segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 35


19/10/15

Boa noite, Minha Irmã!
Caminhando nas nuvens. Foi assim o dia de ontem. Uma neblina densa cobriu as montanhas por onde caminhei, praticamente o dia todo. Chovia fino e pouco, logo, uma chuva que não incomodou quase nada. A verdade é que essa neblina espessa deu um ar meio mágico à paisagem. Foi um belo dia de caminhada, entre Rabanal e Acebo.
Dormi super bem, com dois cobertores e a casa aquecida. Quase que me faltava coragem para levantar quando o despertador tocou, às sete horas da manhã. Uma pena que eu tenho de preparar a mochila para ser despachada, porque se não fosse isso, dificilmente teria saído da cama antes das nove. Bom, me organizei, tomei café ainda conversei um pouco com o casal mineiro, fiz uma massagem nos pés, numa cadeira de massagens (dois euros) e me despedi da gracinha de Dona Ângela. Caminhei pela rua principal da pequena cidade, ainda fui verificar se a Igreja estava aberta (negativo) e parei num bar quase na saída de Rabanal, para usar o sinal de internet e poder dar notícias para mamãe.
Já peguei a estrada com muita neblina. Só dava para enxergar alguns metros à frente. Segui por uma estradinha de terra cercada de mato. Muitas samambaias e uns arbustos verdes que parecem um tipo de pinheiro em miniatura. As samambaias estavam lindas, amarelas e alaranjadas. Se destacavam muito sobre o fundo branco da névoa. Em alguns pontos, a vegetação se projetava sobre o caminho, deixando a passagem bem estreita. Passei por bosques de pinheiros enredados na névoa branca. Fazia frio, mas estava encantada com o efeito da névoa, e curtindo o perfume gostoso da terra molhada. A caminhada do dia foi quase toda de subida do Monte Irago. Em alguns trechos, dava para ver, por entre a névoa, a silhueta das outras montanhas em volta.
Passei por um vilarejo chamado Foncebadón. Parei no restaurante La Taberna de Gaia, muito recomendado por Marisa e Carlos (do Gaia). A Taberna é um restaurante com ambientação medieval, muito interessante. Ainda era cedo (umas doze e meia) e quase desanimei quando vi a plaquinha que anunciava almoço a parti das 13:30h. Resolvi bater na porta que estava fechada porque vi luzes acesas pela cortina das janelas. O dono, um senhor de barba bem cheia, veio abrir e me convidou para entrar. Estavam começando o expediente. Ainda não estavam prontos para servir refeições, mas podiam me servir uma sopa. Adorei a ideia, porque o dia estava bastante frio. Tomei um delicioso creme de abóbora e um chá digestivo, com um pedacinho de uma deliciosa torta de chocolate com biscoito Maria.
Alimentada e aquecida, retomei a estrada. Dois quilômetros depois, cheguei ao ponto mais alto do Monte Irago, onde fica a Cruz de Ferro. Trata-se de uma coluna bem alta, com uma cruz de ferro na ponta. A coluna de madeira se assenta sobre um monte de pedras. Acho que milhares de pedrinhas, fitas, fotografias, conchas e outros objetos deixados pelos peregrinos se amontoam em torno da coluna, ou ficam amarrados nela. Originalmente, os peregrinos colocavam ali sua pedrinha para que fossem protegidos de todos os perigos até chegaram a Santiago. Atualmente, a crença é de que ao depositar uma pedra aos pés da cruz, o peregrino está deixando ali todos os pesos que carrega na alma. Depositei uma vieira pequenininha, que vinha trazendo amarrada à minha mochilinha, em agradecimento pela graça que sei que alcançarei. Ao lado da Cruz há uma Ermida, mas estava fechada. 
Continuei caminhando em meio à névoa, enxergando cada vez menos o caminho à minha frente. Ouvi sinos de vacas, ou outro animal, que eu não conseguia ver. Até que cheguei a Manjarin, povoado de um só habitante. Para ser sincera, nem devia constar no mapa como se fosse um povoado. Tudo que existe em Manjarin é um refúgio, uma velha e meio destruída casa de pedra, onde vive um sujeito que pertence a uma “Ordem” contemporânea de Templários (pelo que eu pude perceber, não há nenhuma conexão histórica direta com a Ordem dos Templários, a não ser a vontade de resgatar essa tradição). O refúgio é um grande bricolage de objetos, bandeiras, santinhos, imagens, referências aos Templários. Sobre uma mesa, duas garrafas térmicas, com café e água quente (supostamente). O peregrino pode se servir e deixar um donativo. Meio receosa, porque as garrafas pareciam tão velhas como os castelos templários, me servi de um pouco de café, pra não fazer desfeita ao rapaz que me recebeu.
Na saída desse refúgio, encontrei com um senhor que vinha chegando para recolher sua mochila. Pensava que ali era um albergue. Eu não disse nada, mas fiquei pensando que ele teria uma surpresa pouco agradável. Aquele refúgio não tinha a menor condição de hospedar um peregrino. As condições do lugar eram bem precárias.
Continuei minha caminhada por entre a névoa, os arbustos, as samambaias, os pinheiros verdinhos e algumas árvores coloridas de amarelo. Em alguns trechos eu via a silhueta das montanhas bem à minha frente, com a névoa cobrindo-as parcialmente. A sensação era de que eu estava andando em direção ao céu. Tão bonito. Como te disse, estava tão encantada com o cenário, que nem liguei muito pro frio ou pra chuvinha fina. Essa chuvinha fina não me incomoda. O único problema é que a capa impermeável esquenta por dentro e acaba que o calor condensa o ar dentro da capa. Então a roupa termina ficando um pouco molhada, não pela chuva, mas pelo abafado. Já escolada, ponho meu computador e papéis dentro de um saco plástico, dentro da mochila, que fica molhada por fora.
Após uma curva da estrada, avistei, um pouco abaixo, encravado nas montanhas, o povoado de Acebo, onde deveria passar a noite. Nessa altura, o senhor da mochila me alcançou. Quando viu as condições do refúgio templário, resolveu seguir até Acebo. Ele é canadense e falava pelos cotovelos. Foi conversando (bem dizer um monólogo, porque eu basicamente só concordava com o que ele dizia) até chegarmos ao albergue. Tivemos uma descida bem acentuada pela frente, numa estradinha de terra e pedras soltas. Caminhei com cuidado e lentamente.
Acebo é um povoado de nada, com suas casinhas de pedra. No final, após as últimas casas, tem um hotel La Casa del Peregrino, que é também albergue. É um lugar organizadíssimo, novo, limpo, super estruturado. São instalações de um bom hotel, na realidade. Um verdadeiro luxo considerando-se os albergues do Caminho. Dormi no quarto com o canadense, uma coreana e uma jovem alemã. Dormi muitíssimo bem, com dois cobertores, numa cama bem confortável. De novo, nem queria acordar. Esse hotel, assim como o albergue de Dona Ângela, tem um horário bem flexível, coisa que eu adoro, por não me obrigar a acordar às seis da matina e estar na rua às oito.
