terça-feira, 27 de outubro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 39


25/10/15

Oi, Nica!
Hoje foi dia de vencer o grande desafio dessa última etapa do Caminho Francês: a subida dO Cebreiro. A certa altura dessa subida, numa curva de estrada, no meio da mata, há uma espécie de refúgio. Ali, vi uma plaquinha pintada, com essa frase: A felicidade não é destino. A felicidade é a atitude com que se encara a vida. O problema com frases do gênero é que muitas vezes elas soam com algo fácil de dizer e difícil de concretizar na vida real. Especialmente difícil quando se está imerso em alguma situação grave, e que gere muita dor. Eu sei disso, porém, tendo a acreditar cada vez mais que são nossas reações diante dos fatos que definem nosso estado de espírito. Quanto mais resistimos aos fatos, mais sofremos com eles. A felicidade, ou talvez seja melhor dizer, a paz de espírito decorre da entrega e da aceitação da realidade. E com isso não quero dizer nem que seja fácil se sintonizar nesse estado de paz, nem que se deva assumir uma postura acomodada e meramente passiva diante da vida. É muito mais a ideia de ajustar nossas expectativas às nossas circunstâncias, e de reconhecer os limites da nossa vontade. Enfim. Fiquei com essa frase na cabeça ao longo o dia, meditando sobre ela.
Mas, voltando ao começo do dia, acaba que não dormi bem no albergue de Vega de Valcarce porque senti um pouco de frio. A manta que eles me deram (1 euro, por sinal), era muito fininha. Não deu pra nada. Acordei de noite e pus mais roupa, pra me aquecer. Tomei café da manhã no albergue mesmo, na companhia dos hospitaleros, Jus e Lalo (o dono). Eles me fizeram um suco de laranja que estava divino! Segundo Jus, o inverno é que é a época das laranjas. E, realmente, tenho tomado sucos de laranja que parecem um mel de tão docinhos. Enquanto comíamos, rolou uma conversa curiosa sobre altos impostos, corrupção e falta de interesse dos políticos em investir num sistema de educação pública realmente efetivo.... Qualquer semelhança será mera coincidência?! Confesso que estou impressionada com a similaridade entre as queixas que tenho escutado dos europeus e as nossas próprias.
Bom, já eram umas dez da manhã quando tomei meu rumo. O dia estava ensolarado, com algumas poucas nuvens no céu. Pude ver as ruínas do castelo com maior nitidez. Na saída do povoado, avistei uma lojinha com rosários coloridos pendurados no enquadramento da janela. Parei e comprei um crucifixo feito à mão. O autor das peças é um colombiano radicado na Espanha. Um velho hippie, de barba comprida e toda branca. Ficamos conversando um pouco. Engraçado que quase todos os hispano-falantes que tenho encontrado acham que eu sou argentina, por causa do meu sotaque falando espanhol. Não sei onde raios fui pegar esse sotaque. Mas ainda bem que não implico com a Argentina, porque outro compatriota nosso já estaria P da vida. Esse colombiano ficou tirando onda comigo.
A primeira parte da caminhada do dia ainda foi no vale, basicamente numa estradinha vicinal toda coberta por árvores, muitas castanheiras, claro. Também tenho passado por macieiras carregadinhas. Algumas dão umas maças vermelhas, lindas, daquelas da estória da Branca de Neve. Outras são macieiras silvestres, e dão umas maças pequeninas e esverdeadas. As macieiras da Branca de Neve normalmente estão em propriedades privadas. Já as silvestres, muitas vezes, crescem na beira da estrada e dá pra você colher uma ou outra maçã. São gostozinhas.
Cruzei o pequeno povoado de Ruitelan, ao pé de um enorme viaduto. Sua Igrejinha estava aberta. Entrei, rezei e estampei minha credencial. A Igrejinha tem uma pia batismal de pedra, com toda cara de ter alguns bons séculos de existência. O último povoado antes do início da subida dO Cebreiro chama-se Herrerías. É um povoado charmoso, que se estende ao longo do sopé de uma montanha. Tem uma pequena ponte de pedra, de um só arco, ogival. Parei num café, comprei uma pera, usei o banheiro e tomei fôlego para a subida de quase 700 metros, que todos dizem ser desafiadora.
A paisagem dessa subida é lindíssima. A gente vai por uma estradinha de terra, em meio a uma mata virgem, cheia de árvores cobertas de musgos e trepadeiras. E nessa época do ano, então, já se vê toda a paleta do Outono. E quando a gente vai chegando mais alto, que se acabam as matas, acho que a paisagem é ainda mais deslumbrante, porque se avistam todas as montanhas ao redor, com os vales pelo meio, as encostas das colinas, ora verdes, ora cobertas de árvores de todas as cores, ora cobertas por um tapete de samambaias vermelhas, alaranjadas e amarelas.
Foi ainda na mata que encontrei o refúgio que mencionei a princípio: El Buho de Atenea. Alguém pintou uns banquinhos e pôs umas plaquinhas simpáticas numa clareira bem convidativa, bem no topo de uma subidinha. Aproveitei para descansar e meditar um pouco. É tão boa essa sensação de estar no meio da natureza, ouvindo só os barulhos da mata, respirando o cheiro da terra e das folhas, ainda úmidas da chuva da véspera... De vez em quando passava algum peregrino. Mas eu fiquei lá, sentadinha, concentrada em mim mesma, procurando me sintonizar com Deus por meio da sua Criação. Depois de uma meia hora, me levantei e segui por essa estradinha até chegar a um minúsculo povoado chamado La Faba. Dei logo de cara com um bar que estava cheio de peregrinos. Tratava-se, na realidade, de um bar-pousada, bem alternativo: El Refugio. Vi uns crepes com cara boa e resolvi almoçar. Comi um crepe de húmus, com tempero indiano, delicioso! A atendente era brasileira. Estava fazendo o Caminho com o namorado, eles se encantaram com o lugar e resolveram ficar, trabalhando como voluntários. Enquanto comia, fiquei conversando com uma americana de Miami, Karen. Acabei comendo metade do crepe dela também, porque ela fez redução de estômago e só consegue comer pouco.
A essa altura o tempo estava começando a mudar. O céu ficou nublado e com cara de chuva. Retomei a caminhada, na esperança de chegar a O Cebreiro antes da chuva cair. Dei uma paradinha a poucos metros do bar onde havia comido. Nisso passaram por mim três peregrinos. Um senhor e uma jovem negros e um rapaz branco. Negros sempre chamam a minha atenção no Caminho porque são muito raros. Fiquei pensando se seriam de algum país africano. O rapaz branco falou algo comigo em inglês. Nos desejamos Buen Camino. Eles seguiram à frente e eu fui logo atrás. Daqui a uns minutos eles param e eu escuto um “Ôxe!”. Falei logo, vocês são pernambucanos? Tio e sobrinha, Paulo e Karine, são do Recife. O rapaz, Flávio, é paulista, de mãe pernambucana (Sertânia). Estão caminhando juntos há várias semanas. Paulo meio que adotou Flávio. Integrei-me ao grupo e venci, com eles, a parte mais inclinada dO Cebreiro. Na realidade, achei que o povo faz um pantim muito grande. Não é uma subida tão dura. Nada que se compare aos Pirineus. Agora, a vista, como eu já disse, é magnífica! A gente só via montanhas e vales no horizonte. Aqui e acolá a luz do sol atravessava as nuvens e iluminava algum pedacinho de vale. Realmente belo.
