quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 6


16/09/15

Bom dia, Nica!

Ontem cheguei exausta. Ainda tentei escrever alguma coisa, mas o cansaço falou mais forte. Pelo menos dormi super bem. Estamos numa pousada cheia de astral. Chama-se Estrela Guia e, para minha grata surpresa, é de uma gaúcha. Natália se apaixonou por um espanhol, se apaixonou pelo Caminho e abriu essa pousada. Pelas paredes tem várias mensagens escritas a mão, com desenhos coloridos. Algumas têm a forma de um coração. Uma gracinha. E ela é um amor de pessoa. Fez a gente se sentir em casa. Além disso, dormimos só eu, Norma e Tom num quarto. Camas novas, tudo limpinho. Foi um bom descanso depois de um dia puxado.
 Puente la Reina, a cidade onde estamos, é uma jóia medieval. Ruas estreitas, com casas altas, paredes de pedra, tudo meio ocre. Duas igrejas com altas torres. Uma delas, a Igreja do Crucifixo, tem uma imagem raríssima: um crucifixo em forma de Y. O Cristo é longilíneo e tem braços bem compridos. E, claro, há toda aquela impressão de sofrimento tão de gosto da Idade Média. Mas ao mesmo tempo, a face dele tem uma certa serenidade. Segundo nos explicou um rapaz à entrada da cidade, esse Cristo crucificado pertenceu aos Cavaleiros Templários, e é do início do século XII, como a Igreja também. No altar principal, uma imagem de Nossa Senhora sentada num trono, com o Menino Jesus no colo. Numa das mãos ela segura uma bola. Essa é uma representação super comum de Nossa Senhora aqui em Navarra. Quase todas as Igrejas medievais que tenho visitado têm esse tipo de imagem. Em Pamplona, no museu diocesano contíguo à Catedral, há uma exposição com várias dessas imagens, entre os séculos XII e XIV. Gosto muito das imagens dessa época, porque elas têm uma desproporção interessante. Geralmente, troncos e cabeça são maiores do que as pernas, e as feições são mais longilíneas. É uma representação muito particular. Tem uma certa
Bom, ontem, a caminhada entre Pamplona e Puente La Reina é bem pesada. Até aqui, só perdeu para o primeiro dia. Fizemos 24 km em dez horas e meia. Esse trecho do Caminho tem uma subida considerável, que não chega a tirar o fôlego, mas dá uma boa canseira.
Em Pamplona, apesar do albergue ser muito legal, todo novinho e bem organizado, cada cama com sua cortininha, com se fosse um pequeno quarto, não dormi tão bem. E, como sempre, acordamos por volta das sete horas, quando o barulho dos demais peregrinos se organizando para sair torna impossível a gente continuar dormindo. Também como de costume, eu, Tom e Norma fomos praticamente os últimos a sair do albergue. Tomamos um café da manhã simples, mas gostoso, no próprio albergue, nos despedimos de Natália, a simpática e falante dona, e começamos a caminhada do dia. Cruzamos a parte antiga de Pamplona – ao som dos sinos da Igreja de São Lourenço --, saindo por uma porta do lado oposto ao que entramos. Essa saída é bem bonita, porque passa pelo meio de um belo e amplo parque, onde se situa a Ciudadela, que é uma grande fortaleza, construída no século XVI e em excelente estado de conservação. Terminado o parque, seguimos caminhando por uma área bem mais moderna (e sem graça) de Pamplona, até chegarmos à Universidade de Navarra. O campus é um charme, com um belo gramado, árvores, riacho, pontezinha. Realmente agradável. Faz um forte contraste com o cenário que vem depois, quando a gente começa a sair de Pamplona. Fábricas, condomínios de prédios tipo caixote, sem charme nenhum. E a gente segue caminhando junto a uma autoestrada. Logo chegamos a uma cidadezinha chama Cizur Menor, onde há uma igrejinha medieval, que, todavia, estava fechada.
O caminho até Puente la Reina é quase todo de uma boa subida. Logo após Cizur Menor, começamos a caminhar por áreas de cultivo. Só que os campos, em sua maioria, estavam vazios. Colheita terminada. Só havia terra e pedras. A paisagem, portanto, me deu uma sensação de aridez. Lá no fundo, montanhas. Creio eu que sejam os Pirineus, que estamos deixando para trás. De vez em quando, cruzamos alguns trechos com arbustos de um lado, ou do outro. Muitas amoras silvestres, que vale a pena experimentar. São um pouco mais azedinhas que as amoras que a gente compra no supermercado, e menores, mas gostosas. Passamos por um imenso campo de girassóis, que estavam completamente murchos e com que queimados do sol. Fiquei só imaginando como deve ser lindo quando os girassóis estão em plena floração!
No povoado de Zariquiegui, Padre Thomas, que estava caminhando conosco (de batina e tudo!), celebrou uma missa na Igrejinha de Santo André! Foi uma linda surpresa. Um presente dos céus. A Igrejinha é medieval, século XII, se não me engano, e tem um altar entalhado em madeira, simples, mas que vai até o teto, como todos que tenho visto. Geralmente, esses altares têm vários nichos de imagens, organizados em colunas, cujo número varia conforme o tamanho da parede. No nicho central fica a imagem de quem dá nome à Igreja. E no topo de tudo (às vezes tão alto que a gente mal consegue ver), um nicho com uma cena da crucifixão. Esse, de Santo André, é pequeno, como eu disse, com poucas imagens. E justamente de uma simplicidade encantadora. Agora, imagine que nesse ambiente medieval, o Padre estava celebrando a missa com seu smartphone, onde ele podia consultar a liturgia e fazer as leituras do dia. Após a missa, aproveitamos para almoçar no bar que há do outro lado da rua. Almoçamos com Padre Thomas, que é de Atlanta, e um senhor cubano chamado Francisco. Ele saiu de Cuba criança e nunca mais voltou. É um dos exilados da Revolução. Obviamente, ele odeia os Castro e se ressente profundamente de não ter mais retornado à sua terra natal. Pude sentir que ele carrega uma tristeza e um tumulto dentro da alma. Ele caminhava junto com Padre Thomas.
Bom, após essa pausa veio a parte ais difícil do dia: a subida do Alto del Perdón. Pelo nome você tem uma ideia da empreitada. Reza a tradição que os peregrinos que conseguiam chegar até esse Alto, estavam perdoados de seus pecados. E se morressem antes de chegar a Santiago, os pecados subsequentes também estariam previamente perdoados. Descobri ontem que na Idade Média, apenas 1 de cada 3 peregrinos conseguiam chegar vivos a Santiago! O caminho até o Alto del Perdón continua pelo meio das plantações, até chegar a um parque eólico, situado nessas colinas. Chegamos ao Alto debaixo de chuva e com um vento fortíssimo. Lá em cima, uma escultura de ferro representa os peregrinos das várias épocas. A descida do Alto é um pouco capiciosa, porque a estradinha é toda de pedrinhas redondas, soltas, e areia. Em Pamplona eu comprei uma joelheira e ela me ajudou muito! Eu vinha sentindo meu joelho esquerdo, um pouco, e ontem não senti absolutamente nada nessa descida.
Após passarmos por mais três povoados com suas casinhas de paredes brancas ou em pedra (cor de ocre), e suas Igrejinhas medievais, chegamos finalmente a Puente La Reina, que eu já te descrevi acima. Ah! No povoado de Obanos, a Igreja de São João Batista vale a pena ser visitada. Tem uma imagem lindíssima de Nossa Senhora (aquela sentadinha no trono com o mundo nas mãos e o Menino Jesus no colo), com um enquadramento em prata, incrustado de pedras preciosas.
Uma coisa boa do Caminho é que, tirando o primeiro dia, quando a gente cruza os Pirineus e não tem sinal de civilização por 16 kms, nos demais trechos que fizemos, sempre tem esses povoados no meio da jornada, com pelo menos um café e um albergue ou pousada familiar. Então, dá pra você descansar, beber ou comer alguma coisa, usar o banheiro. Ontem mesmo, à tarde, paramos dois povoados antes de chegarmos a Puente la Reina, para tomar um chá e descansar, porque já estávamos exaustos. Nessa altura ainda faltavam 4,5 kms para chegarmos, e eu confesso que estava exausta.
Hoje serão mais 24 Kms até Estella. Porém, parece que é tudo plano. Hoje acordei com a planta do pé direito bem dolorida, e minha coluna (na região dorsal) também está reclamando. Veremos o que acontece. Se eu não conseguir chegar até Estella, fico num dos povoados do meio do caminho. É uma grande vantagem não ter data pra terminar, porque a pessoa pode ir respeitando o ritmo do organismo. E, o que talvez seja ainda mais importante, desfrutando do Caminho. Descobri que é muito importante parar de vez em quando e olhar para trás. Às vezes, as vistas mãos belas estão atrás de você. Ter tempo também para entrar nas igrejas, sentar à beira do caminho e rezar um pouco, ou se permitir escutar o barulho de um riacho, o canto de algum pássaro. Apesar das dores e do cansaço, estou muito agradecida a Deus por estar aqui, vivendo essa experiência, e com o tempo necessário desfrutá-la plenamente.
Aqui, na pousada Estrella Guía tem uma mensagem na parede que eu adoro: A gratidão é a porta da abundância! Sabe, Minha Irmã, que essa foi um dos mais importantes aprendizados que vivenciei nos últimos meses?! Eu sempre, obviamente, rezei, agradecendo a Deus pelas muitas graças que Ele me concede. Mas, viver o estado de gratidão é algo distinto. É como deixar-se impregnar de um sentimento profundo de alegria por tudo aquilo que você vive, inclusive na dor e na dificuldade. Descobri que assim como a Fé, o sentimento profundo de gratidão precisa ser exercitado. Mas lhe garanto que ele é libertador, porque ele precisa de uma coisa anterior: a ENTREGA. É só quando a gente e entrega inteira e verdadeiramente que a gente consegue se sentir grato, e feliz, com aquilo que temos a cada momento.
Bom, preciso ir agora, encarar a longa caminhada de hoje. Reze por mim. Estou rezando por vocês. Se eu não chegar muito cansada, darei notícias ainda hoje. Se não, até amanhã!
Fica com Deus, Niquinha, porque Ele está sempre com você!
Te amo, Minha Irmã.
Beijos no seu coração,

