terça-feira, 28 de abril de 2015

O Bom Pastor


Domingo passado fui à missa na Igreja Episcopal, com D. A denominação é Anglicana e o rito da missa é praticamente idêntico ao da Igreja Católica. Uma diferença importante: eles convidam todos os batizados em Cristo a receber a Comunhão. Num dos panfletos da Igreja, eu li que isso não significa que eles não levem em conta a importância da Comunhão, mas sim, que eles dão extrema relevância ao Batismo. Perspectiva muito interessante. Também me parece muito bom que eles não imponham o celibato aos sacerdotes. Tomara que Francisco consiga levar nossa Igreja a esse ponto de equilíbrio e bom senso.
A missa foi linda. Teve coro e um organista que abriu e fechou a celebração com peças clássicas. D. passou a cerimônia inteira gentilmente selecionando as páginas das leituras e dos cantos, nos dois enormes livros posicionados em frente a cada fiel. Estava preocupada que eu pudesse acompanhar tudo. Uma gracinha.
A Igreja de St. James (São Tiago) é um belo prédio do século XIX, em tijolo aparente por fora. Um edifício sóbrio e elegante, com uma comprida torre e a fachada principal pontiaguda. Dentro, destaca-se a madeira trabalhada, em estilo gótico, com dois vitrais grandes nas laterais da nave principal, retratando cenas da vida de Cristo. A única imagem de santo é a de Saint James, acima do altar, retratado num conjunto de “vitrais” da Tyffany, do início do século XX (1910 mais ou menos). Todo o conjunto sugere uma atmosfera de sobriedade, quebrada basicamente pelo colorido dos forros dos bancos no altar, preciosamente bordados, e pelo carpete fuccia, que forra toda a igreja. A nave central, na realidade, é pequena. E a missa teve uma reduzida audiência. Vi apenas quatro pessoas negras, dentre as quais o organista e duas mulheres que cantavam no coro. Antes e após a missa, os fieis e sacerdotes se reúnem no ampla e igualmente elegante salão paroquial, aos fundos da Igreja. Servem-se cookies, café e limonada.
O que mais gostei foi o sermão do Padre. Um senhor gorducho, de cavanhaque branco e gestos tranquilos, porém firmes. Seu tom de voz era igualmente calmo, baixo, porém, seguro. O tom da voz que exorta, orienta, com serenidade e sem pretensão. Conheci outros padres americanos que falavam de modo semelhante. Talvez seja um traço cultural. Não há estridência. Não há exagero. Me transmitem uma sensação de equilíbrio que parece tão adequada ao seu papel de líderes espirituais... No Brasil, lembro-me de dois sacerdotes que falavam com essa serenidade, firme e humilde: Padre Luiz Antônio, que foi pároco em Boa Viagem, e Frei Aloísio, da Ordem Terceira de São Francisco. Não o conheci pessoalmente, mas acho que D. Helder também falava assim. Acho que quero dizer que nessas pessoas a autoridade moral, a liderança espiritual, prescinde da voz elevada ou estridente, ou de qualquer gestual mais dramatizado...
O padre de St. James proferiu um belo sermão sobre O Bom Pastor. Duas ideias me chamaram a atenção. A primeira foi sobre a sensação de conforto que uma voz conhecida sempre provoca em nós, criaturas humanas. Somos capazes de reconhecer as vozes dos que amamos à primeira palavra. E como esse reconhecimento pode nos encher de alegria! É um fato. O desafio é o de também estarmos aptos a reconhecer a voz de Deus, quando Ele fala conosco.

A segunda ideia é ainda mais interessante e diz respeito à imagem do Bom Pastor. Quem é, afinal de contas, o Bom Pastor? Em seu sermão, o Padre nos convidou a pensarmos no Bom Pastor não apenas como aquela figura que ampara, e que é capaz de dar a vida por suas ovelhas, mas como alguém que também está ali para exortar, quem tem um cajado na mão e um saquinho de pedras, para cutucar e admoestar as ovelhas que querem seguir pelo caminho indevido. O Bom Pastor é aquele que sabe ser firme e rigoroso quando é disso que suas ovelhas precisam. E aí, seguindo outro traço que talvez também tenha a ver com uma tradição cultural americana – e que muito me agrada --, o padre conectou essa mensagem com o cotidiano de seus fiéis. Nos exortou a pensarmos nos bons pastores que cruzaram nosso caminho, de quem nem sempre soubemos reconhecer as lições importantes. Nos estimulou a sermos bons pastores na vida de outras pessoas. Cumprindo, dentre outras, a espinhosa missão de advertir, cutucar e alertar.

