tudo. Mas, me controlo. Sei que tenho de desapegar também da minha mania de ordem e limpeza. Será um desafio me sentir bem nesse ambiente, do jeito que ele é. Ao menos consigo controlar meu impulso inicial.
EU, L. e D. começamos a transportar as plantas que foram cultivadas nos últimos dois anos para a frente da casa. É sexta-feira, e no domingo acontecerá o Earth Festival. Trata-se de um importante acontecimento para D. Meu trabalho hoje consistirá basicamente na limpeza e transporte dos potes e sacos de plantas para a frente da casa.
D. é uma senhora de sessenta e poucos anos. Gordinha, baixinha e muito falante. Sem que eu pergunte nada, me conta que seu filho se matou. Toda essa história me sensibiliza profundamente. Seu marido, C., nos deixa. Volta para o seu refúgio. Me dou conta de como D. é uma pessoa solitária. Sua relação com o marido parece distante e fria. Talvez por isso ela procure ter sempre gente de fora na casa. Há dois anos ela aderiu a uma plataforma chamada WOOFERS, e também ao Workaway. Com esses voluntários, ela leva à frente o projeto de cultivar plantas para vender e levantar fundos, que servem para financiar uma cooperativa de famílias pobres num país centroamericano. Também faz tortas para vender, com a mesma finalidade.
Após uma tarde de trabalho, L. me ensina a atirar. Ele tem 28 anos, é magro e baixo. Acabou de deixar as Forças Armadas, nas quais serviu por três anos. Atiramos com uma espingarda de chumbo, apenas por diversão. Sempre tive curiosidade e gosto da experiência, apesar da minha péssima mira. Só consigo acertar o alvo de muito perto. L. é um bom professor. Paciente. Me diz que a mira é uma questão de prática, além de concentração e respiração.
À noite, após o jantar, eu e L. saímos para passear. Ele me propõe irmos a Nova Orleans. Apesar da viagem de hora e meia, eu topo. Caminhamos à toa pelo French Quarter. A famosa Bourbon St. está apinhada de gente. Evoca um certo ambiente de carnaval, mas sem a música na rua. Muitos jovens parecem estar ali apenas para se embreagar. Andam em grupos, com frequência. A rua é repleta de bares, um bar ao lado do outro, cada um com sua música particular. Por uma feliz coincidência, entramos num pátio onde um quarteto de músicos toca jazz. Assim que chegamos ao pátio e nos sentamos para tomar um drink, o vocal começa a cantar Unforgetable. Lindo! Fico emocionada. Me lembro especialmente de mamãe. Após algumas músicas, voltamos a caminhar pela Bourbon St. e adjacências. Brincamos de alternar coordenadas a cada esquina, de modo a nos desorientarmos um pouco, andando sem muito destino. A brincadeira proposta por L. é interessante.
Apesar da pouca iluminação das ruas (exceção da Bourbon St.), aprecio a arquitetura histórica. Encantadora! Casas de dois andares, com os dois pés direitos altos, se sucedem. Têm belas varandas, adornadas com estruturas de metal trabalhado. Lindos abalcoados, onde os visitantes ficam bebendo. A temperatura é bastante agradável.
Ao longo da Bourbon St. também há várias casas de striptease. Entramos em uma. Eis algo que sempre me despertou curiosidade. Não ficamos nessa primeira, que parece meio decadente. Tentamos uma segunda casa de strip-tease. Essa, sim, é interessante. Um lugar arrumado, com vários casais sentados nas mesinhas ao redor do placo central, onde uma bela negra faz movimentos super sensuais. A mulher é o que se chamaria no Brasil de mulherão. Grande, carnuda, voluptuosa. Veste uma calcinha mínima e sapatos plataforma brilhosos, de salto enorme. Dança e brinca com casais. Sua habilidade no Pole Dance é impressionante. Clientes jogam notas de dólares no palco, e alguns engancham as notas na calcinha da dançarina, homens e mulheres. Garçonetes desfilam de calcinha e sutiã. Ao final da apresentação, a dançarina recolhe seus dólares num balde, enquanto outra dançarina entra e cena e começa seu número.
Saímos dali e continuamos caminhando pelo French Quartes. Numa casa, rapazes com toda pinta de homossexuais fazem uma festa particular. É bem tarde e resolvemos voltar para casa. No caminho de volta ao carro, passamos por uma locação de filme. Vários caminhões, cheios de apetrechos estão estacionados nas proximidades de um antigo e belo sobrado. Já havia visto esses caminhões na estação central. O senhor que me ajudou com a bagagem na minha chegada de trem, me disse que estão rodando um filme na cidade. Aliás, foi mais um sulista extremamente amável comigo.
A viagem de volta para Baton Rouge me parece interminável, porque estou muito cansada. É difícil me manter acordada, e dou graças a Deus quando finalmente chegamos e eu me encontro com minha cama.