Léia

terça-feira, 15 de setembro de 2015

As Bem-aventuranças do Peregrino


Que essas Bem-aventuranças sirvam de inspiração para todos aqueles que conseguem compreender que a vida é um permanente caminhar.



Bem-aventurado és, peregrino, se descobres que o Caminho te abre os olhos ao que não se vê.

Bem-aventurado és, peregrino, se o que mais te preocupa não é chegar, mas chegar com os outros.

Bem-aventurado és, peregrino, quando contemplas o Caminho e o descobres cheio de nomes e amanheceres.

Bem-aventurado és, peregrino, se tua mochila vai se esvaziando de coisas e teu coração vai se enchendo de silêncio e de vida.

Bem-aventurado és, peregrino, se descobres que um passo atrás para ajudar o outro vale mais que cem passos à frente, sem olhar ao teu redor.

Bem-aventurado és, peregrino, quando te faltam palavras para agradecer tudo o que te surpreende em cada recanto do Caminho.

Bem-aventurado és, peregrino, se não apenas fazes o Caminho, como deixas que o Caminho te faça.

Bem-aventurado és, peregrino, se no Caminho te encontras contigo mesmo e com Deus, e sabes parar, olhar, escutar e prestar atenção ao teu coração.

Bem-aventurado és, peregrino, se passo a passo vais encontrando teu caminho interior.


Bem-aventurado és, peregrino, porque descobriste que o verdadeiro Caminho começa quando termina.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 5