domingo, 26 de abril de 2015

O suor do rosto

Na minha passagem por Miami, meu amigo Carlos me contou que havia lido sobre um tratamento muito eficaz para insônia. Eficaz e simples. A pessoa tem de passar 7 dias num lugar sem utilizar a luz elétrica. Preferencialmente numa área rural. Parece que depois de 7 dias dormindo com as galinhas e acordando com os galos, o corpo passa por uma espécie de reprogramação. Como se o organismo desse um reboot, ou zerasse tudo, pra recomeçar a contagem. Zerado, ele volta a funcionar direito. Trata-se de uma espécie de reprogramação de si mesmo.
Desde que Carlos me disse isso, que estou com essa imagem na cabeça. Parece-me uma metáfora interessante para o que eu estou tentando fazer comigo mesma. Nada a ver com insônia, mas com esse desejo de reprogramar comportamentos, concepções, prioridades. E assim como o insone busca reequilibrar o sono por meio da luz natural, o que estou tentando fazer é viver de atividades primárias, básicas, manuais. Voltar ao primitivo, para conquistar uma renovação genuína e profunda.
Claro que estou apenas no início desse processo, mas tenho me sentido muito gratificada com atividades primárias, que nunca fizeram parte da minha vida. E como estou trabalhando para ter comida e cama, pela primeira vez na minha vida posso dizer que estou literalmente vivendo do suor do meu rosto. Faz alguns dias que trabalho duro, puxando folhas com um “garfo”, remexendo a terra, plantando mudas, aguando plantas. E tenho feito questão de não usar luvas. Me dá prazer sentir a terra nas mãos, enquanto assento as raízes de uma plantinha que um dia será uma bela e frondosa árvore. Nessa lida, tenho me lembrado muito de Iza. Lembro de como ela conversava com as plantas na casa de vovó e, depois que meus avós morreram, na casa dela. Estou tentando fazer a mesma coisa, conversar com as minhas mudas, tratá-las com genuíno carinho, pra ver se elas crescem bonitas e viçosas.

Meu corpo, claro, acostumado apenas ao computador, está se ressentindo. Músculos me doem por toda parte. Mas até isso me alegra. Cada vez que sinto um músculo reclamando, tenho a certeza de que estou fazendo a coisa certa. Em pouco tempo sei que meu corpo estará afeito a essas atividades. Não me cansarei tanto como agora. Irei adquirindo resistência, à medida que o organismo se reprograma. Reprogramar a mente e o espírito será bem mais complexo e mais lento. Sei disso. E sei também que chegarei lá.