Tomei um lauto café da manhã. Foram os quatro euros mais bem pagos de todo o Caminho. Durante o café fiquei conversando com um rapaz alemão que fez um pouco como eu. Largou o emprego, vendeu o carro e os móveis e vai passar dois anos viajando pelo mundo. Ele começou fazendo o Caminho de Santiago e depois quer ir para a Patagônia. História semelhante à de muitos peregrinos que eu tenho encontrado: excesso de trabalho, muita correria e necessidade de resetar a própria vida, de modo a se reencontrar e encontrar um estilo de vida que traga maior satisfação e alegria. Só que no caso dele percebi nas entrelinhas que o gatilho foi o rompimento de uma relação amorosa.
Fui a última peregrina a deixar La Casa del Peregrino. Havia chovido muito durante a noite e estava tudo molhado. Quando comecei a andar, caía uma chuva um pouco mais forte que a de ontem, mas ainda assim era uma chuva suave. A neblina continuava cobrindo as montanhas. Só que foi descida praticamente o dia todo! E descida em meio a pedras lisas e pontiagudas. Andei com o máximo cuidado, e bem lentamente, porque nem queria cair, nem forçar meus joelhos. Cosme e Damião foram imprescindíveis hoje! Não sei o que seria de mim sem eles.
Poucos quilômetros depois de Acebo cheguei a uma gracinha de vilarejo, chamado Riego de Ambrós. Algumas casinhas de pedra, outras de alvenaria com lindas varandas de madeira, que me lembraram as casas mais antigas de Nova Orleans, justamente de influência espanhola. Aliás, pensando bem, elas lembram a varanda do Mourisco de Olinda. Na saída de Riego de Ambrós devo ter me distraído, e pela primeira vez desde que comecei o Caminho perdi a orientação das flechinhas amarelas. Em lugar de retomar a estradinha de terra e pedra que deveria seguir pelo meio do mato, segui andando junto de uma estrada de asfalto. Quando comecei a sentir falta das flechas já estava a uma certa distância do vilarejo. Ainda pensei em voltar, porém, a essa altura a chuva começou a engrossar e como a estrada descia, estava certa de que a direção estava correta. Resolvi seguir pelo acostamento. A estrada tinha pouco movimento e era até bonita, toda ladeada por castanheiras. As castanheiras (da castanha portuguesa, creio eu), são árvores frondosas e estão dando fruto agora. A castanha nasce dentro de uma casca que parece um ouriço. A casca se abre e as castanhas caem pelo chão. O acostamento estava cheio de ouriços e castanhas. Um desperdício. Em certa altura vi um senhorzinho com um balde, catando as castanhas da beira da estrada.
Não andei muito pela beira da estrada, porque em certo ponto o Caminho cruzava a estrada de asfalto e pude, então, retomar as minhas flechinhas. A essa altura, é estranho caminhar sem a companhia delas. Voltei a andar pela estradinha estreita e pedregosa, em meio ao mato. A caminhada é mais difícil, porém, muito mais agradável. A descida até a cidadezinha de Molinaseca foi a parte mais delicada da caminhada de hoje. O terreno era muito íngreme e muito pedregoso! Fui realmente devagar. Todos os peregrinos passavam por mim, e eu, no meu passinho de formiga. Devagar e sempre, pois quero chegar a Santiago e quero chegar bem.
Molinaseca também é um amor de vilarejo. Maiorzinha e mais viva do que Riego de Ambrós, tem uma bela ponte de pedra, cruzando o rio que banha a cidade. Mais casinhas avarandadas, super charmosas. Entrei numa bodeguinha para descansar um pouco, verificar o mapa e usar o banheiro. Conheci três rapazes espanhóis que tinham passado por mim na descida até Molinaseca. Uma simpatia. A dona da bodega era extremamente amável e se percebia sua grande simpatia pelos peregrinos. Saí de Molinaseca debaixo de forte chuva. Minhas meias, que até então estavam aguentando firmes, começaram a ficar molhadas. O Caminho seguiu junto à rodovia, mas a dada altura desviava para a esquerda para chegar a Ponferrada pelo Oeste. No entanto, meu albergue ficava no lado Leste de Ponferrada. Como chovia muito e eu estava ficando com os pés encharcados, decidi seguir acompanhando o asfalto. A distância era praticamente a mesma, só que eu chegaria à cidade mais perto do meu destino final. E assim fui. Bem sem gracinha esse trecho entre Molinaseca e Ponferrada por essa estrada vicinal, mas, paciência. Só casas e asfalto. Molinaseca me pareceu ser quase um subúrbio de Ponferrada, que é uma cidade bem grande, com quase setenta mil habitantes.
Cheguei a Ponferrada mais aborrecida com a chuva, o frio e os pés encharcados do que propriamente cansada. Estou enfaixando meu pé direito bem direitinho e por cima da faixa coloco uma tornozeleira. Hoje ele aguentou bem o tranco. Ainda está dolorido, mas o inchaço é leve e está sob controle. Não vem aumentando. A bolha do calcanhar secou inteiramente. Na realidade, uns quatro dias atrás vi que tinha formado uma bolha dentro da bolha. Aí resolvi tirar a pele. Cortei com o alicate e protegi bem antes de caminhar, nos últimos dias. Hoje ela amanheceu bem sequinha.
Bom, ainda não vi nada de Ponferrada. Tem um Castelo dos Templários, que eu quero muito visitar, mas chovia tanto quando eu cheguei, que eu só quis saber de tomar banho e ficar no quentinho e no seco. Não tive mais coragem de pôr o pé na rua. Custei a achar meu albergue dessa vez. Pedi orientação num posto de gasolina e me mandaram pra outro albergue. Rodei um pouco, mas afinal encontrei o rumo. É um albergue muito bonzinho, familiar. Chama-se Alea. Conheci um brasileiro aqui, Rafael, do Espírito Santo. Creio que vá dormir bem. Só tem mais duas pessoas no meu quarto, e estou na cama debaixo. Tem várias cobertas aqui.
Nica, acredita que eu já andei 573 kms???!!! Só me faltam 207 kms para chegar a Santiago! Um dia desses papai me perguntou pela quilometragem, e eu tinha feito pouco mais de duzentos. Deus me permita chegar ao final direitinho! Amanhã pretendo ir até Pieros. A cidade não tem nada, mas Mincho me recomendou um albergue bem legal, com massagem, meditação. Se for mesmo legal, vou ficar dois dias, para dar um descanso ao pé. É isso, Minha Irmã. Vou comer uma coisinha leve agora e verei se me deito mais cedo hoje.
Muuuuuitas saudades!
Beijos no coração,