Antes de chegar a O Cebreiro, um grande marco de pedra assinala o início das Terras de Galícia! Deixamos para trás o extenso Reino de León y Castilla, e adentramos a derradeira das regiões do Caminho de Santiago. Paulo, que está fazendo o Caminho pela quarta vez, começou a nos contar que a Galícia abrigou muitas “bruxas” e “bruxos” nos tempos da Inquisição, porque como era uma região mais remota, muitos perseguidos da Inquisição vieram se esconder por ali. Além disso, a Galícia tem um forte passado Celta.
Paulo é uma figura! Uma simpatia, uma alegria, uma espontaneidade contagiantes. E adorei encontrar meus conterrâneos, voltar a escutar nosso sotaque tão gostoso! Karine e Flávio também são uns amores. Me senti muito à vontade com eles, desde o primeiro instante. Paulo me falou muito sobre como era o Caminho até 2011. Ele diz que nos últimos 4 anos aumentou demais o fluxo de peregrinos, que o Caminho virou moda e está um pouco descaracterizado. Muita gente vindo fazer mais turismo, ou pela folia, ou pelo mero desafio físico, mais do que com uma motivação espiritual ou existencial (ainda bem que encontrei essa galera mais no iniciozinho da minha caminhada, depois passei a encontrar muita gente que está em busca de crescer moral e espiritualmente, que está num processo de revisão da própria vida). O problema, segundo Paulo, é que isso vem gerando mudanças na atitude dos hospitaleros e da própria população. Ele contou que nas primeiras vezes em que fez o Caminho, quando passava pelos povoadozinhos, os moradores mandavam bilhetinhos pra Santiago, pediam pros peregrinos rezarem por eles, e tratavam os peregrinos como pessoas muito especiais. Realmente, não é exatamente isso que a gente sente. Muitos locais me desejam Buen Camino quando eu passo pelos povoados (e encontro alguém na rua!), mas há muitos também que não te dão a menor bola. Enfim, como tudo na vida, o Caminho também há de ser cíclico. Em uns anos a moda passa e o espírito do Caminho ficará.
Na subida dO Cebreiro vimos uns peregrinos a cavalo. Tem uma pequena empresa que vende o serviço só nessa etapa de subida e descida dO Cebreiro. Peregrinos fazendo o Caminho a cavalo, de verdade, só vi um casal até aqui, bem lá no início. A grande maioria vai a pé mesmo, e tem uma proporção razoável de ciclistas. Essas são as três formas reconhecidas de peregrinagem.
Um enorme muro de pedra denuncia a chegada a O Cebreiro, que está no cume de um monte, a 1.300 metros de altitude. Fizemos a parte final da subida com muito vento (gelado!) e alguma chuva. O Cebreiro é uma cidade toda de pedra. Absolutamente todas as casas, e a Igreja de Santa María A Real, são de pedra. O Cebreiro tem um ar bem turístico. Há algumas boas pousadas rurais, algumas lojinhas de souvenires, restaurantes onde toca constantemente música celta. Aliás, a gente já entrou na cidade ouvindo música celta no ar. Como a Igreja fica bem na entrada, paramos logo para fazer nossas orações e conhecer o edifício, de arquitetura pré-românica (séc. IX). Por fora, a Igreja é toda de pedra, conforme mencionei. Dentro, ela tem as paredes caiadas, e grandes arcos de pedra, arredondados, separando a nave principal das laterais. No altar principal, apenas um grande e belo Crucifixo, do século XII. O arco do acesso a uma das naves laterais tem forma de ogiva. Bíblias em várias línguas estão expostas num armário de vidro. Em destaque, na nave da esquerda, o túmulo de Do Elias Valiña, que foi o religioso responsável pela invenção das flechas amarelas para marcar o Caminho de Santiago. Observando que muitos peregrinos se perdiam, Don Elias juntou um grupo de estudantes e começou a sinalizar o Caminho com as inconfundíveis setas amarelas.
Após a visita à Igreja, peguei minha mochila no principal hotel da cidade e fui com meus novos companheiros para o albergue municipal. No caminho, já deu para vermos toda a pequena cidade, que ainda preserva umas duas casinhas arredondadas, de pedra, com telhado de palha. O albergue municipal é bem simplizinho, mas estava com aquecimento ligado, o que, pra mim, é a glória. O detalhe pitoresco é que os chuveiros não têm porta (os banheiros de homens e mulheres são separados! Coisa que não se verifica em todos os albergues). Me senti de volta aos meus tempos de estudante. Acho que a última vez em que tomei banho em chuveiro quase coletivo foi quando fui ao Congresso da UNE! Mas a água estava quentinha, e isso é também o mais importante. Paulo e Karine me apresentaram a um outro grupo de brasileiros que também estavam no albergue.
O banho teve de ser corrido porque chegamos a O Cebreiro pouco antes das cinco da tarde, e tinha missa às seis. Como era domingo, corri pra chegar a tempo da missa. Cheguei à Igreja basicamente na hora em que o Padre estava subindo ao altar. As duas leituras, o Salmo e a Oração da Comunidade foram todas feitas por peregrinos, em diferentes línguas: italiano, francês, inglês e espanhol. Achei muito legal. Ao final a missa, o Padre nos deu a Bênção do Peregrino. A brasileirada estava quase toda na missa.
Já fazia muito frio quando saímos a Igreja. Passei num mercado, comprei umas besteiras e voltei pro albergue. Não estava nem um pouco a fim de sair e novo, naquele frio, para comer. Sem falar que as ruas de O Cebreiro são calçadas com seixos, ou seja, um piso totalmente irregular. Sem as botas, é sofrido pro meu pé caminhar nesse tipo de superfície. Então, enquanto a galera saía pra caçar onde comer, eu fui pro refeitório e já estava me instalando para começar a comer e te escrever, pra te atualizar das novidades, quando chegou Nacho, um espanhol que foi adotado pelos brasileiros. Dividi minha ceia com Nacho, que tinha ganho uma tortilla e tivemos uma conversa bela e inspiradora.
Nacho (nome de batismo, Inacio) ficou desempregado no ano passado e começou a fazer bicos. Por complcaçõoes familiares, resolveu aceitar um convite para trabalhar como voluntário num mosteiro Zen, na Itália. Depois de alguns meses nesse lugar, resolveu partir. E aí começou a fazer o Caminho de Santiago a partir de Roma! Detalhe: sem um tostão no bolso. Ele veio andando dependendo exclusivamente da Providência Divina. Procurava os mosteiros e paróquias, pedia abrigo e comida. E em algumas ocasiões, em cidadezinhas onde as Igrejas estão fechadas e o padre só aparece em domingo ou Dia Santo, ficou dependendo dos Homens de Boa Vontade. Ele me contou cada situação miraculosa, em que ele pensava que ia ter de dormir ao relento, e, de repente, aparecia uma criatura para abrigá-lo e alimentá-lo. Ele espera chegar a Santiago desse jeito. E está quase. Nesse meio tempo, ele parou umas duas vezes porque foi convidado para trabalhar como hospitalero voluntário, em albergues do Caminho.
Eu fiquei impressionada! Essa conversa foi um grande aprendizado para mim. Eu sempre me considerei uma pessoa de muita fé, e, no entanto, não sei se teria tamanho desprendimento. Lançar-se na estrada inteiramente entregue à Providência Divina requer uma coragem, uma entrega Total! Admirável.
Ao mesmo tempo, tem algo de muito triste nessa história, que revela um drama de muitos espanhóis e italianos que tenho encontrado. As crises nesses países jogaram as pessoas num cenário sombrio, marcado pela falta de perspectivas, pelo pessimismo, pela desesperança. Eis uma questão delicada e complexa.
Pois foi essa a aventura do dia, Minha Irmã! Mais uma etapa vencida. O pé resistiu bem à subida dO Cebreiro. São mais 10 dias até Santiago, considerando etapas mais curtas, para poupar o pé. Pedindo a Deus a Graça de chegar.
Beijocas, Nica,