14/09/15

Minha Irmã Amada,

Ontem à noite saí para jantar com companheiros de peregrinação e cheguei muito tarde e cansada demais para escrever. Mas vamos lá, colocar o acontecido em dia.
Começo por dizer que o dia de ontem foi emocionante. Acordei por volta das sete da manhã. Na realidade, nos albergues ao longo do Caminho é praticamente impossível dormir até mais tarde. Primeiro porque a gente dorme em quartos coletivos, e sete horas no máximo já tá todo mundo se movimentando. Depois, porque normalmente os albergues também pedem que os peregrinos saiam cedo, de modo que possam preparar os quartos para quem vai chegando. O café da manhã, quando há, costuma ir até oito, oito e meia. Bom, acordei, preparei meu café na cozinha do Albergue Saint Nicolás (que eu adorei!), me alonguei e saí antes de Norma e Tom, que têm um processo lento de organização pelas manhãs. Ficamos de nos reencontrar na principal pousada de Pamplona. Saí de Larrasoaña com o dia raiando e uma bela revoada de andorinhas anunciando boas surpresas.
Atravessei a graciosa pontezinha medieval e segui por uma estradinha ladeada por uma vegetação de arbustos um tanto altos. Aqui e acolá algumas árvores esguias, que imaginei serem da família dos cipestres. Logo comecei a escutar um barulhinho bom de água correndo. Era um rio de águas verdes, que corre por boa parte do caminho entre Larrasoaña e Pamplona. Aos poucos, a vegetação foi ficando mais cerrada, até que passei a caminhar num bosque. Sempre com o rio correndo do meu lado direito. Como caminhar ao lado de um rio é algo especialmente prazeroso! Acho que a água acalma, emana uma energia suave e alegre ao mesmo tempo. Coincidência ou não, ontem escutei tantos pássaros enquanto caminhava...
Cerca de três quilômetros depois de Larrasoaña tem um comedor muito simpático, onde vários peregrinos tomam café da manhã. Chama-se La Parada de Zuriain. Inácio, que havia sido mais cedo que eu, disse que nos esperaria lá. Porém, não o encontrei. Imagino que ele se impacientou e seguiu adiante, porque realmente demoramos muito a nos preparar pela manhã. Mais alguns quilômetros a frente tem um outro lugarzinho simpático para comer, El Horno de Irotz. Como eu havia comido antes de partir, continuei meu caminho. Estava contente de caminhar um pouco sozinha (ainda que sempre me certificando de que tivesse gente ao alcance da minha vista), porque daí você pode rezar, meditar, conversar com seus botões. Foi o que fiz ao longo da manhã. E estava nessa conversa comigo mesma quando cheguei a uma “esquina”, em um povoadozinho chamado Zabaldika. Placas indicavam duas possibilidades de seguir o Caminho. Uma delas seguia por um alto, e a indicação mencionava uma Igrejinha do século XIII, aberta aos peregrinos. Como adoro uma antiguidade, peguei o caminho mais difícil, ou seja, a subida do monte.
Cheguei à Igreja de São Estêvão meio sem fôlego. Mas valeu demais o esforço! A Igrejinha é a coisa mais preciosa. Só havia dois peregrinos, pai e filha. Seguindo o exemplo deles, pus minha mochila no chão, à porta da Igreja, e estava me preparando para entrar quando uma senhorinha veio até mim e perguntou de onde eu era. Diante da minha resposta, foi buscar dois papéis em português, um sobre a Igreja e outro com As Bem-aventuranças do Peregrino. Ainda sentada do lado de fora, no átrio, li essa Oração e comecei a chorar de emoção. E enquanto estive na Igreja, não consegui parar as lágrimas. Foi a primeira forte emoção que senti no Caminho. À entrada da Igreja tem um crucifixo enorme e, por incrível que pareça, belo, sem a morbidez que é tão frequente nas imagens medievais. Em volta dele os peregrinos colam setinhas de papel com mensagens e pedidos. Claro que escrevi minha mensagem e deixei lá coladinha. No altar, um retábulo que vai até quase o teto, com umas quinze imagens de santos, e um crucifixo no ponto mais alto. Subi a torre da Igrejinha para ver e tocar um sino que data de 1377 e tem um som muito belo. Quando desci da torre, já havia vários peregrinos visitando a Igreja, e a senhorinha andava ocupadíssima (e nitidamente feliz), acolhendo todo mundo e distribuindo papéis em várias línguas. Ela faz parte de um grupo de voluntárias, que cuidam da Igreja e se encarregam de mantê-la aberta, para receber os peregrinos. Achei isso tão bonito!
Ainda estava emocionada quando deixei a Igreja. O caminho segue, então, pelas encostas de montes com uma vegetação de arbustos meio secos. Pela primeira vez me deparei com uma paisagem mais árida e pedregosa, ainda que florestas de pinheiros estejam sempre à vista. Esse trecho do Caminho não tem muito charme. Além da aridez, uma estrada movimentada corre paralela. A certa altura, a gente sente que está se aproximando de um ambiente propriamente urbano. Comecei a cruzar com locais, gente fazendo jogging, passeando com os filhos, ou com os cachorros, outros andando de bicicleta. O Caminho, na verdade, faz uma interseção com uma espécie de parque natural, com trilhas em meio aos montes e bosques. Mais um pouco de caminhada e chegamos a uma bela ponte de pedra, com uns cinco ou seis arcos. É a cidade ou povoado de Villava. Do outro lado da ponte, tem um Mosteiro com uma Igreja da Santíssima Trindade. No nicho central do grande retábulo do altar, Deus Pai e Jesus sentados, com o Espírito Santo por detrás deles. Acho que essa é uma imagem rara. E, em todo caso, a dessa Igreja é belíssima. Após visitar a Igreja, rezar e carimbar meu passaporte de peregrina, me sentei num banquinho à beira do rio e comi um sanduíche, pois estava faminta.
Depois de matar a fome, segui andando pela rua principal de Villava, com casarões compridos, estreitos e coloridos, de ambos os lados. Bandeiras bascas pendiam de algumas varandas. Pela primeira vez desde que comecei o Caminho, cruzei um centro urbano cheio de vida. Com gente andando pelas ruas, pessoas sentadas a mesa de bares e cafés. Aglomerados de gente na porta de uma grande Igreja, com todo jeito de estarem saindo da missa (a Igreja era moderna, por isso, nem entrei). Parei numa confeitaria, tomei um chá e comi um doce típico (coronilla), que na verdade não era nada além de uma massa de croissant com recheio de creme. Logo a gente sai dessa parte mais histórica e charmosa e passa a caminhar por amplas avenidas, onde passam ônibus. O Caminho segue literalmente pelo meio de um moderno centro urbano. As indicações para os peregrinos estão pintadas no chão. Ao passar por uma outra confeitaria, vi Norma e Tom, que estavam fazendo uma pausa para o lanche. Voltamos a caminhar juntos. Já estávamos em outro município, e bem pertinho de Pamplona. Havia faixas e pichações de afirmação da identidade basca.