Dia 11: Chegando à Lousiana

16/4/15

Boa e necessária noite de sono. O Nola Jazz House é um albergue super charmoso, localizado numa vizinhança simpática, na parte superior da Canal St. Uma casa antiga, mas reformada, em madeira branca, com varanda, de arquitetura típica da cidade. Ambiente agradável e descolado, com belos grafites, tendo o Jazz como motivo. Oferece café da manhã, com massa para panquecas ou waffles, além de café ou chá. O refeitório é coletivo, e, obviamente, movimentado. Converso rápida e superficialmente com uma jovem americana, um rapaz francês e uma moça alemã.
Quando volto para o meu quarto, após o café, uma surpresa desagradável. Um aviso no meu computador, supostamente da Microsoft, avisando que eu posso ter sido vítimo de roubo de identidade. O aviso pede que eu entre em contato com um número de telefone. Faço isso, e uma voz de homem indiano começa a me explicar os perigos a que estou exposta. Meu computador teria sido infectado por um Trojan, vírus perigoso, que pode ter infectado outros aparelhos que mantenho conectados à internet. O homem fala com tranquilidade e segurança, e eu, estupidamente, lhe dou crédito. Lhe franqueio acesso remoto ao meu computador. Ele vai me mostrando as vulnerabilidades da minha máquina. Ao final de uma ,onga demonstração, me sugere uma empresa que resolve esses problemas on-line. Custo: 200 dólares. Pergunto sobre algum endereço físico próximo, credenciado ou recomendado pela Microsoft. Ele tenta me convencer que eu teria de pagar 500 dólares num serviço off-line. Quer transferir minha ligação para a empresa on-line. Eu insisto num serviço off-line. Após alguns minutos, ele me dá um endereço em Ohio. Agradeço e desligo o telefone. Localizo uma assistência técnica próxima ao albergue e caminho uns quatro quarteirões até lá. Aproveito para conhecer a vizinhança. Uma graça, por sinal, com suas casinhas de madeira avarandadas. Na assistência técnica, o rapaz que me atende é de uma solicitude surpreendente. Ele precisaria ficar com o computador por uns dois dias, para fazer uma verificação completa e remover qualquer tipo de ameaça por ventura existente. Explico que não posso deixar o computador porque tenho que seguir para Baton Rouge. Ele, então, baixa um programa, faz uma verificação básica, me explica que tentaram me aplicar um golpe e que talvez meu computador não tenha nada. Localiza uma assistência técnica em Baton Rouge e liga para lá. Sim, eles poderiam cuidar do problema pra mim. Passo cerca de uma hora e meia nessa loja. Ao final, ele não me cobra nada. Fico impressionada com sua amabilidade e generosidade, e ele me diz que faz parte da hospitalidade sulista, e que eles realmente levam isso a sério.
Saio da loja mais tranquila e passo numa farmácia. No caixa, pergunto por alguma lavanderia perto. Preciso lavar roupa. A caixa não sabe informar, mas duas senhoras que estão na fila, me indicam um endereço próximo. Uma delas pega um papel e desenha pra mim. Caminho até a lavanderia. A senhora que toma conta da lavanderia também é um amor comigo. Me dá todas as orientações, opera as máquinas pra mim, troca meu dinheiro. Ficamos conversando, e ela me conta que seu filho mudou para Nova Orleans após o Kathrina, para trabalhar na reconstrução. Me explica que muitos centroamericanos chegaram à cidade nesse período, para trabalhar na construção civil. Já se passaram 10 anos desde essa tempestade que devastou Nova Orleans! Incrível como o tempo passa sem que a gente se dê conta direito.
Resolvidas essas questões práticas, regresso à pousada, pego minha bagagem e chamo um Uber para me levar à estação central, de onde partem trens e ônibus. A estação de Nova Orleans é bem mais bonita que a de Nova Iorque, além de mais organizada. Há belos painéis por toda parte, retratando a história de Lousiana. Poucas pessoas ocupam os muitos bancos do hall central. O faxineiro da estação se aproxima e começa a conversar comigo. Veio de Honduras e mora há mais de 20 anos na cidade. Gentilmente me ajuda a carregar minha mala até o ônibus, quando chamam pelo embarque pelo sistema de auto-falantes da estação.
O ônibus me parece bastante velho. Sento ao lado de um senhor negro. Também ele super gentil. Conversamos ao longo da viagem. Uma tempestade nos pega pelo caminho, mas trafegamos por uma bela highway, portanto, fazemos a viagem sem maiores sobressaltos. Ao chegarmos na estação de Baton Rouge, o senhor desce comigo, me empresta seu telefone para que eu possa chamar D. e avisar que cheguei. O telefone não atende. Um ligeiro sobressalto me toma. Já é noite e a estação tem pouco movimento. Pergunto por um táxi a um funcionário da estação. Um taxista se materializa na mina frente. Providência divina. Me despeço do me companheiro de viagem, profundamente impressionada com a amabilidade dos sulistas. É um trato efetivamente distinto de qualquer outro lugar dos Estados Unidos onde eu tenha estado. Essa amabilidade é muito reconfortante, sem dúvida.
O táxi me leva ao subúrbio de Baton Rouge. Uma viagem de uns 20 minutos, relativamente cara. D. e seu marido, C., me esperam para o jantar. C., um legítimo cajun guy, preparou um lombo de porco com molho de cogumelos, absolutamente delicioso. Gosto do jeito de Charlie. É um homem da terra, telúrico mesmo, eu poderia apostar. Vive em outra casa que eles têm, no interior, nos pântanos. Seus ancestrais vieram do Canadá e se estabeleceram em Lousiana há quase trezentos anos.
Descubro que o casal perdeu um filho de 21 anos. À primeira vista D. é uma figura muito interessante. Recebe estrangeiros em casa desde seus 26 anos, já foi responsável por um programa de intercâmbio de jovens. Me conta que sempre tem pessoas de fora em casa. Conheço L,, jovem de origem vietnamita, bastante reservado, na realidade, um tanto estranho. D. me mostra meu quarto. À parte a bagunça da casa, creio que ficarei bem instalada. Após ajudar com a louça do jantar, me recolho ainda bastante cansada da viagem de trem.