Léia   

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 38


24/10/15

Niquinha, Querida,
Deixei Villafranca del Bierzo com um sentimento de profunda gratidão, aos meus anfitriões, claro, mas principalmente a Deus. Mercê me levou até a porta e nos despedimos com lágrimas nos olhos. Marta, a senhora responsável pela limpeza, também se despediu de mim com muito carinho. O dia estava nublado e como estava com cara de chuva, pus minha calça impermeável e o casaco. Mais à frente, acabei por tirá-los, porque não choveu e essas roupas impermeáveis esquentam demais. Comecei caminhando à beira de uma estrada vicinal. A certa altura, virando-me para trás, pude ver Villafranca encravadinha em meio às colinas. Muito linda essa cidadezinha!
Caminhei o dia todo num vale, passando entre as encostas das montanhas, praticamente o dia todo margeando o rio Pereje. Acho que já te disse que adoro caminhar acompanhando o curso dos rios, porque sempre dá pra gente escutar o barulhinho bom das águas correndo. Nessa etapa do Caminho, o rio foi meu contraponto feliz e inspirador ao movimento das rodovias. De fato, andei o dia todo ao pé de alguma estrada, às vezes junto a uma grande rodovia, às vezes à beira de uma estrada de menor porte. Por cima de alguns povoados, avistei altíssimos viadutos, cruzando os vales, conectando as colinas. Felizmente, em certos trechos da estradinha vicinal ao longo da qual caminhava, as árvores, muito altas, quase se tocavam acima, formando bonitas alamedas. Tenho a impressão de que a vegetação está cada vez mais amarela e laranja. E o chão começa a ficar coberto de folhas secas, em tons de marrom. Aliás, caminhei contemplando a queda das folhas, que mesmo ao vento suave, de desprendem dos galhos e caem delicadamente no chão. É bonito de ver e de ouvir também! Quando o vento é suave, as folhas produzem um delicado barulho ao se soltarem dos galhos e fazerem sua lenta aterrissagem no chão. Passei por muitíssimas castanheiras, e vi gente colhendo castanhas pelo chão.
Atravessei quatro pequenos povoados (Pereje, Trabadelo, La Portela de Valcarce e Ambasmesta), cada qual com sua Igrejinha de pedra, de torre única, vazada. Pude entrar na Igreja de São Pedro, em Ambasmestas, e rezar um pouco. Fico sempre feliz quando as Igrejas estão abertas e eu posso entrar e orar. Essa é uma Igrejinha bem simples, e bela na sua simplicidade. No topo do retábulo do altar, dedicado a São Pedro, um Cristo crucificado, com um sol e uma lua pintados de cada lado. Essa é, aliás, uma constante dos retábulos espanhóis, o sol e a lua, um de cada lado da Cruz. Acho muito interessante.
Vega de Valcarce, o povoado que era o meu destino do dia, é uma cidadezinha até charmosa, situada num vale todo cercado de colinas. No alto de uma delas, as ruínas de um antigo castelo (sec. IX) observam a cidade. À entrada, passei por hortas cheias de belas couves, e jerimuns absolutamente imensos. A Igrejinha de Veja, também de pedra, porém com uma torre de quatro paredes, não tem muita graça. Parece ser um prédio de construção mais recente. Certamente fruto de alguma reforma importante. Hospedei-me num albergue chamado El Paso. Mais um albergue novinho em folha, instalado num velho casarão reformado. Nada semelhante ao Leo, claro. El Paso é um albergue com cara de albergue. Mas muito bonzinho. Havia pouca gente. Além de mim e de um casal de americanos, havia apenas um grupo de coreanos, que falavam pouquíssimo inglês. Diga-se de passagem que tem me surpreendido a quantidade de coreanos que estão fazendo o Caminho.
A hospitalera, María Jesús (Jus), foi muito solícita. Providenciou água quente para o meu pé e cuidou da lavagem da minha roupa. Enquanto punha o pé na água quente (por causa do calinho de sangue), comi uma boa salada. Os coreanos estavam todos na cozinha e prepararam uma lauta refeição. Também cozinharam uma panela grande de castanhas, que certamente apanharam pela estrada. Jus mostrou a eles como se abriam as castanhas e ficou me contando que essa região tem muitíssimas castanheiras que foram plantadas pelos romanos! Parte dessa área do Norte da Espanha foi ocupada pelos romanos (daí porque há as ruínas em Burgos, em León...), e as castanhas foram ali introduzidas porque podem ser conservadas durante todo o ano, e têm muita sustança. Jus disse que os camponeses, de manhã, antes de subirem para os montes, para trabalhar, cozinhavam as castanhas com leite, e que aquilo lhes quedava no estômago por muitas horas. Diz ela que também é uma boa comida para os peregrinos. Vou ver se provo.
E assim passou-se mais um dia, Niquinha. O pé parece ter reagido bem à retomada da caminhada. Pelo menos não inchou mais. Se continuar assim até Santiago, me dou por satisfeita.
Beijos mil, Minha Irmã,