Léia 

domingo, 18 de outubro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 34


17/10/15

Niquinha, Querida,
Acordei cedinho como costuma acontecer nesses albergues grandes, com muita gente e hora marcada pra evacuar o lugar! No café da manhã, conheci mais duas brasileiras, mãe e filha. São do Sul e já fizeram o Caminho várias vezes. Estavam falando sobre um encontro de brasileiros que aconteceria ontem mesmo, no final do dia, em Astorga. Eles deveriam se encontrar e caminhar juntos até uma cidadezinha próxima, onde mataram a moça americana, para fazer uma homenagem a ela. Me convidaram para ficar e participar do encontro. Mas já parei demais nos últimos dias e acho que devo guardar os dias extra para alguma necessidade ou por alguma razão muito especial. Meu limite para chegar a Santiago é dia 6, porque Dani chega a Madri dia 7 de novembro e devo encontrá-la por lá. Vamos viajar pela Andaluzia, que eu sonho em conhecer. Estou muito feliz com a vinda dela.
Em todo caso, meu coração não me pediu pra ficar em Astorga. Renata e o marido (o casal mineiro) também chegaram ao refeitório para tomar café, e ficamos conversando animadamente na cozinha do albergue, até a hora do toque de partir. Eu comi pouca coisa na cozinha do albergue porque estava de olho num chocolate quente de uma pastelería próxima. Pelo que percebi, Astorga tem uma tradição de chocolate. Até comprei uma barra de uma chocolatería local (chocolate negro com casca de laranja caramelizada), muito gostosa. Tomei meu chocolate quente e peguei a estrada.
Comecei a andar numa manhã fria e nublada. Aos poucos o céu foi abrindo e à tarde chegou a fazer um pouco de calor. Caminhei a maior parte do tempo por uma picada paralela a uma estrada vicinal, com pouco movimento de carros. Apesar de termos começado a subir, a paisagem não teve maiores atrativos até passarmos pelos dois primeiros povoados (Murias de Rechivaldo e Santa Catalina de Somoza). Ladeando a picada, apenas arbustos e vegetação rasteira. Ao longe, de vez em quando, se avistavam os picos da cadeia montanhosa que comecei a atravessar. Nos vilarejos, a feição das casinhas mudou. São quase todas de uma pedra pesada e angulosa. Telhados também de pedra.
No vilarejo de El Ganso parei num mercadinho super simpático. Mercadinho e pousada que pertencem a um casal. Quando entrei na pousada (procurando o mercado) tocava uma versão linda da Ave Maria de Gounot, e um incenso queimava sobre a mesa. No mercadinho tocava uma versão instrumental de uma música que eu adoro (Então minha alma canta a ti Senhor, quão grande és Tu, quão grande és Tu...). O mercadinho era super organizado e a dona uma gracinha. Se eu não tivesse mandado minha mochila pradiante, acho que teria me abancado por ali. Comprei uma paella pronta, que a senhora esquentou pra mim no micro-ondas, comprei tomate, fiz uma saladinha no prato que ela me emprestou e comi na varanda da pousada. Como estava andando muito lentamente, sabia que chegaria ao meu destino mais tarde que o habitual, e estava com fome.
O último trecho da caminhada foi bem bonito. A linha das montanhas foi ficando mais próxima, e passei a caminhar primeiro à beira de um bosque de pinheiros, e depois, em meio a um bosque com árvores coloridas de amarelo e laranja. Do lado direito, uma extensa cerca de arame estava repleta de cruzes de madeira -- deixadas pelos peregrinos--, de todos os tamanhos e jeitos, várias delas enroladas em fitas coloridas. A estradinha pelo meio do bosque era uma suave subida. A essa altura o tempo estava bem nublado e a luz do sol furava as nuvens, aqui e ali, iluminando as montanhas. Pouco depois do fim do bosque com as cruzes cheguei, finalmente, ao meu destino, Rabanal del Camino.
A verdade é que caminhei muito lentamente por causa da tendinite (a boa notícia é que a bolha do calcanhar está praticamente curada). Meu ritmo caiu consideravelmente. Levei o dia inteiro para fazer 21 kms. E cheguei bem cansada. Ainda bem que o albergue era bem na entrada. Dona Ângela, a proprietária, é uma gracinha de pessoa! Um doce de senhorinha. Me recebeu super bem e me instalou no mesmo quarto do casal mineiro! Uma das melhores coisas dos albergues privados é que eles são bem mais pessoas e aconchegantes. Instalei-me, tomei meu banho e andei poucos metros até um mercadinho, só pra comprar comida. No caminho, entrei na Ermida de São José, que tem um belo retábulo barroco no altar, e fiz uma oração. Mas não tinha condições de andar mais nada. Voltei pro albergue e fiz meu lanche no refeitório, que tinha uma deliciosa lareira. O albergue estava com o aquecimento ligado! Uma felicidade pra mim. Após comer, me instalei com o computador numa das mesas e estava refazendo minha programação de chegada a Santiago (pensando em trechos um pouco mais curtos, pra ver se eu mantenho a tendinite sob controle), quando chegou Moïse, um rapaz da Costa do Marfim, que é professor universitário na França. Ele mora em Toulouse. Ficamos um tempão conversando. Depois dele chegou Henrique, o paranaense, que mora há muitos anos em Rondônia. Também passei horas conversando com Henrique. Ambos estão fazendo o Caminho pela necessidade de repensarem a própria vida. No fundo, desejam fazer o processo de reset do próprio modo de vida, dos hábitos, das prioridades. Tivemos boas conversas e eu partilhei com eles minhas descobertas no meu processo de reset.
Disse aos dois aquilo que já escrevi para você: que o coração sabe todas as respostas; ele sempre sabe o que devemos fazer para vivermos em paz e sermos felizes; o problema é que a mente vem e traz os medos, os traumas, as convenções sociais, e aí o que era para ser simples fica complicado. Moïse está caminhando 45 kms por dia! Ou seja, ele está reproduzindo no Caminho o comportamento condicionado que faz com que sua rotina seja incessante, corrida, estressante, e sempre muito planejada. Estava tentando mostrar a ele que o exercício de abrir mão do controle é extremamente salutar. Ele me dizia que é muito difícil abrir mão do controle, do planejamento, das metas. Eu sei que é, mas, se a gente não tentar fazer diferente, é impossível quebrar o círculo vicioso (da própria mente). A questão é que o planejamento e a rotina nos dão uma falsa sensação de segurança, da qual é difícil desapegar. Moïse riu muito comigo e me prometeu que iria tentar. Acho que consegui lançar uma semente o espírito dele. Tomara que frutifique. Troquei contatos com ele e com Henrique. Moïse me convidou para ir a Toulouse e à Costa do Marfim.
Bom, o dia foi comprido e cansativo. Mas é assim mesmo. Tento viver um dia de cada vez. O Caminho está realmente desafiando minha paciência, ou, melhor dizendo, me obrigando a exercitá-la. Paciência e entrega. Pois, como diz Mincho, a gente só pode ter certeza do presente. O resto, é como Deus quiser. Mais um dia vencido. Agora, só peço que amanhã eu consiga chegar ao meu destino.
Beijo no coração,