Dicas de viagem:
Para quem decidir viajar de trem, convém levar apoio para a cabeça e cobertor. Nada disso é oferecido pela companhia (Amtrak). Não cheguei a sentir frio na viagem, porque tinha meu casado à mão e uma pashmina, mas a temperatura dentro do trem era fria pra mim.

É bom sempre pedir a estimativa de preço quando se chamar um Uber. Não fiz isso em Nova Orleans e acabei pagando bem mais caro na corrida para a estação do que havia pago pelo táxi comum que fez o mesmo trajeto entre o albergue e a estação de trem/ônibus.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Dia 10: De Nova Iorque a Nova Orleans, no Crescents

15/4/15

Viajando de trem desde ontem à tarde.
Sentada à mesinha onde escrevo, observo a paisagem composta basicamente de árvores esguias, com folhagem esparsa. O verde claro de suas folhas contrasta com o escuro de pinheiros que aparecem de vez em quando. Algumas casas solitárias em meios a vastos gramados, um pequeno lago, um riacho, uma vila à beira da estrada... inevitável comparar com as vilas de beira de estrada do nosso Nordeste, com suas casinhas simples de alvenaria ou de taipa, caiadas, baixinhas e humildes; casas meio que perdidas no meio da paisagem, sugerindo pessoas esquecidas, também elas quase que perdidas nesse mundo todo feito contra elas, para citar Clarice. A vila de beira de estrada que vejo pela janela do trem que me leva a Nova Orleans, com suas casas e edifícios de tijolo aparente, ou mesmo de madeira pintada, sugere uma imagem oposta: ordenamento, afirmação da vontade humana, domínio do espaço, amparo.
O céu cinzento, desde ontem, destaca o verde das árvores, que não precisa competir com o azul de dias ensolarados. Curiosamente, o nublado do dia parece combinar com o doce balanço do trem. Há uma certa melancolia nessa combinação. Não uma melancolia que entristece, mas uma que favorece a introspecção. Estou curtindo bastante a viagem de trem, que me foi inspirada por Gilberto Freyre. Ainda não chegamos ao Deep South, e anseio por ver essa paisagem social que tanto o impressionou. Verdade que dormir numa cadeira de trem, por espaçosa que seja, não é o melhor dos sonos, mas ainda assim me sinto repousada. Acabo de tomar café com uma senhora de Nova Iorque, no restaurante do trem. Chama-se Sarah. Dado que a viagem de trem é relativamente mais cara que a de avião, lhe pergunto porque fez a opção de viajar por terra. Afinal, trata-se de um longo percurso. Quase trinta horas entre Nova Iorque e Nova Orleans. Me responde que não conseguiu vôo direto e sente muito a pressão nos ouvidos, na descida do avião. Viaja de trem para evitar o desconforto que seria duplicado por uma conexão.
O trem é antigo e não tem maiores confortos. Há uma área com mesinhas onde se pode sentar para comer, escrever ou simplesmente mudar de ambiente. Em longos intervalos há pausas extensas para que os passageiros possam descer e caminhar um pouco. Os funcionários são bastante simpáticos. A grande maioria é de negros. É curioso como o serviço público, nos Estados Unidos, tem presença massiva de negros. Eles estão nos correios, no transporte público, na segurança.