Léia

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 37


23/10/15

Minha Amada Irmã!
Como é possível transformar a dor em Amor???!!!
Imagine um casarão antigo, com pelo menos 300 anos de existência. Algumas paredes de pedra, outras caiadas, enormes vigas de madeira sustentando o teto, pé direito altíssimo, enormes janelas e um charmoso abalcoado dando para uma rua estreita, cheinho de flores. Volte no tempo e pense que um próspero comerciante, Don Leo, pai de duas filhas, há muitas décadas comprou essa casa de alguma família que outrora tivera muito dinheiro. Nesse casarão, viu as filhas crescerem, e uma delas apaixonar-se por um filho de camponeses, rapaz inteligente e talentoso. Nas aulas de violão, junto à cozinha, nasceu o namoro, que terminou em casamento. Mercê e Pepe tiveram, por sua vez, três filhas: Conche, María e Ángela. As filhas cresceram, tomaram seu destino, abandonando a pequena cidade encravada nas montanhas do Bierzo, e o casarão ficou vazio e grande demais para o casal de comerciantes, que se mudaram para uma casa menor e mais moderna. As três irmãs são amigas inseparáveis. Estudam, vivem na cidade grande, namoram, curtem a vida. Conche, a primogênita, vive um romance de conto de fadas com um jovem advogado. Fazem planos de casar-se. E vai que a vida, que parecia seguir um curso tranquilo, surpreende a todos. Um câncer lhe colhe a vida na flor da idade. Após alguns anos de luta contra a doença, a Jovem com semblante de Anjo e olhar doce, parte para uma outra jornada. A família fica desnorteada. A dor é profunda e quase devastadora. É custoso para cada qual retornar aos afazeres cotidianos, retomar os fios partidos das próprias vidas. Até que Pepe e Mercê têm uma ideia. Que tal reformar o casarão abandonado e convertê-lo num albergue para os peregrinos de Santiago? A velha casa, que parecia morta, ressurge, cheia de encanto e de luz. As filhas voltam de Madri. Retornam ao Lar, para recriá-lo. O Albergue na casa do velho Don Leo se torna muito mais que um lugar de hospedagem, é refúgio. É casa de acolhida e amparo. Muito mais que o conforto das instalações de um hotel, no casarão premiado pela reforma primorosa, o peregrino encontra ali o que há de mais precioso pelo Caminho: o milagre do Amor. O fogo da lareirinha da sala de estar, permanentemente aceso, é a metáfora perfeita do Carinho, da Atenção Amorosa e vigilante que Mercê, Pepe, María e Ângela dispensam aos peregrinos que têm a sorte de ali pernoitarem. Conche também está presente. É inspiração permanente para essa família que soube se reinventar por meio da Entrega, da Doação, do Amor.
Imagine, Minha Irmã, como me senti feliz e amparada nesses dois dias e meio em que estive nessa linda Casa. Fui tratada com o desvelo e o carinho com que papai, mamãe, você e Quel me teriam tratado. Me punham sentada em frente à lareira, mantinham o fogo aceso, me traziam balde com água quente para pôr os pés, me traziam gelo, me serviam café e chá (sem me cobrar nada por isso, apesar de eles terem um bar para esses serviços). Ángela fez um jantar para mim. Assou batatas, chouriços e castanhas na lareira. Pôs a mesa e comemos, eu, ela e María, na quinta-feira à noite. Além disso, depois que Miguel foi embora, me deixaram sozinha no quarto, por duas noites. Foi como se eu tivesse pagado por um quarto privado. Estive inteiramente à vontade. E Pepe ligou o aquecedor do quarto para ter certeza de que eu dormiria no quentinho. Enfim, foi um mimo de Deus, como gosta de dizer Tia Regina. E dos mais caprichados!
Na quarta à noite (21/10), conheci um jovem mexicano extremamente doce e alegre. Ele trabalha num escritório de empresa, mas é um pintor bastante talentoso. E você sabe como eu sou chata pra pintura contemporânea. Ficamos conversando até tarde, eu, ele, Miguel, María e Mercê. Estávamos tentando convencê-lo a investir no que realmente o apaixona, que é a pintura. Mário me fez pensar muito em quantas pessoas estão presas a uma zona de conforto, enquanto deixam o tempo da vida passar e levar embora a oportunidade de fazerem aquilo que realmente as realiza e enche seus corações de Alegria.
Repousei durante toda a manhã da quinta, na saleta com a lareira, sendo tratada como um princesa. Fiquei conversando com uma australiana que ficou 13 dias parada, em Logroño, por causa de uma tendinite braba. Deixe-me logo dizer que ao contrário de mim, que estou cuidando do pé desde os primeiros sintomas de tendinite, ela foi esticando a corda e minimizando os sintomas, até que não pôde mais caminhar. Ao menos ela parecia bem consciente e conformada. Entendeu que estava pagando o preço do orgulho e da arrogância, porque se recusou a refazer seus planos, a diminuir o ritmo da marcha, a reconhecer os próprios limites. Até que não teve mais opção. Agora, ela está retomando a caminhada aos poucos.