Léia 

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 33


16/10/15

Nica, Querida!
Deixei Hospital de Órbigo para trás com muita dó. Incrível como o Albergue Verde é acolhedor e convidativo. Após meu lauto café da manhã, com direito a figos frescos, colhidos de uma figueira ao pé da casa, tomei meu rumo. A manhã estava geladíssima. Devia fazer uns dois graus. E olhe que já eram dez da manhã quando cruzei o portão cercado de hera. Entre Hospital de Órbigo e Villares de Órbigo (Órbigo é o nome de um rio que cruza a região), caminhei por uma estradinha de terra, junto a um enorme milharal. Estava eu caminhando ali, sozinha, quando vi um senhorzinho pequenino, de cabeça branca, que vinha numa bicicleta. Ele parou para dar alguma informação a um carro que passava, e quando eu me aproximei, ele me estendeu um lírio do campo, amarelo, recém colhido, e me desejou Buen Camino. Fiquei tão surpresa quanto feliz com aquele gesto.
Segui adiante mais animada. Passei por um bonito bosque de altas árvores bem à entrada de Villares, cruzei o vilarejo de uma única rua sem deter-me e continuei a caminhada por uma estradinha de terra branca. Pelos lados, apenas mato. Na verdade, uma vegetação rasteira, com arbustos e árvores salpicados. A grama ainda estava coberta pelo orvalho da manhã e refletia a luz do sol, como se fosse um espelho. Lindo demais. Ao longe, algumas árvores inteiramente amarelas pelo outono, davam um colorido especial à paisagem. À medida que o dia foi avançando, o azul do céu foi ficando mais intenso, e os contrastes com o colorido da vegetação, mais bonitos. Comecei uma subida íngreme, e olhando para trás podia ver, no vale embaixo, os contornos de Hospital de Órbigos.
Cruzei um outro pequeno povoado (Santibanez de Valdeiglesia), e logo depois me deparei com um canteiro de obras. Estradas estão sendo abertas e passei a caminhar em meio à terra vermelha, rasgada pelas máquinas. Subi colinas, cruzei bosques, andei por estradinhas ora nuas de vegetação, ora ladeadas por bosques coloridos de verde e amarelo, até que cheguei numa espécie de descampado. Ao longe avistei o que parecia ser uma barraquinha de comida. Quando me aproximei, vi pessoas sentadas num banquinho ao pé do muro, debaixo de uma coberta de madeira, duas rapazes se divertiam com um bambolê, e outras pessoas comiam, junto de um carrinho cheio de sucos, frutas, biscoitos. Por trás de um pequeno muro, havia um grande pátio, com um sol desenhado com pedras no chão. Nas pontas dos raios de sol, videiras ainda novinhas. Ao final do pátio, ruínas de uma casa. O lugar se chama Casa de Los Dioses. David e Susi, um espanhol e uma australiana, moram nessas ruínas e recebem os peregrinos com esses quitutes. Tudo de graça. Uma caixinha de doações fica ao lado do carrinho. Assim como Mincho, ouvi Davi dizendo a um peregrino que lhe perguntava quanto custavam as coisas, que havia a caixinha de doações, mas que só colocassem ali qualquer coisa, se fosse de todo o coração, que o importante para eles é a boa energia do Amor. Além do carrinho de comidas, ele e Susi estavam assando legumes e biscoitos, num forno à lenha que construíram dentro da casa.
Eu entrei no pátio e fiquei sentada, contemplando o sol de pedra e sentindo a energia desse lugar tão especial. Não consigo deixar de me comover com a entrega e a doação de pessoas como Mincho, Susi, David, o senhor do Hospital de Almas.... é lindo demais como essas pessoas abrem suas vidas, suas casas, seus corações para acolher quem passa pelo Caminho. Depois de ficar um bom tempo sentadinha na murada, contemplando e orando, me dirigi até a casa e fiquei conversando com Susi e com uma outra moça, americana, creio. Susi nos contava como chegou até ali, como passou três meses no Hospital de Almas e ajudou a redecorar o pátio dos fundos (o que são as coincidências do mundo), e como a simplicidade é desafiadora. Imagino mesmo! Além do fogão de lenha, nas ruínas onde eles moram, há alguns armários e uns colchões no chão. Eles pegam água do rio, lenha no bosque, e vivem assim, com o que Deus dá. De uma coragem absurda! Me comovi profundamente com Susi. E uma das coisas que ela disse que mais me chamaram a atenção foi que ali, longe de tudo e vivendo na mais absoluta simplicidade, a pessoa não tem outra alternativa a não ser se confrontar com ela mesma. A pessoa não tem nada como desculpa e se dá conta de que todo sofrimento e frustração se origina dentro de si mesmo.
Comi meia romã, provei dos legumes assados, dos biscoitos, saboreei uma geléia de tomate bem gostosa e tomei um suco de pera (orgânico). Ao lado da barraquinha conheci um casal de mineiros super simpáticos, e um paranaense. Devo ter ficado mais de uma hora na Casa de Los Dioses. Também parti com vontade de ficar. Não sei se foi a boa energia do lugar, mas o fato é que quase não senti a distância percorrida ao longo do dia, mesmo com o calcanhar doendo um pouco (não lembro se te falei que o osteopata, Gael, que fez a massagem no meu pé, me confirmou que tô com uma tendinite no tendão de Aquiles).
Pouco depois da Casa de Los Dioses, cheguei ao alto de uma colina, onde há um cruzeiro, e avistei Astorga lá embaixo, no vale. E lá ao fundo as montanhas que em breve terei de cruzar. Comecei a descer a colina e logo cheguei à cidadezinha de San Justo de la Veja, quase uma adjacência de Astorga. Atravessei a rua principal, passei por uma ponte e segui caminhando na calçada, junto à rodovia. À minha frente avistei uma figura curiosíssima. Um senhor, grisalho, arrastava uma enorme cruz feita com troncos de madeira, pintada de preto, com tiras de pano amarradas, uma bandeira da Espanha na ponta, e vários cartazes pendurados num fio que acompanhava  toda a extensão da cruz, como se fosse um varal. Acompanhava-o um cão. Ele parou para descansar e o alcancei.Quando estava passando por ele, o sujeito puxou conversa comigo. Tinha barba e estava todo sujo de preto, como se uma fuligem o cobrisse. A roupa estava imunda e ele usava um boné. Começou a falar sobre a crise na Espanha, sobre as dificuldades enfrentadas pelos mais pobres e sobre a destruição do planeta.
O primeiro dos cartazes tinha um de desenho cheio de simbologias, dentre elas a da Terra como uma teta – que estamos sugando, sugando e sugando, sem cuidar dela. Não li o que havia nos cartazes porque eram muitos. Um longo texto de protesto contra muitas coisas, a julgar pelo discurso dele. Havia um apelo qualquer ao Papa Francisco. E ele falou muito das eleições que devem acontecer na Espanha no final do ano. Ao final, entendi que tudo era motivado pela perda de sua mãe, que teria falecido sem receber a adequada atenção médica. Me contou isso muito emocionado e me disse que chegou a fazer protestos à porta de algumas autoridades. Fiquei muito sentida por ele, até porque sei exatamente do que ele estava falando. Não tive coragem de dizer-lhe o quanto isso ainda é corriqueiro no Brasil.  
Já cheguei a Astorga depois das cinco da tarde. Registrei-me no albergue Siervas de Maria, de uma Associação dos Amigos do Caminho, tomei meu banho e saí para dar uma volta pela cidade e comprar algo para comer. Consegui visitar a Catedral, mas não deu para visitar o Palácio Episcopal, que é projeto de Gaudí. Só pude vê-lo por fora. Honestamente, espero que Gaudí tenha gastado todo o seu talento em Barcelona, porque os dois edifícios de autoria dele que eu vi até aqui, pelo menos por fora não têm absolutamente nada demais. Me pareceram uns arremedos de construções medievais, honestamente.
Com relação a Astorga também devo dizer que achei muito sem gracinha. Até mesmo a Catedral, depois que a pessoa viu Burgos e León, não tem quase apelo. O que mais gostei de Astorga foi um jardim público junto à antiga muralha da cidade, e um sítio arqueológico com ruínas de uma casa romana. Isso eu adorei! Tem, inclusive, um belo mosaico do século II D.C. Também achei legal o movimento da Plaza Mayor, que ao anoitecer ficou cheia de crianças brincando, gente conversando, senhorzinhos e senhorinhas passeando. Adorei essa sensação de vida e movimento da população local, num espaço público, que é muito rara na maior parte das cidades atravessadas pelo Caminho.
Comprei tomates e atum num mercadinho e voltei pro albergue para comer. Reencontrei os brasileiros que havia conhecido à tarde (os mineiros e o paranaense). Estavam todos no mesmo albergue que eu. Astorga não tem muitas opções de albergue. Por sorte, escolhi certo, porque caminhando pela rua, encontrei Nicolás (aquele espanhol que com quem fui ver a Catedral de León à noite) e ele estava furioso com o albergue dele, dizendo que era uma fraude. Estava quase a ponto de chamar a Guardia Civil para interditá-lo. Quando cheguei na cozinha para preparar minha salada, reencontrei Nicolás, que havia sido convidado para jantar no meu albergue com um enorme grupo de peregrinos. Eles tomavam toda a comprida mesa do refeitório (comedor) e faziam uma grande algazarra. Um rapaz muito gentil me cedeu seu lugar para que eu pudesse comer sentada.
Durante o jantar conheci Pilar, uma jovem das Canárias, muito, muito doce. Ela é professora de Yoga e, como muitos peregrinos, está querendo produzir mudanças expressivas no seu modo de vida. Não sei porquê, mas enquanto ela falava, me veio a ideia de que eu deveria lhe dar o contato do Albergue Verde. Senti que conhecer Mincho seria bom para ela. Subi ao meu quarto, peguei o cartão, chamei-a num canto e transmiti a ela minha intuição. Pilar ficou muito feliz e agradecida.
A noite estava muito fria. Pedi um cobertor ao hospitalero e decidi me recolher ao quarto. Com todos os albergues municipais e de associações, o Siervas de Maria tem hora de dormir, de acordar e de ir embora. É uma das coisas que me faz preferir sempre ficar nos albergues particulares, quando tenho essa opção. Não foi o caso de Astorga, que, aliás, não me deixará saudades.
Por ora é só.
Beijos mil, Minha Irmã!
Léia  