O processo de embarque na estação de trem me pareceu bastante curioso. Aliás, há algumas coisas que impressionam nos Estados Unidos pelo insuspeitado grau de desorganização e aparente precariedade. Assim se passa com o metrô de Nova Iorque. Idem com o sistema de trens (Amtrak). A pessoa chega à estação e não encontra nenhuma indicação clara de como a coisa funciona. Você, então, se dirige ao guichê de informações e descobre que a primeira providência é despachar a bagagem num guichê ao final do corredor. Tomada essa providência, a pessoa volta ao guichê de informações e descobre que precisa ficar observando um velho painel que pende do teto e se encontra situado bem no meio da estação. Ali estão dispostos os nomes e horários dos trens. Passageiros se aglomeram em volta do painel, esperando que apareça a indicação do portão de embarque do seu trem, que pode estar a Leste ou a Oeste. As indicações aparecem cerca de 15 ou 10 min antes da partida do trem. Isso significa que quando o número do portão aparece no painel, provoca uma corrida desesperada de passageiros, que se precipitam na direção indicada. Percebe-se uma curiosa aflição no ar. Certamente um receio maio “atávico” de perder o trem, já que se dispõe efetivamente de pouco tempo para embarcar.
Confesso que o ambiente da estação, o processo de embarque e o próprio trem me provocaram essa estranha sensação de precariedade, muito pouco condizente com os Estados Unidos do século XXI. Um curioso anacronismo, mas com sabor de pitoresco para mim, que adoro esses anacronismos sociais. Afinal, uma viagem de trem tem tudo a ver com isso. Aprecio a temporalidade do trem, no seu movimento lento e compassado. Até o balanço do trem me agrada. À noite, me deu a sensação de um movimento de ninar. Se não fosse pela minha bursite, que me obrigou a ficar mudando de lado a noite toda, acho que teria dormido horas a fio, sem despertar. Os assentos são largos, reclinam bem e o apoio para as pernas sobe bastante. É possível encontrar uma posição relativamente confortável para dormir.
Aviões têm tudo a ver com o frenesi e o ritmo acelerado da vida contemporânea. São um meio de transporte para quem tem pressa de chegar. Trens implicam uma outra temporalidade, um outro ritmo. Exigem paciência e disposição para entregar-se à viagem e desfrutar o percurso. Como o Universo é perfeito – quando há confiança e entrega --, sinto que essa viagem de trem está acontecendo no momento perfeito. É o prelúdio de uma nova etapa dessa minha travessia, e um importante estímulo para a desaceleração que pretendo alcançar na minha vida.
A medida em que nos aproximamos do Sul, o céu vai abrindo e pedaços de azul aparecem em meio às nuvens. Infelizmente, temos um acidente com o trem. Uma pessoa cruzou a linha férrea e foi morta. Nos anunciam que ficaremos parados por três ou quatro horas. Estamos no Mississipi e o acidente aconteceu junto a uma área pantanosa. Da janela do trem observo as árvores alagadas e avisto uma pequena tartaruga nadando.
Todos no trem estão consternados, obviamente. Rezo pela pessoa acidentada, e me pergunto o que leva alguém a atravessar uma via férrea, com um trem enorme e pesado vindo em sua direção...
Ficamos umas duas horas parados na linha férrea e chegamos a Nova Orleans quase às dez da noite. Na estação, o senhor que me entrega minha mala é mais um fã do Brasil. Assim como o motorista de táxi, etíope, que me leva ao albergue, um ambiente super descolado, numa das casinhas de arquitetura típica da cidade. Vejo pouca coisa no caminho, mas meu coração me diz que vou adorar a Lousianna.