Miguel me convidou para almoçar. Acho que foi para retribuir o almoço que eu tinha feito na véspera, quando chegamos a Vilafranca. Fomos a um restaurante na Plaza Mayor, chamado Casino. Comida muito gostosa. Comi uns ovos mexidos com chouriço e maçã que estavam uma delícia, e uma carninha guisada de tempero bem caseiro. Após o almoço, ele foi ao Albergue buscar sua mochila para pegar o ônibus de volta para León. Miguel também está com uma tendinite, e como tinha pouco tempo para fazer o Caminho, decidiu voltar para casa. Ele estava fazendo a etapa entre León e Santiago. Eu descobri, aqui, que muita gente faz o Caminho por etapas, normalmente pela questão do tempo. Miguel estava triste de abandonar essa etapa do Caminho. Diz ele que existe a depressão pós-Caminho, que é para eu me preparar. Acabei pegando o ônibus com ele, porque queria voltar a Fuentes Nuevas, antes de Ponferrada, para procurar pela rua que tem o nome do pai de Carlos, marido da minha amiga Chrissy. Eu tinha passado por Fuentes Nuevas na caminhada até Pieros, só que não lembrava que era ali o povoado dos antepassados de Carlos. Como queria muito tirar uma foto diante da placa da rua, e ainda estava ali pertinho, resolvi dar um pulo lá. Me despedi de Miguel, desci do ônibus e me dirigi a um bar em frente à parada. A moça não conhecia a rua, mas foi gentilíssima e procurou no google maps pra mim. Facilmente cheguei à ruazinha, que é justo por trás da velha Igrejinha da cidade.
Tirei minhas fotos, fiz o caminho de volta para a rua principal, peguei meu ônibus de volta e quando desci em Villafranca del Bierzo e estava andando de volta para o albergue, uma peregrina que estava chegando à cidade me parou para pedir informações. Era uma brasileira, Susi. Estávamos caminhando para nossos albergues, quando passamos pela Colegiata. A porta estava aberta e decidimos entrar. Essa Igreja é um enorme edifício de pedra, de arcos arredondados no interior e imensas colunas de sustentação. Não tinha nenhuma placa explicativa, mas tive a impressão de uma mistura de estilos, porque ela tem alguns poucos arcos ogivais e nervuras tipicamente góticas no teto (que é trabalhado com seixos!), mas o restante do edifício parece românico. Não é uma Igreja especialmente bonita. É mais impressionante pelo tamanho. O altar principal certamente é de data bem mais recente, em mármore colorido. Não me agradou muito. No entanto, há alguns altares laterais de um barroco tardio. Um deles tem uma representação no centro que só tinha visto uma vez na vida (aqui no Caminho), com Deus Pai segurando Jesus na Cruz. Essa é uma imagem que me comove.   
Bom, após a visita à Colegiata, me despedi de Susi e voltei ao Albergue Leo. Lá estava uma massagista que também faz Reiki. Fazia dias que eu estava com a ideia de que devia fazer uma sessão de Reike. O problema é que já era tarde e ela ainda tinha duas pessoas para atender. Ela mora a 40 kms e se dispôs a vir no dia seguinte só para me atender. Detalhe, ela não cobra a sessão de Reike. Se a pessoa quiser, faz uma doação. Fiquei muito sensibilizada com o gesto de Mabel, que é o nome dela. Quando Mabel terminou suas massagens, Ângela preparou o jantar a que já me referi. Fui dormir feliz.
Nessa sexta-feira acordei tardíssimo. Já eram quase oito e meia quando me levantei! E passei o dia quase todo de pernas pro ar. Pus muito gelo. Fiz meditação. Almocei no albergue mesmo. Tinha sobrado um pouco da pasta que fiz a quarta e uns tomates. Preparei uma salada deliciosa, com castanhas da véspera, kiwi e aspargos. Enquanto comia, na salinha da lareira, bati um bom papo com Pepe! Ele é mais reservado que as mulheres da casa, mas conversamos animadamente. Pepe me contou muitas coisas sobre a região do Bierzo, falou sobre os tempos da Guerra Civil, da chegada da luz elétrica e da água encanada aos povoados do Norte da Espanha. Foi uma conversa muito instrutiva. No final da tarde, Mabel apareceu e fiz minha sessão de Reike. Foi a primeira vez em que fiz Reike e me impressionou muito como a gente consegue sentir a energia se movimentando no organismo, e os pontos de tensão. Adorei. E acho que me fez muito bem. Quando estava terminando a massagem, Susi, a brasileira da véspera, chegou para uma visita de surpresa. Foi ótimo, porque ela fez uma massagem com Mabel e me senti mais confortável, porque pelo menos fez a viagem de Mabel ”render” algo mais. Enquanto Susi fazia sua massagem, fui tomar meu banho.
Então, saímos, eu e Susi, para encontrar um casal amigo dela, um iraniano e uma austríaca, que trabalharam muitos anos para o FMI. Só que quando passamos pela Colegiata, ia começar uma missa. Eu e Susi resolvemos assistir à missa. Foi muito especial, porque a missa foi celebrada no secular coro esculpido em madeira (imagino que deve ser do século XVII, em estilo hispano-flamenco). A missa estava cheia com a população local, por conta do falecimento de uma senhorinha. Sentamos na parte superior do coro. E eu aproveitei para usar a misericórdia do meu banco, para poupar o calcanhar enquanto estava de pé. Após a missa, fomos jantar com Christina e Aziz no Casino (que eu recomendei). Na verdade, eles jantaram e eu só acompanhei no vinho, porque ainda tinha o resto da minha deliciosa salada me esperando no albergue. A conversa foi muito interessante. Conversamos sobre política internacional, e sobre o Brasil. Me dei conta de que ainda preciso aprimorar a arte do silêncio. Quando o assunto é Brasil, ainda tenho dificuldade de calar e ouvir.
E assim terminaram meus deliciosos dias em Villafranca del Bierzo, que me acolheu com uma magia que nunca esquecerei.
Saudades, Niquinha! Fica com Deus.
Beijos mil,