Um subúrbio americano


Os subúrbios americanos têm uma configuração muito particular. D. mora num subúrbio de Baton Rouge. Tenho saído para caminhar todos os dias (tentando desenvolver o hábito da atividade física), e aproveito essas ocasiões para observar a configuração espacial e humana do subúrbio. Me parece uma espécie de entre-lugar. Os subúrbios americanos ficam nas periferias das grandes e médias cidades, porém não têm nada a ver com as periferias brasileiras. Os subúrbios permitem que as pessoas fujam do ruge-ruge das cidades. Viver nessas áreas periféricas significa ficar mais distante dos engarrafamentos, do movimento intenso de pedestres, do barulho e da poluição dos centros de cidade. No entanto, também significa ficar distante de suas facilidades e conveniências, cinemas, bares, mercados. Quando se mora nos subúrbios, parece que dá pra fazer poucas coisas a pé. Minha impressão – que pode estar errada – é de que o carro se faz necessário para quase tudo. Além disso, os subúrbios estão sempre perto das highways e freeways, cujas margens não têm nenhum charme.
Tenho apreciado muito minhas caminhadas diárias, por essa vizinhança de ruas arborizadas, calmas e silenciosas. Confesso, porém, que não me agradaria a ideia de viver numa área com essa configuração. Todas as ruas nos arredores se parecem. Todas as casas se parecem. Predominam tons neutros nas fachadas. Basicamente o bege, quebrado aqui e acolá por alguma parede branca. Algum proprietário mais ousado, tem a fachada da casa cor de terra. Se alguém se aventura no verde, é um verde água, bem esmaecido. A sensação geral é de certo monocromatismo. Ousadia das ousadias, uma porta vermelha. Sinto falta de ver mais casas avarandadas, que não deixam de ser uma herança arquitetônica, profundamente vinculada à história desse estado sulista. Os jardins é que variam mais, e dá gosto observar alguns deles. Nenhuma das casas têm cerca. Jardins se dispõem à frente das portas, e terminam em calçadas, seguidas de um gramado que se interpõe à rua. Bandeiras americanas pontuam esse cenário. Minha casa favorita nessa vizinhança é uma casa com parte da fachada branca, com lamparinas a gás ladeando a porta de entrada. Tem o sabor nostálgico que me agrada quase sempre.
De modo geral, para mim, a beleza e o charme vêm principalmente das árvores. Os jardins são repletos delas. O que não apenas gera sombra, como serve de casa para pássaros e esquilos. As ruas são tranquilas e silenciosas (de ruídos humanos ou de máquinas). Raramente passam carros, quando estou caminhando. Assim, escuto basicamente o barulho alegre dos pássaros. Vejo inúmeros esquilos brincando nos gramados e nas árvores. Passam ligeiros diante de mim e sobem pelo troncos com grande agilidade e muita graça. Há muitas magnólias, que estão em plena floração. Admiro suas flores de enormes e firmes pétalas brancas.
O ambiente é muito propício para a caminhada e a reflexão. Em contrapartida, as pessoas não se encontram e não se falam. D. me confirma essa impressão. Os vizinhos não conversam, não interagem. Ela me explica que é uma vizinhança um tanto envelhecida, com raras crianças. Talvez nem todas as vizinhanças de subúrbios sejam assim... Em todo caso, a ampla extensão das fachadas das casas, associada ao uso constante de carros para o deslocamento cotidiano, me dão a sensação de não favorecer o convívio e a intimidade.