Nas proximidades de Pamplona, caminhamos por uma rua com prédios antigos, mas muito degradados. Roupas pendiam das janelas. Notava-se claramente que era uma vizinhança pobre. Um jovem tocava guitarra espanhola sentado numa soleira de um prédio quase abandonado.  Ao final dessa rua, chegamos a um belo gramado, e mais adiante, vimos a ponte de Santa Madalena, que leva diretamente à entrada da Cidade Antiga. Há um parque belíssimo nesse entorno, com muitas árvores e belos gramados. Avistamos a muralha da velha Pamplona. Atravessamos a rua, cruzamos o grande pórtico e começamos a subir a ladeira que leva ao centro Antigo. Nesse trajeto, encontramos um brasileiro com quem Norma e Tom já haviam cruzado. Laércio é catarinense. Está caminhando na companhia de um médico americano que mora no Havaí. Cruzamos um segundo portal, e Laércio chamou minha atenção para as machas de tinta vermelha sobre as armas da Coroa espanhola. Protesto dos bascos. Estamos no Reino de Navarra, como advertem algumas sinalizações. Em Pamplona, por todos os lados se vê e se sente essa forte afirmação da identidade basca, contra Castilla. Quase tudo está escrito em castellano e em basco e há pichações e cartazes só em basco, que, como eu já te disse, é uma língua curiosíssima!
Bom, Pamplona é uma cidade absolutamente encantadora. O que eles chamam de Casco Antiguo é um conjunto de ruas estreitas, povoadas de Igrejas e de um casario semelhante ao de Villava: sobrados altos estreitos, coloridos e com charmosos abalcoados. Uma preciosidade. Há um albergue principal para peregrinos, mas tínhamos a informação de que os quartos são muito cheios e imprensados, por isso, eu e Norma saímos rodando atrás de uma hospedagem um pouco mais confortável. Após muito andarmos, localizamos uma pensão familiar e nos instalamos por lá. O dono, Felix, é uma gracinha de pessoa, mas a pensão é velha e meio precária. Após tomarmos banho, fomos à missa numa das várias Igrejas perto da pensão. A Igreja de São Lourenço é suntuosa, mas o que realmente me emocionou na missa foi um grupo de músicos que toca música religiosa com instrumentos e ritmos típicos de Navarra. A coisa mais linda. E eles tocaram A Barca e aquela música que sempre se cantava no Santa Maria: Ó vem conosco, vem caminhar... Fiquei emocionadíssima. Durante a missa, agradeci muito a Deus por esses primeiros dias de caminhada.
Como decidimos ficar duas noites em Pamplona, após a missa fomos fazer reserva num albergue novo, que estava cheio ontem, mas tinha lugar para o dia seguinte. Nesse albergue, reencontramos o pai e filho israelenses, Ram e Ionathan. Acabou que fomos todos jantar juntos. Comemos num lugar tipicamente navarrense (se você chamar um basco de espanhol, pode arrumar um inimigo), com patas de presunto penduradas no teto), bem gostoso, indicado por umas senhorinhas que encontramos na rua. Aliás, devo registrar que as pessoas aqui em Navarra são de uma amabilidade incrível. O perigo é você pedir uma informação e ter de passar meia hora conversando. Enfim, jantamos super bem. Ram e Ionathan são muito gente boa, e me convidaram para visitá-los em Israel. O pai é médico, e o filho está se preparando para entrar na Universidade.
É tão interessante como a gente faz conexões profundas tão rapidamente, no Caminho. Norma sempre me fala de um livro de um padre que diz que mesmo que você queira caminhar sozinho, o Caminho vai acabar lhe dando uma família. Talvez isso aconteça porque as pessoas estão mais abertas umas às outras. Em todo caso, é muito bonito. Já encontrei várias pessoas que estão com outras há apenas um ou dois dias, porque começaram a caminhar juntas, em algum momento. E você as vê juntas e pensa que são amigos de uma vida.  Parece que o Caminho ensina as pessoas a deixarem a autossuficiência de lado, e a serem solidárias e acolhedoras.
Apesar da pensão não ser grandes coisas, dormi bem (num quarto com Norma e Tom). Acordamos um pouco mais tarde, tomamos café numa confeitaria muito boa, perto da pensão, recolhemos nossas coisas e nos mudamos para o albergue. Natália, a dona do albergue, é uma figura. Conversadora que só ela. Nos demos super bem. O albergue é novo em folha, com exceção das duas charmosas mesas da copa, feitas de madeira de demolição: duas portas com quatrocentos anos de idade! Isso dito, devo registrar que todo albergue tem a simplicidade por princípio. Dorme-se num espaço com várias pessoas, o banheiro é compartilhado, não tem lençol, nem toalha. O peregrino tem de andar prevenido. Toalha, lençol e saco de dormir são essenciais. Só que eu estava carregando um saco de dormir pesadíssimo. Hoje fui ao Corte Inglés e comprei um saco de dormir efetivamente adequado ao Caminho, o que significa basicamente: LEVE. Mais um exercício de desapego, pois meu saco de dormir confortabilíssimo e novinho em folha, que venho carregado desde os Estados Unidos vai ter de ficar por aqui. Paciência. Vou doar pra Igreja.
Para encerrar esse longuíssimo relato, lhe digo, Minha Irmã, que valeu demais ficar um dia a mais em Pamplona, tanto para descansar um pouco o corpo, como para conhecer melhor a cidade. Eu e Norma preparamos nosso almoço no albergue (fiz pasta com molho de cogumelos e ela fez uma deliciosa salada). Depois, passeamos pelas muralhas e visitamos a Catedral de Nossa Senhora de Pamplona, uma construção gótica deslumbrante. A fachada foi modificada no século XVIII, parece (um crime de lesa humanidade!), mas o interior está inteiramente preservado. Além do que normalmente nos impressiona numa Catedral gótica (naves enormes, ogivas, teto altíssimos, vitrais...), os retábulos e altares laterais são absolutamente lindos. Várias peças dos séculos XIII e XIV. Muito ouro e prata. E o museu diocesano, nos claustros da Igreja, também é belo. Além das peças preciosas, a concepção museológica é muito interessante, porque “fala” com o público contemporâneo. É a primeira vez que vejo um museu sacro com uma concepção contemporânea. Adorei.
De resto, Pamplona é o que descrevi acima. Uma cidade medieval cheia de charme e de caráter. Não é a toa que Hemingway gostava tanto daqui. Aliás, para fechar o dia, eu, Norma e Tom fizemos um lanche no Café Iruña, um dos lugares favoritos de Hemingway. É um desses cafés ou confeitarias típicos da virada do século XIX para o XX. Muitos espelhos e lustres. Foi um fim de dia muito agradável. Agora, todos dormem no albergue, menos eu, rs, rs, rs. Estava aqui escrevendo, tomando chá e comendo uma torta típica de Navarra, cujo nome é impronunciável. Amanhã será um dia duro de caminhada, 24 kms, com subida pesada. Só espero que não chova.
É isso. Fica com Deus, Niquinha! Manda dizer pra todo mundo que estou com muitas saudades. E que quanto mais ando pelo mundo, quanto mais belezas e maravilhas vejo, mais aumenta em mim a certeza de que meu lugar é no Brasil, ou no meu quarto, no Recife.
Beijos mil,