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 32


15/10/15

Boa tarde, Niquinha!
Te escrevo de um lugar mágico: o Albergue Verde. Estou sentada num balanço, em meio a um gramado, com várias árvores de frutas ao redor, redes penduradas, mesinhas, cadeiras e espriguiçadeiras. Reina uma paz grande e escuto um galo que canta de vez em quando. O dono do albergue, Mincho, é uma pessoa muito especial. Todos os anos ele passa os invernos na Índia. É um mestre de Yoga e pelo jeito de falar, compartilha da visão de mundo Zen. A casinha onde está instalado o albergue, que vejo por entre as folhagens das árvores, era um antigo galpão da fazenda de seu pai. Há cinco anos ele reformou tudo e abriu esse albergue. Cheguei aqui ontem, e fiquei tão encantada, que resolvi ficar mais um dia. Para repousar o pé e o cuidar do espírito, mais uma vez. Daqui a pouco farei uma sessão de massagem com um osteopata, que está trabalhando voluntariamente como hospitalero aqui no Albergue Verde. E às seis da tarde farei minha segunda aula de Yoga. Fico tão agradecida por ter tempo e condições de desfrutar dessas pérolas do Caminho!
Mas deixa eu voltar um pouquinho ao dia de ontem e te contar como cheguei aqui. Dormi mal no Refugio de Jesus por causa do frio. Acordei no meio da noite, sentindo frio, me levantei e vesti mais camadas de roupa. Ainda bem que comprei mais umas duas peças mais quentinhas num bazar chinês de León. O problema é que depois, mesmo aquecida, não consegui mais pegar no sono. Tirei uns cochilos, até umas seis e meia, me levantei e comecei a me organizar, ainda no escuro, recorrendo à minha providencial lanterninha de cabeça. Tomei meu café e saí já com o dia claro.
Caminhei, a princípio, no acostamento de uma estradinha vicinal, pouquíssimo movimentada. Ainda que não seja tão aprazível caminhar no asfalto, pelo menos o entorno era bem tranquilo. Pude andar ouvindo os pássaros e apreciando o contraste entre o céu de um azul intenso e o amarelo das folhas das árvores à beira da estrada. Fui meditando e rezando, como muito me agrada fazer pelas manhãs. A distância que eu tinha a percorrer ontem era curta, então fui devagar e tranquila. Em certo ponto, acabou o asfalto e o Caminho seguiu por uma estradinha de terra batida, avermelhada, sempre com muitos seixos. Na entrada do pequeno povoado de Villavante, um rapaz se aproximou de mim e começamos a conversar. Ele é francês. Tinha uns olhos lindos, de um azul  profundo, desses que parece que você vai mergulhar neles se ficar olhando por muito tempo.
Laurent fazia parte da galera barulhenta da véspera, no Refugio de Jesus. Seus companheiros o estavam esperando num barzinho bem no início de Villavante. Eles me convidaram para sentar com eles. Era um grupo bem diverso, dois holandeses, um americano, uma alemã e Laurent. Estavam caminhando juntos há alguns dias. Após os protocolos iniciais de apresentação que já te descrevi, a conversa enveredou para histórias de amor do Caminho. Um dos rapazes estava contando que um viúvo e uma viúva do Canadá, que haviam estudado na mesma escola quando adolescentes, se reencontraram no Caminho, quando voltaram ao Canadá engataram um namoro, e decidiram abrir um albergue numa casa que estava a venda, em frente à qual um companheiro de Caminho lhes havia tirado uma foto no dia do reencontro. E aqui estão eles, levando esse albergue e vivendo em função do Caminho. Uma graça de história, né?
Terminado o lanche, partimos. O grupo logo se distanciou de mim, pois, como lhe disse, estava caminhando devagar para poupar o pé. E assim fui caminhando pelo meio de extensos milharais, com as folhagens já meio secas. Imagino que estejam prontos para a colheita. E tome milharal!
Após cruzar uma rodovia de tráfego intenso, cheguei a Puente, um pequeno apêndice de Hospital de Órbigo, que fica logo adiante. Órbigo tem uma enorme ponte com arcos de pedra. Diz que é uma ponte medieval, porém, a impressão é de que dos tempos medievais devem restar uma que outra pedra, e muitas lendas. A ponte está toda reformada. Nem por isso deixa de ser bonita. Apesar do que, o trecho que passa por cima do rio é bem pequeno (e o que tem cara de mais antigo mesmo). É a segunda pont que vejo que se estende generosamente em solo seco. Isso me deixou curiosa. Vou ver se ainda encontro alguém que me explique a razão de tanta ponte pra tão pouco rio.
Atravessei a Ponte do Passo Honroso, sobre o rio Órbigo e logo avistei a torre da Igrejinha (igualmente descaracterizada), que estava fechada. Uma das lendas dessa ponte é que um nobre cavaleiro, apaixonadíssimo, para conquistar a atenção e a admiração da amada, convocou um torneio, ao qual aocrreram bravos de toda a Europa, enfrentou e derrotou mais de duzentos. Daí o apodo da ponte Passo Honroso. A façanha, ao menos, deu resultado. Ele conseguiu se casar com a amada.
Órbigo é uma cidade sem grandes atrativos. São raras as casas de traços mais antigos. Fui seguindo as indicações de placas e cheguei ao Albergue Verde, que tinha sido mutíssimo recomendado por Marisa e Carlos (do Gaia). Eles falaram tanto desse lugar que resolvi encurtar a caminhada do dia pra poder ficar aqui. Como ele fica meio fora do centro, fui andando e pensando, espero que seja realmente um lugar especial... A fachada prometia. A parede da casa está completamente coberta de hera, um portãozinho simpático, com o nome do albergue acima, esculpido em uma placa de ferro.
Na chegada, a primeira diferença. A moça que me recebeu, uma húngara chamada Elga, me instalou na minha cama e me disse que eu tomasse banho tranquila e quando estivesse devidamente relaxada, retornasse à recepção para fazer o trâmite de apresentar passaporte, carimbar a credencial e pagar! Assim eu fiz, já encantada com o lugar. Tocava uma música ambiente bem suave, e pude sentir o perfume do incenso recém apagado. Na sala, ao lado da mesa de refeições, um ambiente com almofadas e tapetes no chão, de estilo indiano. O dono, Mincho, estava sentadinho numa cadeira e me deu logo as boas vindas. É um sujeito de cabelos compridos e barba, de olhar doce e sorriso acolhedor, aberto, genuíno.
Fiz um pequeno lanche no jardim, esperando a ceia comunitária que haveria à noite. Escrevi um pouco e às dezoito horas fui para a classe de Yoga, que é gratuita. Foi maravilhosa! Já tinha feito algumas aulas de Yoga em diferentes ocasiões (inclusive na fazenda Hare Krishna), e essa foi, sem dúvida, a melhor de todas. Foi uma hora e meia de relaxamento para o corpo, a mente e o espírito. Terminei a aula com uma sensação de leveza e um profundo sentimento de gratidão pelo presente que estava recebendo por meio desse albergue e das pessoas que aqui estão. Quem deu a aula foi Elga. Engraçado porque Elga, apesar de ter me recebido muito bem, parece uma pessoa fechada, e não muito calorosa. Me surpreendeu como sua aula foi boa.
Depois da aula, subimos para a ceia. Outro presente! Antes de começarmos a comer, Mincho pegou o violão e cantou duas músicas de agradecimento pela comida. Mincho fez uma paella vegetariana, com abobrinha, pimentões, berinjela e couve-flor simplesmente divina! E tudo fresquinho, colhido da horta orgânica que ele tem num terreno ao lado do jardim de onde eu te escrevo. Também comemos uma salada incrível e bela, com romã e pétalas de flores. Ah! Ainda tinha um húmus caseiro e umas sementes tostadas cujo nome esqueci. De sobremesa, um bolo de chocolate integral, cujo perfume eu havia sentido à tarde, enquanto cozinhava. Comemos à vontade, e todos os peregrinos estavam maravilhados, comentando que aquela tinha sido a melhor refeição do Caminho, até então.
Enquanto tomávamos infusões digestivas, muito bem-vindas após tanta comida, Mincho falou um pouco sobre meditação, sobre a importância de controlarmos a mente, de modo a dirigirmos nossa atenção à fruição de todas as coisas que estão ao nosso redor, para nosso deleite, do canto dos pássaros, ao sabor do bolo da sobremesa. Sempre que conseguimos “calar” a mente e nos rendermos às nossas sensações no momento presente, estamos meditando, disse ele. Eu tenho descoberto esse prazer de viver no presente por meio da meditação. Ainda estou longe do ponto ideal de viver no presente a todo instante, mas meditar tem me ajudado a estar mais atenta ao que se passa comigo, a como me relaciono com o mundo ao meu redor. Agora há pouco, enquanto escrevia uma carta de perdão no meu caderninho, uma abelha tentava pousar na caneta. Parei a mão e fiquei olhando para ela. Pude sentir a sensação causada pelo bater das suas levíssimas asas na minha mão.
Pode parecer banal essa ideia de viver no Aqui e no Agora, porém, é um desafio, porque a mente da gente está sempre nos projetando para o passado  (com frequência lamentando algo que já passou e que “perdemos”) ou para o futuro (onde ela nos faz acreditar que estão nossas promessas de felicidade). Quando a gente consegue driblar a mente e estar simplesmente PRESENTE, no momento que estamos vivendo, é como se a gente estivesse usando uma lente de aumento, que nos permite experimentar todo tipo de sensação com maior intensidade. E também fica bem mais fácil a gente se libertar das preocupações, porque elas sempre estão relacionadas com o futuro. É claro que a ideia é tentar se concentrar nas coisas boas do presente, e aí o sentimento de gratidão é a ferramenta mais poderosa, pra nos ajudar a alcançar um estado de paz e de leveza. Enfim, é um exercício nada fácil. Estou tentando progredir nessa direção. Dá mais leveza.
Voltando a Mincho, ele explicou ainda que o café da manhã estaria disposto na mesa na manhã seguinte, que nos servíssemos à vontade, e que não havia hora para acordar! Outra coisa maravilhosa! Toda a comida é oferecida em troca de qualquer doação. E ele enfatizou, mostrando a cestinha de doações: Por favor, só coloquem aqui o que vocês puderem dar com o coração. Eu quero abrir isso amanhã e sentir o amor de vocês. É nele que eu estou interessado.
Após o jantar, os peregrinos foram se recolhendo, e eu fiquei conversando com Mincho, que é realmente uma pessoa incrível. Ele manda abraços para você e todos lá em casa.
.......
Niquinha, interrompi a carta para a minha sessão de massagem. Foi tão boa! Deu um alívio grande na coluna e pude sentir o relaxamento da musculatura do pé também. Espero sentir diferença quando caminhar amanhã. A massagem também funciona por doação. Sempre me surpreendo e me encanto com essas pessoas que tão generosamente se doam aos peregrinos! Como eu já te disse, para mim é a maneira mais intensa de sentir o Amor de Deus.
Também fiz a aula de Yoga. Hoje quem a deu foi Mincho. Foi uma sessão bem diferente, mas igualmente linda. E bem leve, para iniciantes. As duas aulas foram muito distintas do que eu conhecia como Yoga. Estou encantada. Decidida a incorporar Yoga à minha rotina quando voltar ao Brasil. Dá uma sensação de leveza tão boa quando termina a sessão!
Hoje, morreu a cadelinha de MIncho. Ela estava muito doentinha e ele chamou o veterinário, para pôr um fim ao sofrimento dela. Ele estava muito triste, e se emocionou ao final da aula de Yoga. Mas sabe que mesmo triste, ele foi tão amoroso o dia todo. E na hora do jantar, cantou e confraternizou com todos com a mesma doçura e o mesmo sorriso franco e acolhedor de sempre. O jantar de hoje foi uma deliciosa sopa de abobrinha, uma salada de lentilhas também muito gostosa, e batata doce assada. Tudo muito gostoso e cheio de amor, o que faz toda a diferença.
Quando terminou o jantar e todos se recolheram, mais uma vez fiquei conversando com Mincho. Ele me desenhou um mapa da Índia e me apontou os lugares mais interessantes para conhecer. Conversamos também sobre a vida. Sinto que encontrei um amigo. Mais uma pessoa que o Caminho me trouxe de presente e com quem, subitamente, estabeleci uma conexão que sinto ser profunda. Mincho se recolheu mais ou menos quando chegaram duas moças bem jovens, uma suíça e uma iraniana. Ainda fiquei conversando um pouquinho com elas. Mehrnaz, a iraniana, é uma figura muito interessante. Gostei muito de conhecê-la.
Vou dormir leve hoje. Amanhã retomo a caminhada e devo chegar a Astorga, a última cidade de maior porte antes de Santiago. Veremos como se comporta o pé. Te dou notícias.
Boa noite, Minha Irmã!
Beijos no coração,