Dicas de viagem:
As passagens de trem podem ser compradas pela internet, no site da Amtrak. Mas o trem é recomendável apenas para quem quer fazer uma viagem de trem, ou tem problemas com avião. Na realidade, acaba sendo mais caro, especialmente se a pessoa quiser uma cabine com cama. Achei a viagem entre Nova Iorque e Washignton rápida, e imagino que o trem pode ser uma opção economicamente interessante para essas viagens mais curtas, em que a ponte área muito concorrida pode ser bem cara.
Quem tiver bagagem para despachar deve chegar 45 minutos antes. Considerando-se o trânsito de Manhattan, convém sair “de casa” umas duas horas antes. Se a pessoa tiver uma bagagem pequena, vale a pena pegar o metrô. A estação 34St. é exatamente a mesma da Amtrak.


O Moma e a 5ª Avenida






Para quem tem qualquer grau de apreço pela Arte Moderna, o Moma é um endereço obrigatório. Fui com a intenção de passar duas horas, e acabei passando quase três, apenas no 5º andar, onde fica a coleção de obras do final do XIX até os anos 40 do século XX. É bem verdade que esse é o meu período favorito no que se refere às artes plásticas, e a depender dos interesses e preferências do visitante, a visita pode ser mais ou menos curta. No total, passei quatro horas no museu, incluindo o 4º andar, onde se encontra a coleção pós-Segunda Guerra e o jardim interno, onde há algumas poucas esculturas – dentre as quais uma cabra de Picasso me pareceu a peça mais interessante.
O 5º andar do Moma tem vários obras importantes – e belas – dos grandes nomes da pintura Moderna, como Picasso, Matisse, Van Gogh, Klint... é uma visita emocionante, desde que seja feita sem pressa. Aliás, aproveitei essa visita ao Moma para exercitar uma das posturas que pretendo amadurecer e incorporar: estabelecer prioridades e ordenar o tempo de acordo com elas. Não apenas quando se está viajando e visitando uma cidade cheia de coisas interessantes para fazer, mas principalmente no cotidiano atribulado, quantas vezes me deixo levar pela ilusão de que darei conta de fazer uma lista enorme de coisas num único dia. Incapaz de olhar para minha lista de tarefas, ou de interesses, e escolher aquilo que é efetivamente importante para mim, vou tentando fazer tudo. O resultado é, invariavelmente: frustração ou esgotamento (madrugadas insones, trabalhando, quando deveria estar dormindo).
Sei disso, mas como é difícil mudar um hábito, uma postura! Na véspera da minha visita ao Moma, havia tomado mais uma lição da vida (que é implacável). Achando que dava pra visitar o Harlem, atravessar o Central Park e chegar às 15h na Broadway, meti os pés pelas mãos, e por muito pouco não perco minha peça, cujo ingresso custou mais de 300 reais (são muito caros os ingressos para esses espetáculos). Na verdade, perdi os primeiros 10 minutos de peça, mas achei que seria muito pior. Para meu alívio, descobri que se pode entrar nos teatros da Broadway mesmo depois do espetáculo começado, ainda que você fique de pé, no fundo, esperando uma ocasião propícia para ser conduzido ao seu assento.
O fato é que o episódio me serviu como mais um puxão de orelha. Preciso lutar, com todas as forças, contra a tentação de acreditar que posso fazer tudo e mais alguma coisa num único dia. Foi assim que, ao chegar no Moma, escolhi começar pelo que mais me interessa nas artes plásticas, e fui diretamente ao 5º andar. Meu plano era seguir dali para o Guggenheim. Com meia hora de Moma, fiz uma reflexão e decidi esquecer o Guggenheim. Melhor usufruir intensamente daquelas obras incríveis, que estavam ali, à minha disposição, do que não aproveitar bem, nem a coleção do Moma, nem a do Guggenheim. Voltarei a Nova Iorque uma outra vez, e então visitarei o Guggenheim. E se isso não for possível, paciência. Tomada essa sensata decisão, aproveitei cada minuto passado no Moma. Também decidi concentrar-me no 5º andar, já que não sou grande apreciadora da Arte Contemporânea. Acabei passando rapidamente pela coleção do 4º andar. Mas o importante é que pude fruir, com calma, atenção e emoção, cada um dos incríveis quadros dos meus pintores preferidos.