Léia

sábado, 12 de setembro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 4


12/09/2015

Boa Noite, Niquinha!

Mais uma jornada cumprida, Graças a Deus. Quase dezesseis quilômetros de caminhada hoje.
Acordei feliz da vida, porque pela primeira vez em vários dias consegui dormir confortavelmente, por oito horas seguidas. Gostei muito dessa La Posada Nueva, em Bizkarreta. A dona, Cristina, é muito simpática. Me convidou para voltar e ficar com ela alguns dias, sem pagar, em troca de eu ensinar inglês. É tão interessante como as pessoas de Interior, acho que em qualquer lugar do mundo, são mais abertas, mais desarmadas. É tão fácil estabelecer conexões! 
Katherine partiu cedinho. Eu acordei umas oito e tomei café, na pousada, com um casal de americanos muito gente boa. Na realidade, Norma é filipina, naturalizada americana, e Tom é americano da gema, médico aposentado. Após alguns minutos de conversa, ficou combinado de caminharmos juntos no dia de hoje. E para minha suprema felicidade, eles estão pagando um serviço que leva a bagagem da pessoa de uma cidade a outra. Custa sete euros. Eles me ofereceram pra mandar meu saco de dormir junto com a bagagem deles. Topei na hora, claro. E, realmente, ao longo do dia pude constatar que esses três quilos fizeram enorme diferença. Caminhei bem mais leve, logo, a coluna reclamou menos.
Estou me alongando todas as manhãs, antes de sair, e acho que também tem me ajudado bastante. Com relação aos pés, estou colocando um creme francês, próprio para desportistas, que a moça de uma loja de equipamentos de montanha, em Paris, me indicou. Até agora tudo tranquilo com meus pés. Deus permita que continue assim.
Bom, o dia, na verdade, começou com uma notícia tristíssima. Uma jovem peregrina americana, que estava desaparecida desde abril, foi encontrada ontem. Acharam seu corpo perto de León. Um suspeito fora preso na quinta, acho, e acabou confessando tudo. É o assunto do momento. Em todo canto só se fala nisso. Acho que a notícia vai acabar chegando aí no Brasil. Por favor, tranquilize mamãe. Diga a ela que, primeiramente, esse foi um fato excepcionalíssimo. Depois, de todo modo, estou tomando todo cuidado. Sempre procuro andar com pessoas por perto. E acho que hoje encontrei meus parceiros de Caminho, Norma e Tom. Temos um ritmo parecido, temos a mesma previsão de chegada a Santiago, portanto, farei o possível para seguir caminhando com eles.
Saímos de Bizkarreta umas nove e meia da manhã. O céu estava nublado, com toda cara de que ia chover. Começamos a caminhada com uma boa subida, e entramos em um bosque muito simpático. O forte perfume dos pinheiros rescendia no ar. Com poucos metros, conheci um senhor português, Inácio, que vive na França há muitos anos. Começamos a conversar e logo percebi que ele estava ansioso por companhia. Estava impressionadíssimo com a história da moça, e me disse algumas vezes, ao longo do dia, que é uma pessoa muito sensível. Inácio perdeu o avô de uma maneira trágica, quando era criança, e ainda por cima, testemunhou tudo. Além disso, ele lutou na guerra de Angola -- que foi bastante cruel, segundo eu sei. Quando nos encontramos, ele estava se sentindo bem angustiado. Apresentei-o à Norma e Tom, e acabou que caminhamos o dia todo juntos, nós quatro. Ao final do dia, Inácio era outra pessoa. Um sorriso de felicidade não deixava seu rosto.
A cada novo dia, me convenço mais de que conhecer pessoas é a experiência mais rica e mais forte do Caminho. São tantas histórias...  Tom se curou de um câncer dificílimo, e Norma estava quase perdendo a visão. Estão fazendo o Caminho em Ação de Graças. Eles estão casados há 37 anos, e têm seis filhos homens! Passam parte do ano nos Estados Unidos, e parte nas Filipinas. Aliás, estou convidadíssima a ir passar uns dias com eles, quando eu estiver pela Nova Zelândia. Eles caminham rezando o terço juntos. Tão bonitinho! Inácio ficou impressionado. Ele, que está fazendo o Caminho pela terceira vez, disse que é a primeira vez que ele vê gente rezando o terço em voz alta. A conversa entre a gente é uma graça. Inácio se sente mais confortável falando francês, e eu fiquei de tradutora entre os três. Mas tem horas em que eu acabo misturando as bolas e falo em inglês com Inácio e, em francês com o casal.
Ainda estávamos caminhando pelo bosque, cerca de uma hora após deixarmos nossa pousada, quando começou a chover forte. Eu já aprendi que aos primeiros pinguinhos de chuva é melhor colocar logo a capa, porque quando a chuva começa mesmo, vem com tudo. Por sorte, como estávamos caminhando entre árvores, mesmo sendo intensa, a chuva não nos molhou tanto como no primeiro dia. Consegui permanecer com os pés secos! O lado ruim é que pegamos muita descida, e com a chuva o chão ficou bem escorregadio. O caminho pelo meio do bosque é feito de terra e pedras. Tivemos que reduzir bem a marcha e andar com muuuito cuidado. Nos momentos mais fortes da chuva, a estradinha se transformou num pequeno riacho de lama. Mais uma vez agradeci muito aos Céus por ter comprado meus bastõezinhos de caminhada. Acho que ninguém devia fazer o Caminho de Santiago sem esse apoio! Ajuda tanto nas subidas como nas descidas.
Após umas três horas de caminhada, nessas condições, chegamos a Zubiri, um simpático vilarejo, com uma ponte medieval, a que se atribuem poderes mágicos, de cura de alguma enfermidade que eu não entendi qual é. A essa altura, estávamos famintos. Nos dirigimos ao único bar local, creio eu, nos sentamos a umas mesinhas do lado de fora, pois a chuva já havia parado. Cada um pôs o que tinha em cima da mesa, compramos mais pão e alguma fruta e fizemos uma deliciosa refeição compartilhada. Três australianas se aproximaram e ficamos conversando e comendo juntos. Uma delas, a mais jovem, tinha estado no Brasil para a Copa do Mundo.
Alimentados, retomamos a caminhada. A saída de Zubiri é meio feia, porque o Caminho segue por trás de uma enorme fábrica de Magnesita. Montanhas de pó preto e cinza circundam a enorme planta, com suas chaminés altas e seu maquinário pesado. Realmente, um cenário pouco agradável. Ainda bem que a visão não dura muito, e logo voltamos a caminhar em meio a pastos e bosques. Felizmente, não choveu mais, e o sol até ensaiou dar o ar da sua graça. Só que partes da estrada continuavam molhadas e mantivemos o cuidado, para não cairmos e não nos machucarmos. 
Num determinado ponto da estrada, há uma fonte antiga, em pedra, com água natural. Paramos um pouquinho para descansar e beber da água fresquinha. Ali conhecemos dois israelenses, pai e filho, que estão fazendo uma semana de Caminho, apenas para despenderem algum tempo juntos, fazendo algo diferente.
Sempre que eu posso, pergunto às pessoas o que as levou a fazer o Caminho. E acho que já comentei que tenho encontrado várias pessoas que estão fazendo o Caminho mais pela caminhada em si (seja pela novidade, seja pelo desejo de testar os próprios limites...) do que por razões de ordem espiritual. Muita gente fazendo só um pedaço do Caminho também. Inácio se queixou muito do que ele entende ser uma falta de espiritualidade nos peregrinos de Santiago. Ele caminha todos os anos para Fátima, e me disse que é um ambiente muito distinto, mais compenetrado. Pode até ser. Só fico pensando que os mistérios de Deus são muitos, e surpreendentes. As pessoas podem começar a caminhar com um propósito na mente, mas quem sabe como elas chegarão ao fim?
Mais alguns quilômetros e chegamos a Larrasoaña, de onde estou te escrevendo. Trata-se de um povoado minúsculo. Há basicamente a rua da Igreja e uma rua por detrás, onde fica o charmoso albergue em que me encontro hospedada. Embora eu não vá ter o luxo de um quarto para apenas duas pessoas, como ontem, estou muito feliz com esse Albergue de San Nicolás. Tudo novinho, banho gostoso, com água efetivamente quente, beliches confortáveis, donos simpáticos, bom sinal de wi-fi. Mais um luxo, diante dos albergues das duas primeiras noites. Ou seja, preciso aproveitar para dormir bem. A gente nunca sabe o que vai encontrar pela frente.
Após tomarmos banho, eu, Norma, Tom e Inácio saímos para “tomar uma cerveja”. Eu bebi suco, mas adorei o bate-papo de fim de tarde, no quintal do supermercado local. Deveras pitoresco. E o dono ainda fechou o supermercado e nos deixou à vontade, contanto que tivéssemos o cuidado de fechar o portão, quando fôssemos embora. O cara é uma figura. Abre todo dia às 11 da manhã e fecha às sete da noite. E não sei nem se ele não fecha pra sesta. Uma grande bandeira do Brasil , que ele ganhou de uns amigos, enfeita esse quintal que funciona como bar.  
Depois do happy hour, eu dei uma caminhada até a Igrejinha de São Nicolau. Cheguei quando a missa estava terminando. Uma pena, gostaria de ter assistido à missa! Pelo menos consegui espiar a velha igrejinha medieval por dentro. Um altar barroco, esculpido em madeira, causa bastante impressão, porque contrasta vivamente com as sóbrias paredes de pedra da construção. O amontoado de imagens incomoda um pouco, num primeiro momento. No nicho central está sentado São Nicolau. As peças têm aparência de serem seculares, e toda a pequena Igreja parece carecer de uma boa restauração. Pouco mais de uma dezena de pessoas assistiam à missa, quase todos acima dos cinquenta... ou sessenta. Quase em frente à Igreja, uma taverna parecia bem animada. Era hora do jantar, há que se dizer.
Voltei para o nosso albergue e me sentei com os demais peregrinos, à mesa do jantar. Estavam lá as australianas do almoço, além de um coreano e um espanhol de Barcelona, ambos na faixa dos quarenta. Em outra mesa estavam os israelenses e mais algumas pessoas com quem não tive a oportunidade de conversar. O jantar foi bem animado, e regado a vinho, que está incluso no menu de dez euros. Após a comida, todos foram se deitar. Só eu estou aqui embaixo, escrevendo, no mais absoluto silêncio. Vou me recolher agora, muito satisfeita com esses primeiros dias vencidos. Curiosamente, sinto-me bem menos cansada do que nos dois primeiros dias. Meus pés estão reclamando bem menos, e minha coluna também. Acho que o corpo começa a se acostumar ao rojão, Graças a Deus. 
Amanhã, será um dia puxado. A proposta é caminharmos 24 kms até Pamplona. Estou louca para chegar a Pamplona. Para minha alegria, Norma e Tom planejam dormir duas noites por lá, para visitarem a cidade na segunda. Era justamente o que eu pretendia fazer! Logo, não perderei meus simpáticos companheiros de viagem. Deus é mesmo perfeito! A gente só preciso acreditar nisso de verdade, com todas as forças da alma. E se entregar.
Te amo, Minha Irmã! Se cuida!
Beijo enorme,