Léia

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 31


13/10/15

Niquinha, Querida,
Adoro albergues que não têm regras estritas! Acordei umas sete horas, tomei café com calma e deixaei o albergue umas nove horas, já com o sol brilhando e um belo céu azul. Ainda dei uma chegada na Catedral, só para admirar os vitrais da entrada (não ia pagar outro ingresso!), e fui a uma farmácia, comprar algumas coisas de que andava precisando, inclusive uma nova joelheira e uma faixa para o tornozelo. Retomei o Caminho, seguindo as setinhas amarelas. León está muitíssimo bem sinalizada com relação ao Caminho. Logo após deixar o centro histórico para trás, cheguei ao Convento de São Marcos. É uma bela edificação, com fachada do século XVI, cheia de referências a Santiago. Há vieiras por todo lado. E tem um museu, de acesso gratuito, na área do Claustro. Nada de muito especial. Algumas tumbas e uma série de quadros com cenas no Gênesis, do século XVII. Nesse Convento tem um Parador, um hotel de luxo, com um hall impressionante. Imagino que deve ser uma delícia hospedar-se num desses paradores. Há alguns no Caminho, e vários na Espanha e em Portugal, que eu saiba.
Após cruzar uma ponte e passar por um simpático parque urbano, cheguei a uma cidade da região metropolitana de León, Trabajo del Camino. Cara de cidade de periferia, sem graça nenhuma. O Caminho segue por alguns quilômetros pelo que imagino ser a rua principal, com muito comércio. Em meio à confusão de casas de dois andares e lojas, uma Igrejinha de Pedra. Entrei na Ermida de Santiago, rezei um pouco e segui caminhando. A essa altura já era início da tarde. Creio que passava da uma. EM certo ponto de uma vizinhança já mais simpaticazinha, com casinhas de jardim à frente, dobrei à direita e passei por uns galpões. Era o início da área industrial de León. Em lugar de seguir por essa área cinzenta, que ademais segue junto a uma rodovia, peguei um caminho alternativo. Chega respirei aliviada, por sair de perto dos carros e do movimento de transeuntes.
O problema desses caminhos alternativos é que em alguns trechos a sinalização é meio escassa. A pessoa fica mais insegura. Mas deu tudo certo. Cruzei uns terrenos com vegetação silvestre, onde havia gente colhendo cogumelos (setas), vendo ao longe o pequeno aeroporto de León. Até que cheguei a uma área com grandes condomínios de prédios de uns três ou quatro andares. Era a cidade de La Virgen del Camino. Me atrapalhei um pouco pela falta de sinalização, pedi orientações e retomei a rota certa. Quando ia cruzar a rodovia, vi à minha frente uma plaquinha que indicava Santuario de La Virgen del Camino. Olhei pro lado e vi a fachada enorme de uma Igreja de linhas retas, com esculturas em cobre, longilíneas. Obra moderna, bem interessante. Me lembrou a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, no Rio de Janeiro. Entrei. Um Padre que estava se dirigindo ao confessionário, ao me ver, veio logo em minha direção. Um amorzinho! Me deu as boas-vindas, estampou minha credencial, me deu um panfleto sobre a Basílica, me explicou algumas coisas e me desejou Buen Camino, sempre com um largo sorriso no rosto. A acolhida calorosa encheu meu coração de alegria. Visitei a Basílica, que tem um altar barroco, do século XVIII, com uma Pietá de princípios do XVI. Essas peças repousam numa parede de pedra. O contraste entre o antigo e o moderno causa um efeito bem curioso. Por detrás do altar tem uma sala com um estandarte da Virgen del Camino, cuja festa tinha sido no dia anterior, 12 de outubro, tal como a de Nossa Senhora Aparecida.
Não demorei muito na Basílica por causa da hora. Cruzei a rodovia e segui por uma estradinha de terra, até o povoado de Fresno del Camino. Parei no único bar local, tomei um chá, e na pracinha em frente fiz um lanche com pão e queijo que eu tinha comprado num supermercado antes de deixar León. O resto da tarde foi de caminhada muito agradável, e estradinha de terra vermelha e seixos, ladeada por campos de cultivo, a maioria desnudos ou com um matinho ralo, de planta que começa a crescer. Às vezes algumas nuvens encobriam o sol, e esfriava um pouco, porém peguei um solzinho gostoso a maior parte do tempo. Cruzei dois pequenos povoados, Oncina e Chozas de Abajo, com suas praças e fontezinhas (providenciais para os peregrinos) e quando estava quase chegando e Villar de Mazarife, encontrei um senhorzinho que descia de um trator, à porta de uma grande propriedade rural (finca). Ele puxou conversa comigo e quando me despedi, me ofereceu uma cerveja para ir tomando pela estrada. Agradeci, recusei gentilmente a oferta e venci os dois quilômetros que faltavam para o meu destino. Nessa altura, meu pé direito já estava incomodando e eu caminhava mais devagar. Digo mais devagar porque eu já vinha num ritmo mais lento, lembrando do que me disse a enfermeira canadense sobre os passos mais curtos.
Chegando a Villar de Mazarife, fui logo à Igrejinha local para ver se estava aberta. Uma mocinha estava sentada a uma mesa, com o carimbo para estampar as credenciais dos peregrinos. Ariana era muito doce e me explicou várias coisas sobre a Igreja de Santiago, que sofreu profundas modificações desde a sua construção, pelo século XII. De original só resta uma piazinha para água benta. Os altares, do século XVI (ao que parece) são graciosos, especialmente um, italiano, em madeira policromada, com uma imagem simples e delicada de Nossa Senhora. Também me chamou a atenção uma pintura de Cristo crucificado com Deus Pai por detrás, segurando a cruz (seria da mesma época, século XVI). Eles têm, ainda, uma Cruz Processional do século XIII. Ariana me mostrou tudo com visível orgulho. A abóbada central está pintada como um céu, azul, com nuvenzinhas brancas. Algo bem cafona para mim, e, no entanto, muito apreciado por minha cicerone.
Depois da visita à Igrejinha, me dirigi ao meu albergue. O Refúgio de Jesus é um lugar muito simples e descolado. Todas as paredes estão cobertas de inscrições e desenhos deixados pelos peregrinos. Estava cheio. O problema eram os banheiros, demasiado velhos. Pensei que por cinco euros não devo esperar muito mais do que as acomodações que encontrei ali. Fiquei num quarto com mais duas moças. Após o banho, fui a um mercadinho local e comprei uma sopa de abóbora pronta bem decente. A pequena cozinha está disponível para os peregrinos e estava congestionada com gente cozinhando. Esquentei minha sopa e fui tomá-la no refeitório, bem mais espaçoso. Depois, ainda tentei ficar por ali escrevendo minhas cartas para você. Só que logo o refeitório se encheu de gente, e um animado grupo de peregrinos de distintos países fazia muito barulho. Um deles cantava, até bem bonito. Desisti de escrever, por impossibilidade de concentração, e fiquei por ali, ouvindo as conversas e as músicas.
Comecei a tomar o anti-inflamatório junto com o omeprazol, como você me recomendou. Todavia, não consegui colocar gelo no pé. Veremos como ele amanhece. A bolha do calcanhar está secando, creio eu. A noite parece que será bem fria.
Beijos saudosos, Niquinha!
Da irmã que muuuuuito te ama,