Léia

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 36


21/10/15

Boa Tarde, Nica!
Estou te escrevendo de uma cidadezinha mimosa, chamada Villafranca del Bierzo. Neste exato momento, estou sentada numa poltrona em frente a uma lareira, numa salinha de estar de uma casa centenária, que pertenceu aos pais de Dona Mercedez. Essa senhora é um amor de criatura. Decidiu transformar o velho casarão em um albergue para que as filhas voltassem a morar perto dela. O casarão foi todo reformado e mais parece um hotel do que um albergue. Do ponto de vista de conforto, sem dúvida, foi o melhor albergue em que fiquei hospedada até aqui. Porque além do ambiente requintado, Dona Mercedez e as filhas, Ángela e María, estão me tratando com uma atenção e um carinho que me fazem sentir em casa! Eles me trouxeram uma bacia com água quente e sal, para o pé da bolha, e gelo para o tornozelo inflamado (a tendinite).
Villafranca del Bierzo é uma jóia de vilarejo, instalada em meio às montanhas, à beira de um rio. A paisagem é bela e a cidade está muito bem cuidada. As torres das suas três ou quatro Igrejas se destacam contra a silhueta das montanhas. Amei. Resolvi ficar aqui por pelo menos duas noites, para dar um descanso ao meu calcanhar.
Deixa eu voltar para o dia de ontem. Eu tinha dormido em Ponferrada. Foi uma boa noite de sono no albergue Alea. São raros os albergues em que se dorme com lençóis limpos. Geralmente os albergues não trocam a roupa de cama. Só dão uma esticadinha. Por isso que todo mundo anda com seu saquinho de dormir. Eu, além do saco de dormir, uso lençol e fronha descartáveis. Até aqui, só fiquei em três albergues com lençóis limpinhos: o Albergue Verde, o Alea e esse em que estou agora, o Leo. E posso te dizer que é uma delícia dormir numa cama com lençol limpinho! Mais uma dessas coisas corriqueiras de que a gente não se dá conta da importância que têm na vida cotidiana.
Além de dormir bem, tomei um farto café da manhã no albergue. No Alea, reencontrei um casal americano que havia conhecido em León, e conheci um jovem capixaba, Rafael. O trio me lembrou meu período de caminhada com Norma e Tom. Rafael foi meio adotado por Teresa e o esposo. Estão caminhando juntos. Hoje, encontrei-os novamente nas ruas de Villafranca del Bierzo. É uma sensação tão boa quando a gente reencontra alguém que viu três, quatro, ou vários dias antes, em algum ponto do Caminho!
Ah! Na noite anterior, Teresa estava numa conversa animadíssima com Svetlana, uma jovem alemã que eu tinha conhecido em Acebo (o hotel-albergue). As duas conversavam sobre sistemas de saúde pública, diferenças entre Europa e Estados Unidos, sobre a dívida da Grécia e as questões de fronteira e Imigração. Ouvi toda a conversa sem dar nem um pitaco! Fiquei tão feliz comigo mesma. Estou fazendo o propósito de ouvir mais e falar menos. Uns meses atrás, não tinha qualquer possibilidade de eu ouvir uma conversa dessas – ainda mais que elas me incluíam no papo, com os olhares – e não emitir firmes opiniões a respeito. Pois ontem, por incrível que pareça, fiquei só escutando, aprendendo e matutando. Quando a gente não entra na discussão, a escuta é diferente, o aprendizado é outro. Não deixa de ser um exercício de humildade. Pois ando empenhada nele.
Bem, ontem fez um belo dia de sol! Nem parecia que tinha chovido tanto na véspera. Comecei minha caminhada contente e agradecida pelo céu azul, salpicado por uns fiapos de nuvens. Do albergue à saída de Ponferrada fui passando pelos pontos de interesse histórico. A cidade tem um grande castelo dos Cavaleiros Templários. É um edifício impressionante, até pelo porte. Ainda estava fechado e achei que não valia à pena esperar que abrisse. Fiquei observando e notei que o castelo sofreu intervenções e reformas recentes e não muito criteriosas. Vê-lo por fora me pareceu de bom tamanho. Me lembrei muito de Tomar, em Portugal, que também é um castelo Templário, e me pareceu mais autêntico, justamente por não estar inteiro e perfeito, deixando evidentes as marcas do tempo e da história.
Ponferrada não é uma cidade particularmente bonita, a não ser pela paisagem montanhosa em volta, e pelo portentoso castelo. A Basílica de la Virgen de La Encina tem uma alta torre de pedra, sem muito charme. Diz que é do século XVI, mas me pareceu mais um edifício modificado por intervenções recentes. O que mais me encantou nessa Igreja foi um Cristo crucificado de traços simples e longilíneos, bem característicos de uma arte sacra ainda medieval. A Basílica fica numa dessas praças quadrangulares. Parei para tomar um café num bar cujo dono era uma simpatia. Saí um pouco do Caminho para ir ver a Torre del Reloj (sec XVI), sob a qual está um arco que dá acesso à praça onde se encontra o prédio do Ayuntamiento. Essa praça estava cheia de estudantes que saíam de algum colégio. Nada muito especial, contudo. Retomei o Caminho e depois que deixei para trás o centro histórico (cruzando um belo rio, onde se viam as montanhas do entorno espelhadas na água), andei ainda muito tempo dentro da área urbana de Ponferrada, fiz compras num supermercado, e finalmente cheguei a uma alameda arborizada, que me levou a um povoado periférico, chamado Compostilla. Atravessei uma vizinhança bem bonita, com muitas árvores e belas casas, várias delas com placa de Vende-se. Lembrei que um dia desses algum peregrino americano comentava que toda a Espanha parecia estar à venda. De fato, esse é um sinal evidente da crise que ainda afeta os espanhóis. Em Compostilla, a Igreja de Santa María me chamou a atenção porque nas paredes internas há umas pinturas que parecem reproduzir figuras do Panteón, de León (lembra?).
Toda a caminhada de ontem foi bem bonita. O céu se pôs inteiramente azul, sem uma nuvem no céu. Caminhei por entre hortas e campos arborizados, sempre com uma cadeia de montanhas à minha frente, na linha do horizonte. Muitas árvores estão inteiramente amarelas, e o contraste com o azul intenso do céu, realmente é muito bonito. Cruzei dois pequenos povoados, Columbrianos e Fuentes Nuevas (o pai de Carlos, marido de Chrissy, é desse povoadozinho). Por sinal que parei num banquinho de Fuentes Nuevas para fazer um lanche. Todas as cidades da etapa de hoje eram pertinho umas das outras. Pouco mais à frente cheguei a uma cidade chamada Camponayara. Cidade mesmo, com certo porte, e sem nenhum encanto.