Léia

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 3


11/09/2015

Boa noite, Nica!
Hoje tive um dia mais leve. Acabei saindo de Roncesvalle apenas às 11 da manhã, depois de rezar um pouco na Igreja. A Igreja do Mosteiro tem uma imagem lindíssima da Virgem de Roscenvalles, do século XIII, em madeira toda coberta de prata. Ela está sentada, olhando para o Menino Jesus que está no seu colo. Há algo de muito terno e especial na imagem, que apesar de não ser grande, “domina” completamente a grande nave da Igreja. Os olhos da gente são como que “chamados” pela imagem, o tempo todo. A Igreja é igualmente bela, com enormes vitrais por detrás do altar, e uma espécie de dossel de madeira que pende do teto, sobre a imagem da Virgem.
Acabei que saí do Mosteiro sem conseguir tomar meu chá. Descobri que a área da cozinha só reabre depois das duas da tarde. Paciência. Comi um pedacinho do delicioso queijo de ovelha que comprei ontem e pus o pé na estrada.
Quando se sai de Roscenvalles, toma-se uma estradinha no meio de um bosque, que corre paralela à rodovia. É muito agradável caminhar no meio das árvores. Pouco metros após a saída da cidade, há uma bela Cruz de pedra, do século XIV, já naquela altura dedicada aos peregrinos. Depois da Cruz, a gente continua andando pelo pequeno e simpático bosque, que margeia a autoestrada. Poucos quilômetros adiante, está uma pequena vilazinha chamada Burguete. Bem na esquina, à entrada da vila, há um mercadinho. Parei para comprar frutas, iogurte e pão, já que não havia tomado café. No mercado conheci um irlandês que é justamente da cidadezinha onde eu morei, Cavan!!! Incrível, né?! Cavan é um ovinho, perdido no coração da Irlanda, e em pleno Caminho de Santiago eu vou encontrar justamente um sujeito de Cavan! Após fazermos as compras, eu e Padrick (com “d”mesmo) nos sentamos numas mesas de pedra que há num gramado bem em frente ao mercadinho. Tivemos uma conversa muito interessante enquanto comíamos. Padrick havia partido de Saint Jean de manhã cedo! Fiquei impressionadíssima, claro. Ele está “correndo” o Caminho. Terminado o café da manhã, ele seguiu em sua corrida e eu continuei no meu ritmo, lento e contínuo. Disse a Padrick que se ele encontrar Jean em Cavan, mande lembranças minhas! Seria muito divertido....
Estou decidida a respeitar o ritmo do meu organismo. Ontem, quando cheguei em Roncesvalle, estava exausta. Meus pés, sem as botas, doíam até para caminhar entre a cabana e o banheiro. Confesso que tive receio se seria capaz de caminhar hoje. Para minha surpresa, ao colocar as botas (que têm uma palmilha especial), o desconforto desapareceu. E como coloquei jornais dentro das botas, à noite, elas amanheceram sequinhas! Pus um par de meias secas e caminhei numa boa. As costas me doíam um pouco. Dor muscular. Me alonguei bem antes de iniciar a caminhada do dia, e pus o creme (hot/cold), que, como eu te disse, distrai o cérebro. Ao longo do dia de hoje, ainda senti um pouco a coluna, mas bem menos que ontem. É tão engraçado como o medo trava a gente. A gente fica achando que não vai dar conta, e acaba que se surpreende com nosso próprio desempenho.
Burguete, como todas as cidadezinhas que tenho visto aqui no País Basco, é formada por um punhado de sólidos casarões brancos, de dois ou três andares, com janelões em madeira vermelha ou ocre. Alguns tem flores nas sacadas. As portas são enormes, com fachadas em pedra. Alguns casarões têm placas ou incrustações nas paredes, que indicam a data de construção: século VXIII, mais frequentemente. As paredes brancas com as janelas encarnadas parecem ser um padrão. Saint Jean também é assim. Essa padronização gera uma delicada sensação de harmonia. Numa determinada esquina de Burguete (onde há uma agência do Santander), a sinalização do Caminho nos orienta em direção a uma pontezinha que passa sobre um pequeno riacho. O peregrino sai da cidade e passa a caminhar em meio a pastos, onde belas vacas cor de creme pastam pachorrentamente. Quando comecei a caminhar nessa estradinha, senti que um perfume doce e gostoso tomava conta do ar. Desde ontem havia sentido esse perfume, mas não conseguia atinar o que era. Hoje, descobri. É camomila. Seu arbusto cresce ao longo do caminho, como mato. De vez em quando o vento trazia o perfume, que me deixava encantada. Completando o cenário bucólico, os chocalhos das vacas, assim como os das ovelhas ao longo do dia de ontem, criavam uma trilha sonora perfeita para o contexto.
Caminhar nessas condições foi literalmente um prazer, tanto mais que fez um dia agradabilíssimo hoje. No início, até pensei que fosse chover. No entanto, o tempo se firmou, o sol saiu e mesmo sentindo um pouco de calor de vez em quando, diria que o tempo esteve perfeito. Tinha posto minha roupa molhada pendurada do lado de fora da mochila e precisava mesmo do sol para secá-las. De vez em quando, ao me voltar para trás, me deliciava com a vista das montanhas ao redor. E assim fui seguindo o caminho, que, nesse trecho, varia entre as pastagens das fazendas ao redor, e pequenos trechos de bosques. Sempre muito agradável. Não encontrei nenhum dos cachorros que costumam incomodar os peregrinos nesse trecho.
Como saí mais tarde de Roncesvalle, encontrei bem menos gente pelo Caminho. Ainda assim, sempre tinha gente à frente e atrás de mim. A dinâmica do Caminho é muito interessante. As pessoas acabam se aproximando de você, entabulando alguma rápida conversa, e depois seguem em frente. Lá adiante pode ser que você se reencontre com a mesma criatura. Foi o que aconteceu com Katherine, uma americana nos seus cinquenta anos, que está fazendo o Caminho sozinha, como eu. Nos encontramos após Burguete, no meio dos pastos, mas ela ia num passo acelerado, e acabamos nos reencontrando em Bizkarreta, como vou te contar já, já.
Caminhei mais alguns quilômetros, passei por uma outra cidadezinha basca, do jeitinho que te descrevi. Chama-se Espinal. Tanto em Burguete como em Espinal cheguei a pensar em parar e me hospedar numa das pousadas familiares, para descansar melhor meu corpo e dar a ele a chance de se acostumar com a nova atividade física, mas nos dois casos, me sentia tão bem disposta que resolvi seguir adiante. Devo dizer que ainda peguei pequenas subidas no trajeto de hoje, e algumas descidas também, mas tudo razoável. Claro que respeitar o ritmo do meu organismo tem ajudado muito. Quando estava cansada, parava, sentava numa pedra, ou sob uma árvore, junto a um pasto, descansava, comia, bebia água. Enfim. Posso dizer, que curti bastante a caminhada de hoje, que teve uma variação interessante de cenários. Vários pequenos bosques, cada um com um jeitinho distinto do outro. Além disso, fui rezando por todas as pessoas que são importantes na minha vida. Como o tempo passa rápido quando a gente vai rezando! Ainda estava no meio da minha lista e, quando menos esperava, cheguei a Bizkarreta (ou Viscarreta). Tomei informações à entrada da cidade e descobri que a próxima cidade se situa a 12 kms. Como já eram quase quatro da tarde, e já não havia muita gente caminhando, decidi encontrar um lugar para passar a noite. Estava me dirigindo a uma pousada, quando encontrei Katherine, que estava na mesma situação que eu. Fomos à pousada juntas e havia justamente um quarto duplo disponível. Então, estamos aqui, compartilhando o quarto. Mais uma vez, me sinto agradecida à Providência Divina. Sozinha, eu teria que pagar o dobro pelo quarto. Esse quarto de pousada, depois das duas noites de albergue, é um luxo. Finalmente pude tomar um gostoso banho quente, num banheiro decente, e vou dormir numa cama de verdade. É uma mudança salutar, creio.
Katherine tem cinco filhos. Agora que os últimos entraram na faculdade, resolveu viver sua própria vida. Um filme chamado The Way, despertou nela a vontade de fazer o Caminho. Mesmo processo que levou uma outra americana que conhecemos aqui em Bizkarreta a fazer o Caminho de Santiago. Acho que preciso ver esse filme também. Ela não fará o Caminho todo, como, aliás, muitas pessoas que eu tenho encontrado. E uma outra coisa que está me chamando a atenção é que muita gente está fazendo o Caminho por uma questão de testar seus limites. Achei isso muito curioso.
Após o banho, eu e Katherine saímos para dar uma volta pela minúscula cidade de Bizkarreta. Compramos comidinhas na única mercearia local, e tentamos visitar a Igreja do século XIII, que parecia uma gracinha por fora. Nada feito: Igreja fechada. Numa casinha próxima, havia uma senhora sentada à porta. Perguntei sobre a Igreja e ela começou a se lamentar da ausência de padres, e do fato de que a Igreja agora só abre em alguns domingos, ou quando há algum funeral. Doña Rosita teria conversado o resto da tarde e a noite inteira, se eu não a tivesse cortado, porque afinal, Katherine não estava entendendo nada (uma bênção a pessoa poder falar vários idiomas!).
Enfim, tive um dia feliz. Caminhei apenas 12 kms, mas sei que será muito bom para meu corpo repousar um pouco depois da tirada de ontem. Vou dormir bem. Lavei minha roupa, que já está seca, e tive conversas muito interessantes com algumas belas criaturas. O melhor é que amanhã não preciso acordar muito cedo, pois quero pegar a onda da galera que vem de Roncesvalle, e que só deve estar chegando por aqui lá pelas onze da manhã.
Aprendizado do dia: Como é importante fazer as coisas pelas razões certas! Encontrei uma canadense na estrada e perguntei a ela porque está fazendo o Caminho. Ela estava visivelmente cansada. Sua resposta foi: “Neste momento, eu não sei porque estou fazendo isso”. Imediatamente pensei nas vezes, desde que comecei o Caminho, em que me senti super cansada, com dores pelo corpo (nem te falei, mas ainda por cima, ontem era meu segundo dia de menstruação...), com frio, fome. Mas em absolutamente todos os momentos eu me senti feliz e agradecida pela oportunidade de estar realizando essa jornada. Creio que quando a gente tem a motivação certa, e quando essa motivação nasce no nosso coração (que nunca se engana), a gente encara as dificuldades com muito mais garra e determinação.  
Por hoje é isso, Minha Irmã. Vou dormir ao som dos sinos da Igrejinha. Não sei como é isso, mas sei que os sinos da Igreja fechada estão badalando. Fica com Deus!
Beijos e saudades,