Claro que viver nos subúrbios é uma escolha por um estilo de vida. E como tudo na vida tem suas vantagens e desvantagens. O ponto de ônibus mais próximo da casa de D. fica a 40 minutos de caminhada. Seria um problema para mim, se fosse ficar mais tempo, ou se sentisse a necessidade de ir à cidade com mais frequência. Para D. é conveniente, porque seu amplo quintal é fundamental para as atividades que ela desenvolve e que lhe são tão caras. Enfim, mais uma prova de que não se pode ter tudo, e de como é importante que cada um tenha a clara noção de suas prioridades, para que não se sacrifiquem coisas essenciais, sem as quais, a paz de espírito é difícil de ser alcançada.

Pessoas são complexas

Como me ensinou papai, a gente não deve se deixar abater na primeira dificuldade. E também precisamos ter paciência uns com os outros. Estou muito feliz por não ter cedido à tentação de não lidar com a instabilidade de humor de D., e por não ter ido embora, em busca de uma situação mais fácil e mais reconfortante.
Tenho tido muitos momentos agradáveis e preciosos com D. Tenho aprendido muitas coisas com ela, sobre como cuidar de plantas, sobre a história e a cultura da Lousiana, sobre a arte de cozinhar. Após o estresse da véspera do Earth Day, D. foi gradualmente se acalmando e relaxando. Temos tido longas e deliciosas conversas, sobre o Brasil e sobre os Estados Unidos. Ela tem me levado a vários lugares que frequenta, e hoje me levou para visitar o antigo Palácio de Governo de Baton Rouge. Também está cogitando a possibilidade de ir comigo a um parque nacional histórico, que fica a três horas e meia daqui. Na terça passada, ela foi almoçar com amigos num lugar que vende frutos do mar e trouxe várias coisas para preparar um jantar especial para mim e para L. Comemos camarões frescos, peixe e perna de rã, fritos, com tempero cajun. Delicioso! Ontem foi a minha vez de retribuir. Fiz um molho ragú (com presunto) para o jantar, e ela adorou. Antes de ir embora, tentarei fazer uma feijoada.
Sem dúvida, teria sido mais cômodo partir. Ainda bem que fiquei. Sinto-me gratificada pelo que estou recebendo, e pelo que tenho a possibilidade de ofertar. D. é uma pessoa solitária e sofrida. Sei que ela está feliz com a minha companhia, com meu trabalho, com a possibilidade de compartilhar das minhas experiências e visão do Brasil. Meu coração sente isso com toda clareza. Conjugamos de certas concepções sobre política e religião. Nos emocionamos juntas, ouvindo a uma música chamada Here I am, Lord, que ela pôs para eu escutar. Estabelecemos uma relação de troca, enriquecedora para nós duas.
Faz uns dois dias, ela me chamou no quintal, à tardinha, para sentir o perfume das flores, que uma brisa de entardecer estava espalhando por toda parte. Foi mágico. O enorme jasmineiro que ela tem junto a uma cerca rescendia fortemente. Seu perfume se alternava com o de uma plantinha chamada honey buckle. D. me mostrou como tirar a pontinha do pé da flor e puxar um fio que solta uma gota de seiva docinha, parecendo um mel. Uma experiência cheia de delicadeza e sutileza.
Hoje, enquanto caminhava, pensava na convivência desses últimos dias com D. e refletia sobre como nós temos essa tendência a achar que as situações que estamos vivendo, no presente, são eternas. Ou pelo menos damos um grau de dramaticidade ao presente que só serve para gerar ansiedade, sofrimento e estresse; normalmente desnecessários. Quando a filosofia Zen diz que só existe o tempo presente, quer nos ensinar a nos libertarmos seja da nostalgia do passado, seja da ansiedade pelo futuro. Só que é muito importante fugirmos à armadilha de viver o presente como se ele fosse eterno. Não é. Como dizia vovô Jader: Não há bem que pra sempre dure, nem há mal que não se acabe.