Depois de Camponayara a paisagem ficou ainda mais linda. Comecei a atravessar uma zona de vinhedos, chamada El Bierzo. Com o outono, as parreiras estão super coloridas: verde claro, amarelas, laranjas e vermelhas. Como é uma área montanhosa, elas sobem pelas colinas. Esse trecho do Caminho me encantou, com as parreiras coloridas, as árvores vestidas de amarelo, às vezes formando alamedas, que ensobreavam a estrada, dando um alívio do sol, que estava bem quente, e comprida silhueta das montanhas ao lado ou à minha frente.
Assim foi até chegar a Cacabelos, que é uma gracinha de povoado. Adorei o ambiente, as ruas estreitas, com casinhas antigas, com varandas de madeira sustentadas por pilastras certamente seculares. Algumas delas parecem atingir um equilíbrio improvável, dando a impressão de que a qualquer momento vão desabar. Outras dessas varandas estão cheinhas de flores coloridas ou trepadeiras. Um lindo gramado, pontuado de árvores, se estende ao longo do rio que corta a cidade. Muito fofa a cidadezinha. Amei. É um desses lugares em que eu teria ficado, caso estivesse carregando minha mochila.
Infelizmente, tive de seguir adiante, porque tinha mandado minha mochila para a próxima localidade. Pieros fica a menos de quatro quilômetros de Cacabelos, porém, me custou uma eternidade para chegar, pois meus dois pés estavam me incomodando. Um deles com a tendinite, o outro com uma bolha que cresceu ao lado da antiga. Pieros, meu destino, é um povoado de nada. Lá tem a tal pousada que Mincho me havia recomendado, El Serbol y La Luna. Estava particularmente interessada nas massagens de que falava o panfletinho. Pensei também que seria uma atmosfera semelhante à do Albergue Verde. Resulta que não era tão agradável pela falta de espaço mesmo. A energia da galera era bem legal, porém, o albergue é meio apertadinho. De todo modo, valeu demais. O jantar, vegetariano, estava uma delícia. E como o albergue é pequeno, éramos poucos peregrinos. Logo, a hora da comida foi uma grande confraternização. Havia alemães, australianos, franceses, belgas, um holandês e uma americana. Como ouvi uma peregrina dizendo certa vez: O Caminho é mais internacional que as Nações Unidas.
No jantar conheci uma francesa, Hélène, que está fazendo o Caminho pela segunda vez. Da primeira vez, ela fez o Caminho em agradecimento, porque teve um problema sério nos joelhos e chegou a ficar numa cadeira de rodas. Quando ela me contou isso, meu coração se aqueceu. Eu disse a ela que também estou fazendo o Caminho em agradecimento por uma Graça que tenho certeza de fé de que receberei! E será até 15 de janeiro.
Bati muito papo com um senhor holandês, Harm, e a moça americana, que é enfermeira! Ela foi um anjo que Deus mandou para me ajudar. O calcanhar direito, da bolha, tinha voltado a me incomodar (e muito) durante a caminhada do dia. O problema é que se formou outro abcesso, mas no lado mais externo do calcanhar, numa área que ficava super sem jeito pra eu furar ou fazer qualquer coisa. Laura cuidou do calcanhar pra mim. Furou, tirou todo o líquido (estava meio escuro, como se tivesse feito um calo de sangue), mandou eu colocar o pé na água quente com sal, e, hoje de manhã, ela não só colocou uma pomada antibiótica como me deu o tubo de pomada! E me recomendou que protegesse bem o calcanhar para a caminhada.
Bom, dormi bem aquecida, portanto, tive uma boa noite de sono. Tomei um bom café da manhã e retomei minha caminhada, mas para fazer apenas 6 kms. Atendendo aos seus conselhos, Minha Irmã, decidi ir apenas até Villafranca del Bierzo, para não exigir muito do tornozelo, e avaliar a necessidade de repousar um dia nessa cidade.
Hoje fez mais um belo dia de sol e céu espelhado, deslumbrante de azul. Porém, fez um pouco mais de frio. A paisagem entre Pieros e Villafranca del Bierzo é ainda mais linda! Caminhei subindo, portanto, fui adentrando pelas montanhas, cobertas de parreirais com o colorido que descrevi acima. Tão lindas as encostas coloridas de amarelo, laranja e vermelho, com as montanhas ao fundo! Ao longe, eu podia ver que os vales ao pé das montanhas estavam encobertos por uma tênue névoa. Às vezes os parreirais cediam lugar à vegetação agreste, com árvores e arbustos igualmente tingidos pela paleta de cores do outono. Passarinhos faziam uma grande algazarra. Pena que em meio à paisagem bucólica houvesse, em alguns trechos, grandes torres de energia elétrica. Cruzei apenas o pequeno e gracioso vilarejo de Valtuille de Arriba, e antes que eu pudesse me cansar, avistei a cidade de Villafranca del Bierzo encravada entre as montanhas. De longe já podia vislumbrar suas várias torres de Igreja. À entrada da cidade, parei num banquinho para comer umas frutas que tinha apanhado pela beira da estrada (as macieiras estão carregadas) e um membrillo, uma fruta estranha, que parece uma pera por fora, mas é mais dura e azedinha. As árvores de membrillo estão carregadas e as há em abundância nesse trecho do Caminho. Emanam um perfume adocicado que estava me deixando curiosíssima. No albergue de Pieros, me deram um de presente.
Estava eu sentada num banquinho, comendo minhas frutas, quando chegou Miguel, um espanhol que havia dormido no mesmo quarto que eu, em Ponferrada. Ele tem um desses aplicativos do Caminho e estava verificando as informações dos albergues. Eu havia mando minha mochila para La Piedra, mas me convenci de que o Leo era uma melhor opção. Dito e feito. De cara fiquei encantada com o albergue Leo. A casa, antiga, tem uma fachada charmosíssima, branquinha, com varandas de madeira e flores. A madeira do teto é aparente (grossas vigas que denunciam os muitos anos de idade). Nos registramos e fomos buscar minha mochila no outro albergue.
Ângela, uma das filhas de Dona Mercedez, nos colocou no que ela considera o quarto mais bonito do albergue, onde dormia sua mãe. Uma gracinha! Tenho estado a tarde toda descansando, de pé pra cima. Havia passado no mercado e fiz uma massa com cogumelos, e uma salada, para o almoço. Miguel comeu comigo, na cozinha do albergue. E agora estou aqui, nesse bem bom. Amanhã há de ser a mesma coisa. E aí veremos como respondem os pés.
Por ora é isso, Niquinha. Como diz o Zé Simão, agora, só amanhã.
Beijos mil!