Léia

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 30


12/10/15

Amanheceu chovendo horrores! Tomei café com um senhor alemão muito simpático, que eu hevia conhecido em Mansilla, no albergue Gaia. Ele viu no celular que a previsão era de chuva pesada o dia todo. A perspectiva de caminhar com chuva pesada é sempre desalentadora. Não gostaria de passar pela experiência do primeiríssimo dia, em que cheguei a Roncesvalles ensopada, com as meias e botas completamente encharcados. Além disso, a lateral do meu calcanhar direito amanheceu incomodando bastante, e meio inchadinha. Resolvi, então, ficar mais um dia em León. Eu tinha comprado uma garrafa de água, que eu pus no congelador, e na noite anterior já tinha usado no pé direito, para tentar controlar a inflamação. Decidi que ficaria colocando essa compressa de gelo ao longo do dia e daria esse descanso pro calcanhar e por arco do pé também.
Porém, o mais importante é que senti no meu coração que eu deveria tirar o dia pra cuidar do espírito também. Lembra de Don Paco, o especialista em medicina chinesa que eu conheci em San Millán? Pois é. Lembrei-me que ele tinha dito que eu deveria trabalhar meus sentimentos de culpa, e que o Caminho não precisa ser feito com dor. Ele ainda me disse que independentemente do que me trouxe aqui, eu deveria fazer desse Caminho um processo de cura interior. Desde então eu sabia que precisava trabalhar questões internos, começando por tomar consciência das feridas e das culpas que eu carrego dentro de mim.
É estranho porque como a gente não reflete sobre muitas coisas que nos acontecem, desde a mais tenra infância, a gente nem sequer se dá conta das feridas da alma. A verdade, porém, é que todos nós temos as nossas feridas, provocados pelos outros e por nós mesmos. No tempo em que eu fiz terapia, lá em Natal, meu terapeuta me mandou escrever algumas cartas de perdão. É uma técnica que eu comecei a usar recentemente. Não as escrevi na época em que Ramos me disse para fazê-lo. Creio que na altura não consegui entender exatamente o que era esse processo. Seja porque não acreditei nesse caminho, seja porque não consegui vencer meus bloqueios, o fato é que não as escrevi. Comecei a fazer isso há alguns meses, quando estava na fazenda Hare Krishna.
Não sei se você fez isso na sua terapia, mas se não fez, quero lhe dizer que é um processo muito rico e libertador. Acho que a maior parte das pessoas não se dá conta de quanto sentimento de culpa carrega dentro de si. Até porque é meio impossível passar por essa vida sem ferir os outros, e esses outros são, geralmente, as pessoas que mais amamos. Do mesmo modo, é impossível passar pela vida sem ser ferido pelos outros. Isso sem falar nas complicações que a nossa mente inventa e que funcionam como um processo de auto-flagelação interior. Com as cartas de perdão você põe no papel essas feridas, pede perdão pelas que causou e perdoa as pessoas que lhe causaram feridas, muitas vezes sem nem se darem consciência disso. Você vai relembrando os eventos, os sentimentos, e nesse processo você vai tomando consciência das suas feridas e ao colocá-las no papel, você dá início ao processo de cura delas. O choro é, com frequência, inevitável. Também é parte do processo de cura, creio eu.
É claro que você não entrega as cartas aos destinatários, que podem ser outras pessoas ou você mesma. Depois de escrevê-las, você pode rasgá-las. Eu gosto de queimá-las e oferecê-las a Deus, pedindo que Ele leve embora todo o sentimento negativo posto ali no papel. Às vezes você sente que precisa escrever a mesma carta duas ou três vezes, até que você se sinta realmente curada dessas feridas. Não sei se qualquer pessoa pode fazer isso sozinha, sem o acompanhamento de um terapeuta. Eu faço porque sei que dou conta de lidar com minhas emoções.
Pois além de cuidar do pé, repousando e colocando gelo, cuidei também do espírito e da mente. Fiz longas meditações e escrevi duas cartas de perdão. Cheguei ao final do dia com uma sensação boa, de leveza e satisfação por estar fazendo a coisa certa. Enfrentar seus fantasmas interiores é duro, doloroso, mas ao mesmo tempo é realmente libertador. Meu propósito é seguir fazendo essa “limpeza” interior todos os dias. Espero chegar ao final do Caminho curada das minhas dores do corpo e do espírito. Tomara Deus que eu tenha disciplina suficiente.
Bom, o dia estava frio e chuvoso. Estava sozinha no quarto, pela manhã, meditando e escrevendo minhas cartas. Chegou, porém, a senhora da limpeza. Aproveitei esse intervalo para visitar o museu da Catedral, que já estava fechado na véspera. Totalmente dispensável. Nenhuma peça muito especial, que justifique o tempo, a energia e o dinheiro investidos. Não levei nem quinze minutos nessa visita.
Sabe uma coisa que me surpreendeu em León? Não tem desconto para peregrinos nas Igrejas e museus. Achei isso tão pouco simpático. Os descontos são bobos, um euro. Só que não é pelo valor, é o gesto. A gente se sente acolhido e valorizado, no esforço empreendido, quando chega num lugar e tem preço especial para os peregrinos. León não tem essa atitude acolhedora, o que muito me surpreendeu.
Do museu da Catedral me dirigi ao Museu Panteón, da Igreja de San Isidoro. Esse, sim, vale demais a visita. Tem alguns objetos preciosos, como um cálice de vinho do século X (se não me confundo), mas feito com duas ágatas datadas do século primeiro depois de Cristo. Ademais, a guia nos informou que essas ágatas compunham um outro cálice, que no século primeiro era venerado por cristãos como tendo sido o cálice da Santa Ceia. Pesquisadores espanhóis encontraram uns manuscritos na biblioteca do Cairo que mencionam esse cálice, que foi ofertado por um Califa a um rei de León. Claro que a alusão à Santa Ceia não tem nenhuma comprovação histórica (só o fato de que se pensava ter sido esse o objeto). Em todo caso, o cálice é lindo e não deixa de ser impressionante que as pedras tenham praticamente dois mil anos. As ágatas estão unidas por uma bela e delicada estrutura em ouro, com decoração de filigranas e pedras precisas, presente de Dona Urraca, filha de um dos mais importantes reis de Castilla y León (se eu guardei bem a informação).
O museu também tem um grande Galo de cobre, que ficava no alto da torre da Catedral, que foi presente de um outro califa, e tinha pólen datado do século sete. E a coisa mais preciosa é o Panteón, uma sala do Claustro de San Isidoro onde há vários túmulos de reis de Castilla y León, com uma decoração de teto e pinturas lindíssima. São pinturas na parede, datadas dos séculos XII ou XIII, de traços meio primitivos, com cenas bíblicas e um grande Cristo, Senhor do Universo, na abóbada central, e um calendário agrícola num dos arcos que enquadram essa abóbada. O conjunto é realmente impressionante, está muito bem preservado, e, segundo nossa simpática guia, é o maior conjunto de pinturas do gênero, conservadas em seu lugar original, de toda a Europa.
Saí do museu feliz por ter me dado ao trabalho de voltar a San Isidoro. Ainda entrei na Igreja, rezei um pouco e voltei ao albergue, para dar seguimento aos meus cuidados com o corpo e com o espírito. Já tarde da noite, eu estava escrevendo numa saletinha que tem na entrada dos dormitórios, quando chegaram uns senhores que vinham da rua. Eu perguntei se valia a pena o esforço de ir ver a Catedral iluminada, à noite. Eles me disseram que sim, e um deles, um espanhol chamado Nicolas, se ofereceu para me acompanhar. Pus um casaco e saí para dar um passeio até a Catedral. A noite estava fria, mas já não chovia mais. Eu tinha a esperança de que tivessem iluminado a Igreja por dentro, como eles costumam fazer no verão. Diz que dá um efeito lindo nos vitrais. Infelizmente, estamos no outono. Em todo caso, valeu o passeio. Bati um bom papo com Nicolás. Os bares estavam fechando e os últimos fregueses começavam a tomar o rumo de casa.
Sinto que foi um dia importante pra mim, em que dei início a um processo benéfico e transformador. Me falta agora, achar local e oportunidade para queimar as primeiras cartas que escrevi. Sei que tudo tem seu tempo. E esse virá em breve.
Beijos mil, Minha Amada Irmã!