O Moma fica pertinho da 5ª Av. Como tinha tempo antes da ópera, fui caminhar um pouco por esse elegante trecho de Manhattan. A 5ª. Av. é o endereço imperdível de quem vai a Nova Iorque interessado em compras. Não é  o meu caso. Pra mim, o que vale a pena na 5ª Av. é a catedral de Saint Patrick, realmente bela e imponente, além das várias outras igrejas e templos que se espalham ao longo dessa via. Gosto da sensação de estranhamento que a presença desses lugares sagrados, entre prédios enormes e lojas chiquérrimas, me causa. Há várias igrejas ou templos ao longo da 5ª Av., justo nos trechos mais movimentados, onde o vai-e-vem de turistas e de nova-iorquinos, com seus elegantes sobretudos, é intenso. Já na lateral do Central Park, numa área mais residencial e mais tranquila, há uma bela sinagoga, em estilo românico. Acho que se chama templo de El-Manuel. Na fachada, uma estrela de Davi bem no meio de uma grande rosácea. Mas ao contrário do que se passa com a catedral de Saint Patrick, a Sinagoga parece perfeitamente harmônica em meio aos edifícios elegantes e claros do East Central Park.

Dicas de viagem:
Mesmo para quem não aprecia tanto a Arte Moderna, registro que vale a visita ao Moma para ao menos conhecer quadros emblemáticos, como as Démoiselles d´Avignon, de Picasso, Dance, de Matisse, ou Noite Estrelada, de Van Gogh. O museu disponibiliza um aparelho de áudio gratuito, com comentários sobre os principais quadros da coleção. Nas plaquinhas ao lado dos quadros comentados há um símbolo indicando a existência do comentário em áudio e o número do arquivo. É só digitar esse número e escutar a gravação. Aprendi muitas coisas interessantes com esse dispositivo.

The Jane Hotel


Como é importante estarmos sempre prontos a superar as primeiras impressões.
Na noite em que cheguei a esse hotel, pensei que tinha entrado numa roubada. O quarto minúsculo me deu a sensação de que estava pagando caro por algo que não valia. No entanto, a cada dia me senti melhor no hotel, até que fui embora com pena e uma certa vontade de voltar. Ou seja, acabei adorando o The Jane. Trata-se de um prédio antigo, inaugurado em 1908, como um hotel para homens do mar, marinheiros e oficiais. Por isso os quartos são efetivamente pequenos. Lembram uma cabine de navio. Tudo no quarto é compacto e ele não comporta uma mala inteiramente aberta. O banheiro é coletivo, e fica no final do corredor (tem uma ducha incrível! O banho é delicioso). Certamente, não é um hotel para quem deseja espaço e privacidade. Apesar do que, há quartos maiores, para casais (provavelmente os que pertenciam aos oficiais).
O fato é que para viajantes solitários e com espírito de despojamento, o The Jane é perfeito. Ainda mais se esse viajante tiver uma sensibilidade nostálgica como a minha. Tudo no hotel remete ao tempo de sua construção. Do hall, com colunas espelhadas e animais empalhados nas paredes, aos corredores estreitos, acarpetados e iluminados a meia-luz por luminárias em forma de pequenos abajures. Um tom salmão predomina por toda parte e há vários toques orientais, mas no estilo decorativo que se usava no início do século XX, quando o Oriente se tornou moda e invadiu muitos dos mais elegantes salões da Europa e dos Estados Unidos. Os banheiros também preservam ares do início do século passado, mas com outro estilo. São sóbrios e elegantes, com suas pastilhas em branco e preto.
Gostei do cheiro do hotel, que é muito organizado e limpo. Por duas vezes cruzei com uma senhorinha negra, bem idosa e encurvada, limpando o banheiro, com imenso capricho e paciência. Não esquecerei do perfume sempre presente no banheiro e nos quartos, florido, mas suave, agradável e em total harmonia com o ambiente, como se também ele pertencesse a um tempo passado. O único elemento a destoar da forte impressão de ordem e limpeza é o tapete do elevador, demasiado esgarçado e cheio de manchas.
O The Jane guarda uma curiosidade histórica. Abrigou os sobreviventes do Titanic, enquanto se concluíam as investigações preliminares. E uma cerimônia fúnebre foi realizada no seu salão alguns dias após o naufrágio.
Na entrada do hotel, à esquerda, há um restaurante que parece bastante concorrido. Chama-se Gitane. Tomei café da manhã nesse restaurante, onde as referências ao Oriente são ainda mais marcadas na decoração. Nota-se que é um restaurante frequentado pelos locais. Pelas noites, no final de semana, realizam-se festas no salão do The Jane. Sábado à noite, voltando da ópera, bem tarde, tomei um susto com a quantidade de gente na porta, fazendo fila para entrar na festa. Achei bem curioso.