O nervosismo de D. passou. Ela continua sendo uma pessoa de equilíbrio emocional delicado, logo, instável. Porém, aprendi a lidar com ela. Tive paciência para esperar a tempestade se desfazer, e agora estou colhendo deliciosos frutos. Aliás, literalmente, pois antes de ontem fomos à igreja dela apanhar umas mudas de uma “ameixeira japonesa” e colhemos frutos sborosos, de uma espécie que eu nunca havia provado. Essas ameixas são pequenas, amarelas, com uma penugem exterior que lembra mais um pêssego, e delicadamente doces. Mais um momento de alegria e descoberta ao lado dessa figura generosa e amorosa, que é tão complexa como todos nós somos.

Plantation Houses: uma viagem no tempo


O Sul dos Estados Unidos tem uma formação histórico-social que guarda alguns paralelos com o Brasil. Foi nessa região do país onde se instalaram latifúndios monocultores, com sua casas-grandes e senzalas. Na Lousiana, muitas dessas propriedades foram preservadas e podem ser visitadas. Como admiradora e, acho que posso dizer, discípula de Gilberto Freyre, não podia deixar de fazer uma incursão dessa natureza.
Num belo dia de sol e bastante calor, convenci L. a visitar algumas Plantation Houses que ficam ao Norte de Baton Rouge, no município de St. Francisville, a pouco menos de uma hora de carro. Duas observações gerais devem ser feitas a respeito das propriedades que visitei nessa região de Baton Rouge. A primeira é que as casas-grandes datam, na verdade, do século XIX, o que representa uma diferença importante em relação ao Brasil, onde as casas-grandes dos velhos engenhos do Nordeste são bem mais antigas. A segunda, é que as instalações onde viviam os escravos – o equivalente às nossas senzalas – não mais existem. De todo modo, o passeio vale demais a pena, seja para apreciar a arquitetura peculiar, seja para caminhar pelos imensos jardins, com vegetação exuberante e árvores magníficas.
The Myrtles Plantation é uma propriedade privada, que oferece visitas guiadas à casa-grande, além de hospedagem em quartos no interior e fora da casa. A casa-grande foi construída em 1796, mas o que se visita são instalações adicionadas posteriormente, na primeira metade do século XIX. A casa-grande não é tão grande assim, porém, é muito charmosa, com sua fachada em madeira branca e enormes janelas, protegidas por persianas de madeira. Uma ampla e convidativa varanda se estende por todas as faces da casa, emoldurada em ferro trabalhado, como se fosse uma renda. É o mesmo gênero de varanda que caracteriza a arquitetura do French Quarters, em Nova Orleans, e que me encanta. Na varanda da Myrtles Plantation, cadeiras de balanço evocam a temporalidade mais vagarosa dos tempos idos. Há uma simplicidade elegante na fachada da casa, que contrasta com a suntuosidade francesa da decoração interior.
Um jovem rapaz faz as vezes de guia na visita ao interior do edifício, que reivindica o título de uma das casas mais mal-assombradas dos Estados Unidos. A mobília, preservada do século XIX, é quase toda francesa, assim como os adornos e objetos de uso pessoal: belos lustres, canapés e poltronas forrados com brocados e bordados preciosos, móveis em madeira trabalhada, alguns objetos marchetados, a louça refinada sobre a mesa pronta para o jantar. A recomposição dos ambientes da casa parece autêntica, com algumas exceções, como as pesas cortinas de veludo verde e franjas douradas, que o guia faz questão de salientar serem semelhantes às utilizadas por Scarlett O´hara para fazer-se um novo vestido, no clássico E o vento levou.... Dentre os vários objetos que vejo, dois são novidades para mim. Ambos têm a mesma função de livrar os comensais de inconvenientes – e certamente abundantes – moscas. Algo semelhante a um enorme abanico de madeira pende do teto sobre a mesa de jantar. Por meio de uma corda, algum escravo produzia movimentos pendulares, de modo a abanar as moscas. Repousado sobre a mesa, um engenhoso objeto de vidro, parecido com a tampa de uma compoteira, era usado para aprisionar os indesejáveis insetos, de modo que não importunassem demasiado a refeição.