Léia   

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 2


11/09/15

Bom dia, Niquinha!
Estou em Roncesvalle! Primeiro dia de caminhada concluído!
Foram 24 kms percorridos ontem! Cheguei tão cansada que não tive nenhuma condição de escrever. Só consegui comer, tomar banho e meditar. Mas acaba que nem dormi bem. A cama era muito estreita, e eu estava no beliche superior. Fiquei sem muito espaço para me mexer, e com receio de cair, acho eu.
Mas deixa eu te contar sobre o dia de ontem. Dormimos num albergue bem razoável em Saint Jean Pied de Port (tirando a água do banho, que era apenas morninha). Acordamos cedo, às 6 da manhã, que é a hora em que todo mundo acorda. Ainda estava escuro. Descemos para tomar um café básico, pão, geleia, suco e café, mas só aquela baguete francesa deliciosa já vale o melhor café da manhã possível. Achei legal porque o refeitório da pousada tinha daquelas mesas compridas, em que senta todo mundo junto. Young estava com pressa, e como ainda estava escuro, e todos os peregrinos estavam pegando a estrada, acabou que nem demos uma volta pela muralha.
De Saint Jean Pied de Port a Roncesvalle há dois caminhos possíveis. Chovia levemente quando estávamos de partida, e em caso de chuva, se recomenda tomar a rota de Valcarlos, porque a outra, a de Napoleón, vai pela parte mais elevada e montanhosa dos Pirineus. Parei logo na lojinha em frente ao albergue e comprei uma boa capa de chuva. Me impressionou como a lojinha é bem equipada, e com preços muito razoáveis. Eu poderia ter deixado para comprar tudo lá: saco de dormir, bastões, bolsa de água. Inclusive, os sacos de dormir são bem mais adequados, leves e pequenos. Meu saco de dormir é enorme e corresponde à quase metade do peso que carrego. Todos me dizem que tenho uma mochila muito pesada. E é verdade. Recomenda-se levar o equivalente a 10% do peso do corpo. Devo estar levando uns 12 kgs. Acho que devo dizer que, por sorte, estou pesando quase oitenta! Pois é, engordei horrores nesses últimos meses. Minha esperança é perder, ao longo do Caminho, os quinze quilos que ganhei. Neste momento, porém, os quilos a mais vão me ajudar a carregar com o peso da minha mochila. Deus não é mesmo perfeito?
Eram oito horas da manhã quando começamos a caminhar, com o dia efetivamente raiando. Fomos seguindo o fluxo dos peregrinos e quando vimos, estávamos, na realidade, seguindo a rota de Napoleão. Graças a Deus, porque ela é muito mais bonita! A essa altura tinha parado de chover e fazia um dia bonito. O primeiro quilômetro foi de tirar o fôlego. Subida íngreme, com a mochila nas costas.... a sorte é que os bastões ajudam bastante! Fui andando devagarzinho. Parando para respirar, e respeitando meu ritmo. Logo, logo começamos a vislumbrar paisagens absolutamente maravilhosas! E a caminhada se tornou mais leve, porque você ia parando para contemplar as montanhas e vales. A coisa mais linda, aquelas montanhas verdinhas, casinhas brancas aqui e acolá, e pastos cheios de ovelhas. Havia uma forte neblina entre e sobre as colinas, o que deixava a paisagem quase mágica. Em alguns pontos, para usar uma expressão de Ascenso Ferreira, parecia que as montanhas estavam cachimbando, como se uma fumaça saísse de dentro da terra. Lindo de morrer!
Após oito quilômetros de caminhada chegamos a um lugar chamado Orisson, onde há uma pousada bem concorrida. Tem gente que fica nessa pousada (Refuge d’Orisson) e dorme lá, para continuar a caminhada no dia seguinte. Só que é concorridíssima. Tem de reservar com antecedência. É possível comer, usar os banheiros e abastecer-se de água nessa pousada. Praticamente todos os peregrinos param por lá, para descansar um pouco e fazer um lanche. Ali, reencontrei Young, que estava andando bem mais rápido que eu. Quando se chega a Orisson, um terço do trajeto do dia está cumprido. Eu até tinha pensado em perguntar sobre uma eventual desistência, se eu chegasse muito cansada ali, mas estava me sentindo bem disposta, e tive a certeza de que poderia chegar a Roncesvalle. Sentei, comi um saquinho de frutas secas e segui em frente. Os próximos oito quilômetros foram os mais difíceis. Além da subida contínua, começou a chover forte. E chuva de vento. A capa protegeu o corpo e a mochila, mas os pés ficaram encharcados. Não adianta de nada a bota ser à prova d’água, porque a água entra pelas meias. Fiquei preocupada porque todos os sites falam sobre a importância de se manter os pés secos. O maior problema de quem faz o Caminho são justamente os pés. Enfim, não havia nada a fazer. Estávamos todos de pés encharcados. Com a chuva, a neblina foi nos encobrindo. Passamos a caminhar na névoa, o que não deixou de ser especial e belo.
A essa altura, eu estava sentindo o peso da mochila nas costas. Felizmente, antes que começasse a chover, eu tinha parado e colocado um creme para dores, que esquenta. Na verdade, o creme cria uma distração para o cérebro, acho eu. A sensação de calor acaba escondendo a dor muscular. Até então, estávamos caminhando numa estrada asfaltada, por onde passam carros, vez por outra. Eu soube que quando começou a chover forte, alguns peregrinos pegaram táxis para ir até Roncesvalle.
Perto do final do segundo terço do trajeto, acaba o asfalto e começamos a caminhar por uma trilha, nas montanhas. Nada de muito difícil. É cansativo porque ainda é subida, mas relativamente suave. E com os bastões, não há motivo de preocupação, mesmo com chuva. Já perto da Espanha tem uma cabaninha de pedra, que funciona como um refúgio. A pessoa pode parar, fazer um lanche, ou simplesmente descansar, abrigada da chuva. Já tinha parado de chover, e algumas pessoas aproveitaram para trocar as meias. Eu decidi continuar com as meias molhadas mesmo, porque queria ter um par seco quando chegasse em Roncesvalle, e só trouxe dois pares.
Subitamente, após uma colina, começamos a descer. Isso já é do lado espanhol. E a paisagem vai mudando. Passamos a caminhar no meio de uma floresta. Com a neblina, que nos acompanhou praticamente até Roncesvalle, a floresta parecia mágica. Me senti num filme de Hobin Hood. Belíssimo! (Estou doida pra postar umas fotos, mas acabei de me dar conta de que não trouxe o cabo de transferência da máquina; terei de comprar um em algum lugar).
Todo o Caminho é muito bem sinalizado. Ao longo da estrada, nas montanhas, de tempos em tempos tem uma plaquinha de indicação, com a conchinha de Santiago estilizada. Já na floresta, flechas em amarelo fluorescente estão pintadas nas árvores. Não tem como a pessoa se perder. Creio que mais de uma centena de pessoas estavam caminhando ontem. A maioria em grupos, ou pares, e vários sozinhos, como eu. E a gente vai fazendo amizade, conversando. Caminha um pedaço com uma pessoa, outro pedaço com outra. Encontrei gente do Canadá, da França, da Bélgica, da Alemanha, dos Estados Unidos, da Irlanda, várias moças coreanas... Sempre que alguém passa por você, lhe cumprimenta e deseja “Buen Camino”. É um ambiente muito legal, com uma energia boa circulando. E a paisagem simplesmente obriga você a parar de vez em quando, para contemplar a beleza e sentir a presença de Deus. De brasileiros, encontrei dois rapazes de São Paulo, que estavam fazendo o Caminho de bicicleta.
Interessante que mesmo quando você caminha sozinha, você sabe que não está só. Tem sempre gente alguns metros à sua frente, e alguns metros atrás de você. Gostei muito disso, porque às vezes é muito bom estar caminhando “sozinha”, porque você pode rezar, se concentrar nos seus pensamentos, meditar. Ao mesmo tempo, você não precisa ter medo de estar só, no meio do nada, porque tem gente muito perto de você.
Na floresta, o chão estava meio escorregadio. E como é descida, requer atenção e cuidado. Força muito os joelhos, obviamente. Acho que os bastões são essenciais para fazer o Caminho! Agradeci muito a Deus por eu ter comprado tanto meus bastões como a capa de chuva (excelente). Olha que mesmo com os bastões, eu estava andando distraída num certo momento e acabei escorregando e caindo de traseiro no chão. Nada demais. Não me machuquei, só fiquei toda suja de lama.
Os últimos cinco quilômetros foram os mais difíceis, porque eu já estava cansada, com fome (comi meus dois saquinhos de frutas secas), com vontade de ir ao banheiro, com as costas doendo, e começando a sentir cansaço nos pés. E depois de Orisson, não tem absolutamente nada no Caminho, a não ser o abrigo de pedra, que é só a casinha mesmo, pra proteger da chuva, e sentar um pouco. O lado bom é que uma coisa acabava distraindo da outra; sobretudo, a fome me ajudou a me distrair do peso nas costas. Algumas vezes eu me peguei pedindo a Deus para chegar logo. Mas de modo geral, acho que me saí bem. Tentei me concentrar no presente. Como eu disse a uma moça coreana, a gente tem de pensar só no próximo passo. Eu tinha lido um livrinho sobre meditação andando, que Glácia me emprestou, e usei algumas técnicas. Uma delas é combinar a respiração com os pensamentos: AQUI (inspiração), AGORA (expiração). Juro que ajuda bastante.
Seguia meu caminho pela floresta, atenta às setas amarelas, quando de repente escutei um badalar de sinos, e, na sequência, latidos de cachorro. Eram claros sinais de que estava perto do meu destino. De fato, poucos metros depois, cheguei a um portão, e vi na minha frente os fundos de um enorme Mosteiro. Era Roncesvalle. Agradeci muuuuuito a Deus por ter conseguido cumprir essa primeira etapa! Os blogs dizem que esse é o trajeto mais difícil, porque você está cruzando os Pirineus. E, de fato, era meu maior temor. Mas tudo correu bem. Descobri que não há motivo para temores. Nem frio a pessoa sente, de fato, porque o esforço físico aquece seu corpo.
De todo modo, cheguei exausta. A Oficina del Peregrino é no Mosteiro, que é também o principal albergue da cidade. Roncesvalle é uma vilazinha minúscula. Não tem quase nada além do Mosteiro;  duas pequenas pousadas, que estão sempre cheias, e nem sequer um mercadinho. Só consegui comprar um queijo de ovelha delicioso. Fora isso, no Mosteiro tem umas máquinas que vendem comida. Comprei uma sopa de verduras, que pude aquecer no micro-ondas, e pão. Mas sabe que essa refeição simples -- pão, um bom queijo e uma sopa quente, era exatamente o que eu estava sonhando em comer, quando caminhava na floresta! Me senti de novo profundamente agradecida.
O Mosteiro estava cheio, pois eu estava entre os últimos peregrinos que chegaram ontem, e fui dormir numa espécie de acampamento que fica bem pertinho e também pertence ao Mosteiro. São umas cabaninhas pré-fabricadas. Tudo muito simples, banheiro idem. Consegui tomar um banho levemente morno, pus meu saco de dormir sobre a cama, para dormir mais quentinha, me deitei um pouco e dormi. Na minha cabana tinha um jovem casal carioca. Muito simpáticos, mas não conservamos muito, porque eu estava morta.
Hoje acordei cedo de novo, porque o pessoal do Mosteiro acorda todo mundo cedo. Eu até queria ficar mais um dia aqui, para descansar um pouco melhor do dia de ontem, mas pelas regras do albergue, cada peregrino só pode dormir uma noite. Então, estou aqui, do lado de fora do Mosteiro, sentada a umas mesinhas, esperando que ele reabra, para eu poder tomar um chá quente e recomeçar minha caminhada.
O dia de ontem não foi fácil. Foram 24 kms de subida, na maior parte, com uma mochila pesada nas costas. Meu aprendizado: quando a gente tem de enfrentar uma grande caminhada, é essencial se concentrar apenas no próximo passo. Se você pensa nos 24 kms que tem pela frente, cada metro se torna penoso. Mas, se você se concentra apenas no momento presente, e procura olhar para os lados, se deliciar com a paisagem, sentir a sua própria respiração naquele exato momento, os metros e quilômetros vão se passando, e quando você se dá conta, escuta o sino da igreja anunciando que você chegou ao fim. Acho que isso vale pra todo desafio que a gente tem de enfrentar na vida.
É isso, Niquinha. São dez horas da manhã. Faz um certo friozinho. Talvez chova de novo hoje. Vou tomar um chá, rezar um pouquinho na bela Igreja de Santiago, e retomar o Caminho.
Saudades, Minha Irmã. Fique com Deus (pois Ele está sempre com você!)
Beijo no seu coração,