Léia

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 29


11/10/15

Dia de retomar a caminhada. Acordei bem cedinho, para aproveitar a boa conexão de internet do Albergue Gaia e postar as fotos do Caminho no meu Facebook. Como eu te disse, fiz de tudo para me entender com o tal do Picassa, mas não deu certo. Nem gosto muito de postar fotos no Facebook, mas foi o jeito. Ou era assim, ou vocês não poderiam ver as fotos de jeito nenhum. Vê se usa o Facebook de Quel para você e mamãe darem uma olhada, por favor.
Tomei café no albergue, com um casal canadense e uma californiana, todos de meia idade, extremamente simpáticos. A senhora canadense é enfermeira e a americana é massagista. Quando eu estava pondo meus esparadrapos e meus cremes no pé, elas se aproximaram e terminaram me ajudando, todas duas. Vê a sorte. Ganhei massagem no pé e uma dica importante da enfermeira (não gravei os nomes delas!). Ela me disse que a inflamação no arco do pé geralmente acontece porque as pessoas querem dar passadas muito largas, e acabam estressando as estruturas do arco. Me aconselhou a caminhar com passos mais curtos. E assim eu fiz. Passos mais curtos significam uma caminhada mais lenta, o que representa um exercício extra de paciência. Engraçado como o Caminho está o tempo todo me pedindo paciência. Tô tentando obedecer! Quero aproveitar para fazer o registro de que eu não sou a única doida a falar dO Caminho na Terceira Pessoa. Quase todos os peregrinos falam assim. Na verdade, acho que todos os que entram verdadeiramente no espírito dO Caminho, acabam se referindo a ele como se fosse uma entidade, com uma natureza e características particulares.
Saí de Mansilla de Las Mulas com chuva. Choveu constantemente a primeira metade da jornada toda, mas não era uma chuva pesada, então, deu para administrar com a capa de chuva. Atravessei a pontezinha na saída de Mansilla e parei para contemplar a muralha do lado de fora. Fiquei só imaginando como era a chegada dos viajantes a essa cidade murada, vários séculos atrás... Da ponte a paisagem é bem bonita, com as muralhas à frente e o rio todo margeado por altas árvores. Também, foi só eu me afastar um pouquinho de Mansilla pra paisagem ficar sem graça. A maior parte do trajeto entre Mansilla e León segue junto a uma movimentada rodovia. Um que outro trechinho é mais simpático, com árvores e arbustos altos, dos dois lados, o que não apenas forma uma alamedazinha, como encobre a feiúra da rodovia. No geral, porém, é uma caminhada pouco atrativa.
Estava eu andando num trecho feioso, bem rente à rodovia, quando avistei uma casa alta, com uma placa que dizia: Albergue Filosofia. O nome já me chamou a atenção. Quando eu passo na porta, está tocando uma valsa, de Strauss. Obviamente que eu não resisti e entrei para tomar um chá. O albergue/bar era mesmo meio inusitado, com sofás e poltronas, além de mesas e cadeiras. Tudo muito simples, porém se via que o dono (um sujeito também aparentemente muito simplório) tinha se esmerado para dar um ar de sofisticação ao seu bar. Tomei meu chá ouvindo Strauss, usei o banheiro e segui adiante.
Pouco depois desse inusitado albergue, caminhei por um simpático bosque, com umas esculturas de ferro, e cheguei a uma extensa ponte de arco (talvez a única paisagem agradável do dia). A ponte cruza um belo rio cujas margens estão cobertas por densa vegetação, e continua uns bons metros por cima de um gramado. Era a entrada de uma cidadezinha de beira de estrada, de traços contemporâneos, chamada Puente Villarente. Marisa e Carlos tinham me recomendado uma confeitaria (pastelería) do local. Passei para verificar, e realmente os doces são uma delícia. Pelo movimento intenso de locais, já vi logo que os quitutes deviam ser bons. Aliás, devo dizer que os pães, biscoitos e folhados das pastelerías espanholas são dignos das calorias ingeridas. Os que provei no Horno Rústico, recheados com creme (conforme me recomendaram meus hospitaleros) estavam divinos!
Ainda cruzei dois pequenos povoados, sem nada de muito interessante, antes de chegar à periferia de León. Esse foi, aliás, o único trechinho do trajeto do dia que se afastou um pouco da rodovia. Pelos terrenos cobertos de uma vegetação rasteira, vi pessoas com sacos ou cestinhas nas mãos, colhendo cogumelos. De repente, a paisagem meio rural dá lugar a galpões, grandes prédios comerciais e concessionárias. Tinha chegado a Puente Castro, já parte da grande mancha urbana de León. Cruzei a larga e movimentada rodovia por meio de uma passarela e andei por vários quilômetros ainda, até alcançar o centro histórico. Como era domingo, tudo estava fechado. À parte a rodovia, não havia movimento nas ruas de Puente Castro. Já na entrada de León, justo antes de cruzar o rio que banha a cidade, parei numa pracinha para recolocar meu casaco (tirar e colocar o casaco é sempre uma operação de guerra, porque tem de tirar mochila, bolsa, máquina fotográfica), e quando vejo, em plena avenida de acesso a León propriamente dita, um enorme rebanho de carneiros vem andando pachorrentamente. Carros ficam encurralados. Não têm outra alternativa a não ser esperar o rebanho passar. Me divirto muito com a cena. E fico pensando: Que bom que essas cenas não acontecem apenas no Nordeste do Brasil!
Quando estava cruzando a ponte, uma senhorinha se aproximou de mim e me perguntou se eu estava caminhando sozinha, e antes mesmo que eu respondesse, foi me aconselhando: Não ande sozinha, você está sabendo do que aconteceu com a moça americana? Eu lhe respondi que sim, e que estou sendo cautelosa, mas que ao mesmo tempo, entrego minha vida a Deus todos os dias. Ela sorriu, me disse um Vá com Deus,  e eu segui meu caminho.
Demorei uma eternidade para cruzar essa área periférica de León, que não tem atrativo nenhum. Condomínios, áreas comerciais, enfim, perfil de cidade grande. Caminhei muuuito devagar, porque meu pé direito estava me incomodando bastante. O arco desse pé ainda está um pouco inflamado, e com a bolha no calcanhar esquerdo, acho que eu vinha forçando mais o pé direito. Resultado é que agora me apareceu uma outra dor no pé direito, no calcanhar, do lado externo. De todo modo, consegui chegar ao meu albergue, Muralla Leonesa, antes das três, que é até quando se costuma segurar reserva. Eu raramente faço reserva em albergue, porém, como León estava muito cheia por causa do feriado nacional (Día de la Hispanidad), e Marisa tinha me recomendado este, tinha deixado reserva feita.
Adorei o albergue. Todo novinho, inaugurado há poucos meses, com cozinha para peregrinos e regras super flexíveis. Nada de toque de recolher. A gente podia entrar no albergue e ir pro quarto na hora que bem entendesse. Amei! María, a moça que me atendeu, é uma gracinha. Me instalei, tomei meu banho, comi uma paella que eu tinha comprado num supermercado (dessas comidas prontas, pra esquentar no micro-ondas), e saí para visitar a Catedral. As ruas da cidade antiga estavam bem mais tranquilas que no sábado. A Plaza Mayor até parecia outro lugar, sem a feira da véspera. Nem lembro se comentei que as ruas de León (centro histórico) são estreitas e tortuosas, com sobrados de dois ou três andares, de fachadas coloridas. Há uma grande quantidade de bares, restaurantes e cafés, e sempre há muita gente pelas ruas. É uma cidade muito viva. Junto do albergue tinha uma lojinha de chá com todo tipo de chá que se pode imaginar. Eu tinha entrado nela já no sábado. Tomei três chás diferentes: amarelo do Grande Imperador; Vermelho com canela, cardamomo e outras especiarias; e chá verde com jasmim.  
Mesmo com o pé incomodando, fui visitar a Catedral, que é muito perto do meu albergue, e não requeria muito esforço de caminhada. Difícil descrever a emoção que a pessoa sente quando está no interior dessa Catedral! O conjunto de vitrais que ela tem (1.800 m2) é absolutamente impressionante! Sem dúvida alguma é o monumento mais belo que vi até aqui. Há vitrais em todas as paredes da Pulchra Leonina. São três enormes rosáceas e inúmeras janelas, com seus vitrais multicores, retratando cenas bíblicas, santos, apóstolos, a vida de Maria e Jesus. Tocava uma música religiosa suave, que cria uma atmosfera ainda mais envolvente. Os arcos da Catedral são imensos, com suas ogivas perfeitas e suas nervuras no teto – novidade no processo de construção que permitiu às Igrejas góticas terem esses tetos tão altos. Sentei nuns banquinhos no cruzeiro central e fiquei só admirando aquela maravilha do engenho humano, muito emocionada. Se a intenção era criar um ambiente de elevação do espírito, os construtores foram realmente bem sucedidos. Sentadinha, em silêncio, contemplando  essa maravilha, me lembrei muito de Osman Lins, um dos meus escritores favoritos. A obra de Osman amadureceu muito depois que ele passou um tempo na Europa, e ele dizia que a contemplação das catedrais góticas, com seus vitrais e retábulos, tiveram um efeito transformador sobre ele e sobre sua literatura. Embora a principal experiência dele tenho sido na França, Léon me lembrou muito Osman, em particular o Retábulo de Santa Joana Carolina (um dos mais belos textos já escritos em língua portuguesa, na minha modesta opinião).
Há alguns detalhes de decoração nos altares laterais interessantes, como uma delicada imagem de Nossa Senhora do Ó (amo essa representação de Nossa Senhora Grávida), de entre os séculos XIII e XIV. A verdade, no entanto, é que nada se compara ao impacto dos vitrais. É uma pena que um coro em estilo renascentista (pós gótico tardio, tipo século XVI) tenha sido instalado bem no meio da nave principal. Esse coro, ainda que seja um belo trabalho em madeira, quebra um pouco a harmonia do conjunto, e certamente reduz o impacto do conjunto das altíssimas paredes, com suas ogivas que direcionam o olhar para o céu, e os vitrais. Após contemplar toda o edifício por mim mesma, liguei o audioguia e comecei a ouvir a história da construção do edifício, cuja obra foi concluída em praticamente meio século (segunda metade do XIII). Daí porque se observa nela maior unidade arquitetônica que a Catedral de Burgos, por exemplo.
No século XIX, a Pulchra Leonina sofreu uma importante e impressionante restauração. Vou mencionar esse episódio porque me pareceu fantástico. A Igreja tinha sofrido intervenções ao longo dos séculos, que estavam comprometendo seu delicado equilíbrio arquitetônico. O teto ameaçava ruir. Pois um sujeito estudou o estilo gótico de construção e montou um plano de restauração em que o teto foi inteiramente removido e os vitrais foram desmontados peça por peça, catalogados e encaixotados! Ele conseguiu restaurar a antiga estrutura, pôs tudo de volta no lugar e quando removeram as estacas de sustentação, a Igreja permaneceu de pé. Não é incrível? Eu fiquei impressionada. Diz que a cidade ficou de respiração presa quando retiraram as estacas de sustentação. Dou por visto. E o resultado é que tirando esse coro (introduzido tardiamente), e o retábulo do altar, a Catedral de León acaba por ser uma raridade na Espanha, onde quase todas as Igrejas, grandes e pequenas, têm evidentes traços de restauração e mudanças, às vezes, significativas de estilo, que foram se sobrepondo com o passar dos séculos.
Estava nessa visita guiada quando me dei conta de que na Capela do Santíssimo estava tendo missa. Como era domingo, corri pro acesso ao Claustro (na lateral) e ainda peguei boa parte da missa. A Capela do Santíssimo é muito simples, com decoração na parede do altar em pedra mesmo, num estilo gótico florido (ou tardio). O Claustro não tem nada de muito especial. Inclusive, me deu a impressão de um estilo posterior ao da Catedral, com as nervuras do teto bem decoradas. A coisa mais interessante do Claustro é o ângulo de visão da própria Catedral.
Quando saí do Claustro, o tempo estava chuvoso e frio. Como, ademais, meu pé estava doído, voltei pro albergue e decidi ficar escrevendo e organizando minhas coisas.
Esse foi meu dia, Niquinha. Saudades muitas!
Beijos no coração,

Léia