O guia nos conta histórias de morte, doenças, mentira, traição, incluindo assassinatos. O Coronel que implantou a propriedade foi um dos líderes da chamada Revolta do Whiskey (rebelião contra a pesada cobrança de impostos pela Coroa Inglesa). O segundo dono da casa, seu genro, foi morto à queima-roupa, na varanda, por um desconhecido a cavalo. Uma escrava envenenou um bolo de aniversário, matou algumas pessoas da família e foi enforcada. Uma das netas do Coronel morreu ainda criança, no curso de uma epidemia, e seu retrato terminou de ser pintado após sua morte. O retrato é impressionante. Nota-se uma clara diferença entre a metade do rosto pintada antes da morte da menina, e a metade supostamente pintada após a fatalidade. A diferença entre as duas metades é sutil, e isso só torna o retrato mais horripilante. A mãe da menina, com medo de espíritos maus, tomou várias providências para proteger a casa, como inverter as fechaduras e colocar uma proteção de metal nelas, de modo que os buracos das fechaduras permaneciam fechados durante a noite, para evitar a entrada de “visitantes” indesejados. O guia nos mostra marcas num espelho que se acredita ser mal-assombrado, além de fotos da casa com misteriosas sombras de pessoas. Com ou sem fantasmas, o fato é que se pode sentir a energia pesada e triste do lugar.
Todo o entorno da casa-grande da Myrtles Plantation é lindo. Não são propriamente jardins, mas extensos gramados, onde dezenas de árvores centenárias, cobertas de musgos, de jasmim e de outras trepadeiras, formam um lindo cenário. Dá gosto passear entre as árvores e caminhar até o pequeno lago, todo ele coberto de uma minúscula plantinha verde-clara, que forma como um tapete por sobre as águas. Por um momento a pessoa se pergunta se aquilo é um gramado, até que os pequenos habitantes do lago provocam o movimento inconfundível da água. Uma pontezinha de madeira branca leva à um caramanchão quase que dentro do lago. Ramos de árvores situadas às margens, projetam sombra sobre as águas. Tento remeter minha imaginação ao passado e vejo sinhazinhas sentadas sob o caramanchão, lendo livros, ou conversando com suas mucamas, ou casais aproveitando as horas doces e românticas do entardecer. A vida naquela época certamente não era fácil, mas tinha seus encantos.
A Rosedown Plantation é um cenário diverso. Trata-se de uma casa-grande imponente e suntuosa. Tem dois andares de pé direito altíssimo, e varandas com enormes colunas redondas e um pouco bojudas. Um enorme e trabalhado jardim se estende à frente e nas laterais da casa. A parte do jardim mais próxima à casa-grande é toda em estilo francês, com suas cercas-vivas esculpidas, formando labirintos, entremeados por canteiros de flores cuidadosamente selecionadas. Já na área do jardim mais próxima do enorme portão de entrada, ladeando a comprida e ampla alameda que leva até a casa-grande, estendem-se jardins em estilo eclético, onde as árvores e plantas se dispõem à vontade, e em profusão. Esse enorme e belo jardim foi sendo cultivado ao longo de quase seis décadas pela esposa do primeiro proprietário de Rosedown.
No interior, a casa-grande também tem decoração basicamente francesa. O mobiliário e os objetos são, em sua quase totalidade, originais. Hoje, Rosedown é propriedade do estado da Lousiana. Todas as guias que acompanham os visitantes e contam os detalhes pitorescos da história e da vida nessa casa-grande vestem roupas do século XIX. Os ambientes são, no fundo, semelhantes aos da Myrtles Plantation. Mesma sofisticação francesa dos móveis, tapetes, objetos (o mesmo abanico gigante e o mesmo apanha-moscas), ainda que um pouco mais de requinte. Além disso, em Rosedown, podemos ver os quartos de dormir, com suas camas de dorsel, um lindo berço, brinquedos da época, e algumas “modernidades” encomendadas pelo proprietário, homem que gostava de novidades. Um exemplo: banheiro com um complexo sistema que puxava água de uma cisterna, permitindo banhos de chuveiro. A história da família que viveu em Rosedown parece um tiquinho menos trágica.
Por trás da casa, uma despensa, um laguinho, um viveiro de pássaros, e mais adiante, um gigantesco e magnífico carvalho. Tal como na Myrtles Plantation, já não há vestígios das instalações onde viviam os escravos.
Na loja de souvenirs (que nunca falta em nenhum lugar de visitação em solo americano), há uma exposição sobre a Guerra Civil. Descubro, para minha grande surpresa, que cerca de 300 mulheres se disfarçaram de homem, para lutar no Exército Confederado.