Um dia, resolvi descer de escada, em lugar de tomar o elevador, e acabei saindo dentro do salão de festas. Um enorme salão, decorado com alguma suntuosidade e inteiramente com motivos orientais. Me senti num romance qualquer do século XIX, ou princípios do XX. Fiquei surpresa e intrigada. Procurei me informar. Parece que as festas aí realizadas são privadas. Não seria mal observar uma delas. Quem sabe numa próxima vez? Quando voltar a Nova Iorque gostaria muito de ficar novamente no The Jane.

O burburinho de Times Square


Times Square é, talvez, o lugar mais simbólico da Big Apple. Já registrei como é impressionante a profusão de luzes coloridas e o fluxo intenso e meio frenético de pessoas. Parece que o mundo inteiro está ali. A cada dois passos alguém empunha uma máquina fotográfica ou faz um selfie com um celular. Pelas calçadas da 7 Av. personagens de filmes disputam a atenção dos turistas. Querem dólares em troca de uma foto. Olaf, Hannah, Elsa, os Minions, um decadente e roto Capitão América, e um bizarro cowboy com suas cowgirls. Trata-se de um belo rapaz, com compridos cabelos castanhos-claros, vestido de cueca, botas, chapéu, com a bandeira americana pintada no corpo, empunhando uma guitarra, e de algumas moças, de calcinhas vermelhas rendadas, minúsculas, de botas e o resto do corpo coberto por uma pintura da bandeira americana. Não sei se acho isso curioso ou simplesmente patético. Numa das vezes em que cruzo Times Square, olho para o lado e vejo uma moça relativamente feia tirando uma foto com o belo e ridículo cowboy. E viva a diversidade do mundo.
Entro numa loja do Walgreens e testemunho uma triste cena. Um gerente indiano repreende um senhor negro, idoso e encurvado, que se apoia numa bengala e parece suster-se de pé com dificuldade. O gerente lhe fala com calma e educação, mas com firmeza. Lhe diz que há câmeras por toda parte e que ele não deveria fazer aquilo. Pede que o senhor devolva o que estava tentando furtar, o que ele acaba por fazer. Porém, tão logo devolve a comida, o senhor negro começa a esbravejar e ofender o gerente indiano, que o havia tratado com um respeito e uma delicadeza quase incondizentes com a situação. O senhor grita que ele deveria ir embora da América e que ele sabe muito bem o que é uma guerra, e sai da loja esbravejando, enquanto o indiano se afasta, de modo a evitar um atrito maior.
A Times Square concentra todos os teatros onde se pode ver os espetáculos da Broadway e muitos off-Broadway. Assisto a uma peça com Hellen Mirren: The Audience. O texto não tem nada de muito especial. Os vários primeiros-ministros do reinado de Elizabeth II se sucedem nas audiências com a rainha, que tratam de assuntos domésticos a episódios dramáticos da história do mundo nos séculos XX e XXI. Nada de muito especial, a não ser pela interpretação de Hellen Mirren, que é mesmo uma excelente atriz. Seus diálogos -- e a relação -- mais interessante se dão com um primeiro-ministro que eu desconhecia, Wilson (excelente ator também!).
O que eu adorei assistir foi The Book of Mormon. Nem sou muito afeita a musicais, mas adorei o texto inteligente, irônico (sarcástico em vários momentos) e engraçado. A montagem e os atores são excelentes. Realmente, um espetáculo que vale a pena assistir. Boa indicação de Fabinho.
Como Times Square é diverso e pode ser surpreendente, também foi lá que assisti a uma linda missa, no domingo. Tinha passado o dia todo procurando por uma igreja. Saí da peça e fui a um Starbucks para usar o sinal da internet e tentar localizar uma missa de final de tarde em NY. Sem obter sucesso na minha busca, pois aparentemente não havia mais missa depois das 17h, resolvi arriscar a compra de um ingresso para The Book of Mormon. Quando estava chegando ao teatro, vi uma igreja do outro lado da rua e havia pessoas entrando. Corri para lá e uma missa estava começando. Eram 18:10h. A igreja de São Malaquias tem estilo gótico, mas é pequena, portanto, sóbria e aconchegante. A missa foi linda, toda cantada, e o padre era jovem e carismático. Fiquei profundamente comovida, e agradecida por vivenciar aquele momento. Mais uma lição sobre a importância da entrega ao Deus que nos ama. Eu procurando a missa, e a missa me achou. Aliás, o sermão foi exatamente sobre a Misericórdia divina, que não é outra coisa senão um Amor infinito por nós, e a despeito de nossas limitações.