Léia

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 1


09/09/15

Niquinha,

Hoje começou, efetivamente, minha jornada para Santiago.
Ao contrário do dia chuvoso de ontem, hoje fez um sol radiante. Nenhuma nuvem no céu. Acordei cedo, e após um croissant fresquinho com chá, tomei o metrô até a Gare Montparnasse. Imprimi meu bilhete, mas não consegui identificar meu trem no painel, porque no bilhete não consta o destino final. Tive que ir ao centro de informações. Um rapaz gentilíssimo me orientou e pude subir no trem com tranquilidade. Um parêntese para dizer que estou impressionadíssima com a gentileza dos franceses. Em todo lugar que eu fui, o tratamento foi de uma gentileza só. Parece que depois de campanhas publicitárias em prol da simpatia com os turistas e de uma Copa do Mundo, os parisienses mudaram de postura. Bom. Viajei na primeira classe de um TGV! Chique, né? Mas foi só porque a diferença era de apenas cinco euros. Achei que valia a pena experimentar. As poltronas são um pouco mais amplas.
Viajei numa cabine com um casal parisiense super simpático e uma moça coreana que também vai fazer o Caminho de Santiago. O nome dela é Young. Eu fiquei super feliz com a Jesuscidência. Young (pronuncia-se Ian) também está viajando sozinha. Ela mora na Índia, trabalha numa ONG que ajuda refugiados tibetanos e veio só pra fazer o Caminho. Adivinha! Ela leu Paulo Coelho há uns dez anos e desde então sonhava em fazer o Caminho. Young tem a minha idade e é uma gracinha. Aquele jeitinho oriental tímido e doce, como a Dra. Norma. De certo modo, nos tornamos parceiras de viagem. Vamos iniciar a caminhada juntas, amanhã. O casal parisiense regula entre os setenta e os oitenta. Conversamos um pouco ao longo da viagem. Eles estão interessados nas Olimpíadas no Rio. Era tão bonitinho os dois juntos. Podia-se perceber a harmonia e o carinho entre eles. Me senti tão feliz ao contemplá-los. Tão amorosos um com o outro, depois de toda uma vida juntos...
Para começar o Caminho, toma-se um trem que vai de Montparnasse a Bayonne. Esta última é uma graça de cidade, com prédios antigos, uma linda ponte, uma igreja em estilo românico (do Espírito Santo). Também tem uma bela catedral, mas não deu tempo de visitar. Em Bayonne a gente já começa a ver uma concentração de peregrinos. Cada um com sua mochila e vários com os apoios pra caminhada. Muitos peregrinos de cabeça branca, o que me deixou bastante impressionada. Em Bayonne me convenci de que minha mochila estava muito pesada. Young também sentia a mesma coisa. Fomos, então, ao Correio. Despachei meu tênis e mais umas peças de roupa pra casa de Federica, na Itália. Fiquei com o essencial do essencial. O problema é que meu saco de dormir pesa muito. Talvez tenha de deixá-lo pelo meio do caminho. Veremos o que acontece.
De Bayonne tomamos outro trem (duas horas depois) para Cambo-Les-Bains, já nos Pirineus. E de lá, um ônibus, até Saint Jean Pied de Port. O trajeto entre Cambo e Saint Jean é belíssimo. Engraçado que eu tinha na cabeça a ideia de que os Pirineus eram rochosos, não sei por que... na realidade são grandes colinas verdes, entrecortadas por rios de leitos rochosos. A coisa mais linda. A imagem das árvores refletida na água verde, mas cristalina. Pontes charmosas. É em pleno coração do País Basco. As placas de sinalização das estradas são bilingues. E a língua basca é muuuuito diferente das nossas línguas latinas. Curiosíssimo. No ônibus, cheio de peregrinos, se podia sentir uma energia boa, alegre e ao mesmo tempo calma. Todo mundo fala com todo mundo. Trocam-se informações. Conhecemos uma senhora belga que está fazendo o Caminho pela sexta vez!
Chegamos a Saint Jean depois das sete da noite, mas ainda com dia claro. Saint Jean é uma gracinha de cidade medieval! Com muralha e tudo. Hoje não deu tempo de andar pela cidade, mas amanhã, com certeza irei fazê-lo, antes de partir. Eu e Young conseguimos hospedagem num albergue simpático. Jantamos num restaurante charmoso, com pátio nos fundos. Comida caseira, simples e gostosa. Estou bastante cansada, porém, feliz. Me sinto profundamente agradecida por estar aqui. Já estou com meu Passaporte do Peregrino em mãos, com meu primeiro carimbo! Sei que o Caminho não será fácil, e os primeiros dias são justo os mais difíceis. Mas também tenho a certeza de fé de que vai dar tudo certo. Como estava estampado na camisa de um senhor alemão: No pain, no glory.
Te amo, Minha Irmã. Fica com Deus!
Beijo saudoso,


Léia