Nas proximidades de Rosedown há uma outra Plantation House, chamada Oakley. Mas já se fazia tarde quando saímos de Rosedown e não foi possível visitá-la. L. não gostou das Plantation Houses. Disse que são lugares tristes. Provavelmente ele tem razão. Talvez não possa ser de outro modo, considerando-se toda a história de violência, brutalidade e injustiça que se encerra em qualquer casa-grande, nos Estados Unidos ou no Brasil.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Dia 15: Das águas tristes do Mississipi ao Egito

20/4/15

Depois de dois dias cansativos, finalmente uma boa e reparadora noite de sono. Quando acordo, D. e L. já não estão em casa. Afinal, resolvo limpar um pouco meu quarto e o banheiro. Passo a manhã nessa pequena faxina. Nada que faça diferença na casa, mas me sinto melhor de ter os ambientes onde circulo mais limpos e organizados.
D. mantém a casa fechada o tempo todo, por causa do ar condicionado. E isso me dá certa aflição. Ainda mais com o gato dentro de casa. Feliz ou infelizmente, desde que cheguei tenho o nariz meio entupido. Primeiro por causa da gripe que me pegou em Miami, agora já suspeito que estou tendo alguma reação alérgica. Todas as tardes meu nariz começa a fechar e estou usando uma medicação nasal para poder dormir. Não sei se é a sujeira da casa, ou a Primavera. Lembro que em meus últimos anos em Berkeley, tive rinite alérgica exatamente nos meses de abril e maio, quando as plantas começam a renascer e espalhar mais pólen pelo ar.
À tarde, L. se oferece para passear comigo pelo centro de Baton Rouge. L. é muito retraído, e pouco interage com D., mesmo antes do episódio do tiro na janela. No entanto, ele tem sido muito gentil comigo. Caminhamos à beira do rio Mississipi. É um rio largo, caudaloso e feio, pelo menos tal como o vejo nessa primeira vez. É um rio de águas barrentas e tristes. Não sei explicar porque me parece triste. D. me explica, mais tarde, que é um rio traiçoeiro, não parece, mas é perigoso, por causa da velocidade das águas. Nem pequenos barcos navegam nele. Tomar banho, então, nem pensar (mesmo que não fosse muito poluído). À beira do Mississipi, em Baton Rouge, há uma orla, com bancos, luminárias, esculturas e uma calçada onde se pode passear, caminhar, correr. Um muro de contenção, desce do passeio até a beira do rio, em posição diagonal. Trata-se de uma estrutura de contenção das águas, para as ocasiões em que o rio enche. Eu e L. nos sentamos bem à beira d´água e ficamos olhando as águas escuras, revoltas e tristes. Um grande barco à vapor repousa na ponta de um píer emoldurado por um portal modernoso, cheio de arcos. É um cruzeiro que vai até Menphis. A viagem de sete dias custa sete mil dólares. Me pergunto quem paga essa fortuna para subir o Mississipi. Imagino que seja pela nostalgia e pelo valor histórico do barco, que parece uma versão original daqueles que vemos nos filmes.
Um pouco depois do barco, à esquerda de onde estamos, se situa um outro barco, que é, na verdade, um cassino. À direita, bem mais longe de onde estamos, um outro barco abriga outro cassino. L. me explica que o jogo é permitido em Lousiana, desde que seja dentro d´água. Essa legislação parece fazer pouco ou nenhum sentido.
Deixamos as margens do Mississipi e vamos visitar o campus da LSU, a universidade do estado da Lousiana. O campus é lindo, como a maior parte dos campi americanos, diga-se de passagem. Prédios em tijolo aparente, de argila clara, todos próximos uns dos outros, muitas árvores imponentes, belos gramados, esquilos e pássaros em abundância. Um carvalho enorme e majestoso estende seus galhos sobre uma vasta área, tocando o chão em alguns pontos. Estudantes caminham em todas as direções, mas apesar do movimento constante de pessoas, reina um silêncio surpreendente e reconfortante no campus. Sobre a porta de entrada do prédio de Astronomia noto um alto-relevo com símbolos do zodíaco. Um grande galpão abriga a escola de artes plásticas, onde alguns alunos trabalham em suas obras, como se estivessem em seus pequenos ateliês. O pátio central da Universidade abriga uma coleção de esculturas contemporâneas. A torre com o relógio me lembra Berkeley. Um enorme estádio de football me sugere que o time da LSU pode ser uma paixão local. As cores da LSU são fortes e estão por todo o campus: roxo e amarelo.
Da LSU seguimos para o Museu de Artes e Ciências de Baton Rouge, para assistir a uma palestra de uma professora da American University of Cairo sobre múmias de animais. Antes da palestra vistamos a coleção que o Museu possui do Egito. São poucas peças, porém eles têm uma preciosidade: uma múmia de mais de dois mil anos. A exposição é interessante, apesar de pequena. Um pequeno cocktail nos surpreende à entrada da palestra. Há um queijo de cabra divino. A professora, de traços indianos e belo sotaque britânico, é muito simpática e divertida. A palestra é bem introdutória, desenhada para um público leigo como eu. Aprendo várias coisas sobre costumes do Egito Antigo, além dos princípios da mumificação, que consiste basicamente num processo de desidratação por meio de sal e bicarbonato, se entendi bem.

Chegamos em casa e D. nos espera com várias caixas de morango, que precisam ser limpos e selecionados para congelamento. Ela fará tortas e geléia para vender. Mais uma de suas estratégias de financiamento do projeto com as comunidades carentes da América Central. A casa rescende a morango e vou me deitar tarde, impregnada desse perfume.