Dicas de viagem:

Em quase todas as esquinas da área central de Nova Iorque, o que inclui Times Square, há uma carrocinha de halal food. É comida árabe, mas não sei bem de que país, ou países. O fato é que os homens que estão à frente das carrocinhas (nunca há mulheres) falam árabe e têm biotipo árabe. O cheiro que essa comida exala é marcante e muito perfumado, irresistível, eu diria. Comi um sanduíche de falafel numa esquina da 6ª Av. que estava simplesmente divino. Os falafels foram fritos na hora e estavam muito crocantes, além de extremamente saborosos. O melhor falafel que já comi na vida. O vendedor me explicou que halal significa sagrado. Acabou virando um nome comum para esse tipo de comida árabe que se vende nas esquinas de nova Iorque.

Um domingo no Harlem


Foi pura coincidência, mas acabei descobrindo que domingo é um ótimo dia para se visitar o Harlem. Não creio errar ao pressupor que só aos domingos se pode ver as senhorinhas super arrumadas para os cultos, com seus casacos, sapatos alinhados e, principalmente, seus chapéus de cores e formas as mais inusitadas. Assisti a uma cena graciosa. Uma avozinha saindo de sua igreja toda na beca, com chapéu e sapatos vermelhos. Um carro encostou no meio-fio para apanhá-la. Ela se aproximou da mala, tirou um par de tênis de dentro e se pôs a descalçar seus elegantes sapatos vermelhos, para pôr os tênis. Como se tratava de uma pessoa idosa, e a operação requeria alguma flexibilidade e esforço físico, foi custosa e demorada.
Eu queria ter ido assistir a algum culto gospel, mas cheguei tarde. Em geral, eles vão até as 11 da manhã. Descobrir que assistir aos cultos gospel virou atração turística. Por isso, os guias recomendam que se vá logo cedo, por volta das 8 da manhã, quando os turistas ainda não saíram de suas camas.
Duas coisas me impressionaram no Harlem. A primeira é a tonalidade de cores das casas do bairro. É tudo ocre no Harlem! De um ocre sombrio e triste. É quase que sem respiro essa paisagem urbana, onde é difícil ver alguma manchinha branca, que se dirá mais colorida e alegre. Essa é mais uma imagem de Nova Iorque que me parece incongruente. Culturas e sociedades negras sempre me sugerem cor e alegria. É simplesmente estranho que essa vizinhança negra, em Nova Iorque, seja tão monocromática, esteticamente tão pobre, fechada, e, sobretudo, sem alegria.
A outra coisa que me impressionou no Harlem foi a profusão de igrejas na Av. Malcom X. Num pequeno trecho contei cerca de vinte, e de distintas denominações. Católicas, batistas, episcopais, evangélicas. Pra todos os gostos e credos. E sempre a poucos passos umas das outras. Paro diante de uma delas. Me chama a atenção um absurdo letreiro com texto homofóbico. Uma senhora, branca, se aproxima de mim e expressa sua indignação com o letreiro. Eu tento acalmá-la e lhe digo que não é nessa direção que o mundo está caminhando. Temos uma tendência natural para valorizar o momento em que estamos vivendo, o que nos leva a perceber os problemas de forma mais dramática. Mas a verdade é que quando olhamos a longue durée, como dizem os franceses, ou seja, os períodos extensos, nos damos conta de que apesar de todos os males e mazelas que persistem, a humanidade vem avançando em muitos aspectos, inclusive no que diz respeito ao bem-estar social e aos direitos humanos e das chamadas minorias.

Tento visitar um centro de cultura e herança negra, mas está fechado. Um homem à porta começa a conversar comigo e quando lhe digo que sou do Brasil faz a maior festa. No seu caso, adora futebol. Também queria muito ter almoçado no Sylvia´s, que Verônica me recomendou muitíssimo. E deve ser bom mesmo, porque estava lotado. Gente esperando do lado de fora. Infelizmente, tenho um espetáculo para assistir e não posso esperar o atendimento. Coleciono mais uma boa razão para voltar a Nova Iorque.