Dia 14: Lousiana´s Earth Festival

19/4/15



Lição do dia: Como é importante a gente se esforçar para vibrar numa energia positiva.
Acordamos cedo para esperar o amigo de D. que nos ajudaria a transportar as plantas para o local do Earth Festival, bem no centro de Baton Rouge. A questão é que D. acordou de mau humor. Ainda que chateada pelo que aconteceu a S., e que continua me parecendo despropositado e injusto, não consigo deixar de ter alguma simpatia por D. e compreender seu estado de espírito. Trata-se de um evento muuuuito importante para ela. D. dedicou os dois últimos anos de sua vida aos preparativos para esse dia, no qual ela esperava vender a maior parte de suas plantas. Com esse dinheiro ela mantém seu projeto na América Central. Entendo que ela esteja ao mesmo tempo ansiosa e frustrada, porque tudo que aconteceu na véspera lhe tirou a alegria que esse dia deveria comportar.
O que D. não compreende é que a vivência desse dia depende principalmente da postura que ela assumir diante dos fatos. Lembro-me de papai e da frase que ele sempre cita do Imperador-filósofo, Marco Aurélio: as coisas exteriores só nos afetam na medida em que nos deixamos afetar por elas. A verdade é que a maior parte dos fatos da vida, independem da nossa vontade. Qualquer forma de controle sobre a própria vida é meramente ilusório, ou circunstancial. Mas podemos controlar nossas reações diante dos fatos, da realidade posta, das conjunturas. Eis o que tenho vontade de dizer a D. Permaneço calada, pois sei que ela não está aberta e não deseja escutar esse tipo de reflexão, nesse momento. Paciência. Só lamento porque ela vibra numa energia negativa, e isso me faz pensar que o Festival não trará os resultados esperados por ela. Creio piamente que essa é uma lei do Universo: a gente atrai o que emana.
B. chega com sua pick up. É o marido de uma companheira de congregação de D. Um sujeito muito simpático, bem humorado, solícito. Mais um exemplo da cordialidade sulista. Carregamos os carros e seguimos para o local do Festival. Arrumamos as plantas na área designada pela organização e ficamos à espera dos visitantes, que só começam a chegar em quantidades significativas no início da tarde. Muito tempo se passa até que as plantas de D. comecem a ser vendidas. Pelo menos o dia não será um desastre.
B. e sua esposa, M. ficam por perto, tentando ajudar. B. entende tudo de plantas, porque trabalha com isso. Sua ajuda ao longo de todo o dia foi essencial, e parece ser obra da Providência. M. é muito engraçada. Fala sem parar e parece ter três vezes mais energia que o marido. Observando-os fico pensando em como certos comportamentos e dinâmicas entre casais parecem universais. Talvez sejam universais para o Ocidente. B. e M. têm dois filhos, uma aborrescente, com todos os trejeitos próprios dessa fase da vida, e um garoto bonito e vivaz, com olhinhos atentos e inteligentes.
Pelas três da tarde o Festival começa a ficar mais animado. O número de transeuntes aumenta consideravelmente. Vejo meninas, brancas e negras, passando com enormes laços na cabeça. Para mim, parecem criaturas saídas de algum filme da primeira metade do século passado. Um costume que não saiu de moda na Lousiana, talvez. Acho isso pitoresco.
Difícil não observar a composição demográfica. Muitos negros, brancos em quantidade razoável, e poucos mulatos claros. Vários rapazes negros andam com as calças pelo meio da bunda, com a cueca quase toda de fora. Confesso que me causa estranhamento. Fico prestando atenção nos cabelos das moças negras, com penteados diversos, para todos os gostos: lisos, em coques, tranças, com topete, coloridos... Há uma clara preocupação dessas moças com o cabelo, que em alguns casos parece ser a parte mais importante da toilete, o que efetivamente as diferencia.
Faz um belo dia de sol. O calor é considerável. Me afasto da nossa barraca para dar uma volta pela feira, mas não tenho muita disposição para ficar andando sob o sol, que me queima a pele e aquece o ar a ponto de incomodar. Pelo menos a mim. Já os locais curtem o sol, sentados em cadeiras portáteis, de lona, dobráveis. Algumas dessas cadeiras têm um guarda-sol acoplado. Muitas pessoas estão acomodadas em suas cadeiras, no gramado de uma praça, no fundo da qual está montado um palco. Músicos se apresentam. Quando me aproximo, estão tocando jazz, e logo passam a um pop rock. No espaço entre o gramado e o palco, pessoas dançam ao som dessa música. Ao lado do gramado, crianças descalças brincam numa fonte. A alegria é quase palpável nesse domingo de sol e festa. Barracas de comida vendem todo tipo de fritura e junk food. Algo que ainda preciso provar é um marisco muuuuito popular na região, chamado crawfish. Parecem miniaturas de lagosta. São vendidos em pequenos montes para cada pessoa. D. me explica que crawfish é uma comida super social, própria de almoços com muita gente. Imagino que seja como feijoada ou caranguejada para nós, no Brasil. Comida típica de um domingo de reunião familiar ou entre amigos. Assim, nas barraquinhas de rua, me parece pouco convidativo. Aguardarei uma melhor oportunidade para experimentar. Como uma deliciosa raspadinha de maça verde, apropriadíssima para um dia tão quente.

O Festival termina e vendemos menos da metade das plantas que levamos. D. procura racionalizar ou disfarçar sua frustração. Carregamos a pick up e levamos as plantas de volta pra casa. Quando terminamos de descarregar a caminhonete e levar tudo para o quintal, estou tão cansada que não me animo nem a comer algo. Direto pra cama.