Léia    

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 35


19/10/15

Boa noite, Minha Irmã!
Caminhando nas nuvens. Foi assim o dia de ontem. Uma neblina densa cobriu as montanhas por onde caminhei, praticamente o dia todo. Chovia fino e pouco, logo, uma chuva que não incomodou quase nada. A verdade é que essa neblina espessa deu um ar meio mágico à paisagem. Foi um belo dia de caminhada, entre Rabanal e Acebo.
Dormi super bem, com dois cobertores e a casa aquecida. Quase que me faltava coragem para levantar quando o despertador tocou, às sete horas da manhã. Uma pena que eu tenho de preparar a mochila para ser despachada, porque se não fosse isso, dificilmente teria saído da cama antes das nove. Bom, me organizei, tomei café ainda conversei um pouco com o casal mineiro, fiz uma massagem nos pés, numa cadeira de massagens (dois euros) e me despedi da gracinha de Dona Ângela. Caminhei pela rua principal da pequena cidade, ainda fui verificar se a Igreja estava aberta (negativo) e parei num bar quase na saída de Rabanal, para usar o sinal de internet e poder dar notícias para mamãe.
Já peguei a estrada com muita neblina. Só dava para enxergar alguns metros à frente. Segui por uma estradinha de terra cercada de mato. Muitas samambaias e uns arbustos verdes que parecem um tipo de pinheiro em miniatura. As samambaias estavam lindas, amarelas e alaranjadas. Se destacavam muito sobre o fundo branco da névoa. Em alguns pontos, a vegetação se projetava sobre o caminho, deixando a passagem bem estreita. Passei por bosques de pinheiros enredados na névoa branca. Fazia frio, mas estava encantada com o efeito da névoa, e curtindo o perfume gostoso da terra molhada. A caminhada do dia foi quase toda de subida do Monte Irago. Em alguns trechos, dava para ver, por entre a névoa, a silhueta das outras montanhas em volta.
Passei por um vilarejo chamado Foncebadón. Parei no restaurante La Taberna de Gaia, muito recomendado por Marisa e Carlos (do Gaia). A Taberna é um restaurante com ambientação medieval, muito interessante. Ainda era cedo (umas doze e meia) e quase desanimei quando vi a plaquinha que anunciava almoço a parti das 13:30h. Resolvi bater na porta que estava fechada porque vi luzes acesas pela cortina das janelas. O dono, um senhor de barba bem cheia, veio abrir e me convidou para entrar. Estavam começando o expediente. Ainda não estavam prontos para servir refeições, mas podiam me servir uma sopa. Adorei a ideia, porque o dia estava bastante frio. Tomei um delicioso creme de abóbora e um chá digestivo, com um pedacinho de uma deliciosa torta de chocolate com biscoito Maria.
Alimentada e aquecida, retomei a estrada. Dois quilômetros depois, cheguei ao ponto mais alto do Monte Irago, onde fica a Cruz de Ferro. Trata-se de uma coluna bem alta, com uma cruz de ferro na ponta. A coluna de madeira se assenta sobre um monte de pedras. Acho que milhares de pedrinhas, fitas, fotografias, conchas e outros objetos deixados pelos peregrinos se amontoam em torno da coluna, ou ficam amarrados nela. Originalmente, os peregrinos colocavam ali sua pedrinha para que fossem protegidos de todos os perigos até chegaram a Santiago. Atualmente, a crença é de que ao depositar uma pedra aos pés da cruz, o peregrino está deixando ali todos os pesos que carrega na alma. Depositei uma vieira pequenininha, que vinha trazendo amarrada à minha mochilinha, em agradecimento pela graça que sei que alcançarei. Ao lado da Cruz há uma Ermida, mas estava fechada. 
Continuei caminhando em meio à névoa, enxergando cada vez menos o caminho à minha frente. Ouvi sinos de vacas, ou outro animal, que eu não conseguia ver. Até que cheguei a Manjarin, povoado de um só habitante. Para ser sincera, nem devia constar no mapa como se fosse um povoado. Tudo que existe em Manjarin é um refúgio, uma velha e meio destruída casa de pedra, onde vive um sujeito que pertence a uma “Ordem” contemporânea de Templários (pelo que eu pude perceber, não há nenhuma conexão histórica direta com a Ordem dos Templários, a não ser a vontade de resgatar essa tradição). O refúgio é um grande bricolage de objetos, bandeiras, santinhos, imagens, referências aos Templários. Sobre uma mesa, duas garrafas térmicas, com café e água quente (supostamente). O peregrino pode se servir e deixar um donativo. Meio receosa, porque as garrafas pareciam tão velhas como os castelos templários, me servi de um pouco de café, pra não fazer desfeita ao rapaz que me recebeu.
Na saída desse refúgio, encontrei com um senhor que vinha chegando para recolher sua mochila. Pensava que ali era um albergue. Eu não disse nada, mas fiquei pensando que ele teria uma surpresa pouco agradável. Aquele refúgio não tinha a menor condição de hospedar um peregrino. As condições do lugar eram bem precárias.
Continuei minha caminhada por entre a névoa, os arbustos, as samambaias, os pinheiros verdinhos e algumas árvores coloridas de amarelo. Em alguns trechos eu via a silhueta das montanhas bem à minha frente, com a névoa cobrindo-as parcialmente. A sensação era de que eu estava andando em direção ao céu. Tão bonito. Como te disse, estava tão encantada com o cenário, que nem liguei muito pro frio ou pra chuvinha fina. Essa chuvinha fina não me incomoda. O único problema é que a capa impermeável esquenta por dentro e acaba que o calor condensa o ar dentro da capa. Então a roupa termina ficando um pouco molhada, não pela chuva, mas pelo abafado. Já escolada, ponho meu computador e papéis dentro de um saco plástico, dentro da mochila, que fica molhada por fora.
Após uma curva da estrada, avistei, um pouco abaixo, encravado nas montanhas, o povoado de Acebo, onde deveria passar a noite. Nessa altura, o senhor da mochila me alcançou. Quando viu as condições do refúgio templário, resolveu seguir até Acebo. Ele é canadense e falava pelos cotovelos. Foi conversando (bem dizer um monólogo, porque eu basicamente só concordava com o que ele dizia) até chegarmos ao albergue. Tivemos uma descida bem acentuada pela frente, numa estradinha de terra e pedras soltas. Caminhei com cuidado e lentamente.
Acebo é um povoado de nada, com suas casinhas de pedra. No final, após as últimas casas, tem um hotel La Casa del Peregrino, que é também albergue. É um lugar organizadíssimo, novo, limpo, super estruturado. São instalações de um bom hotel, na realidade. Um verdadeiro luxo considerando-se os albergues do Caminho. Dormi no quarto com o canadense, uma coreana e uma jovem alemã. Dormi muitíssimo bem, com dois cobertores, numa cama bem confortável. De novo, nem queria acordar. Esse hotel, assim como o albergue de Dona Ângela, tem um horário bem flexível, coisa que eu adoro, por não me obrigar a acordar às seis da matina e estar na rua às oito.
Tomei um lauto café da manhã. Foram os quatro euros mais bem pagos de todo o Caminho. Durante o café fiquei conversando com um rapaz alemão que fez um pouco como eu. Largou o emprego, vendeu o carro e os móveis e vai passar dois anos viajando pelo mundo. Ele começou fazendo o Caminho de Santiago e depois quer ir para a Patagônia. História semelhante à de muitos peregrinos que eu tenho encontrado: excesso de trabalho, muita correria e necessidade de resetar a própria vida, de modo a se reencontrar e encontrar um estilo de vida que traga maior satisfação e alegria. Só que no caso dele percebi nas entrelinhas que o gatilho foi o rompimento de uma relação amorosa.
Fui a última peregrina a deixar La Casa del Peregrino. Havia chovido muito durante a noite e estava tudo molhado. Quando comecei a andar, caía uma chuva um pouco mais forte que a de ontem, mas ainda assim era uma chuva suave. A neblina continuava cobrindo as montanhas. Só que foi descida praticamente o dia todo! E descida em meio a pedras lisas e pontiagudas. Andei com o máximo cuidado, e bem lentamente, porque nem queria cair, nem forçar meus joelhos. Cosme e Damião foram imprescindíveis hoje! Não sei o que seria de mim sem eles.
Poucos quilômetros depois de Acebo cheguei a uma gracinha de vilarejo, chamado Riego de Ambrós. Algumas casinhas de pedra, outras de alvenaria com lindas varandas de madeira, que me lembraram as casas mais antigas de Nova Orleans, justamente de influência espanhola. Aliás, pensando bem, elas lembram a varanda do Mourisco de Olinda. Na saída de Riego de Ambrós devo ter me distraído, e pela primeira vez desde que comecei o Caminho perdi a orientação das flechinhas amarelas. Em lugar de retomar a estradinha de terra e pedra que deveria seguir pelo meio do mato, segui andando junto de uma estrada de asfalto. Quando comecei a sentir falta das flechas já estava a uma certa distância do vilarejo. Ainda pensei em voltar, porém, a essa altura a chuva começou a engrossar e como a estrada descia, estava certa de que a direção estava correta. Resolvi seguir pelo acostamento. A estrada tinha pouco movimento e era até bonita, toda ladeada por castanheiras. As castanheiras (da castanha portuguesa, creio eu), são árvores frondosas e estão dando fruto agora. A castanha nasce dentro de uma casca que parece um ouriço. A casca se abre e as castanhas caem pelo chão. O acostamento estava cheio de ouriços e castanhas. Um desperdício. Em certa altura vi um senhorzinho com um balde, catando as castanhas da beira da estrada.
Não andei muito pela beira da estrada, porque em certo ponto o Caminho cruzava a estrada de asfalto e pude, então, retomar as minhas flechinhas. A essa altura, é estranho caminhar sem a companhia delas. Voltei a andar pela estradinha estreita e pedregosa, em meio ao mato. A caminhada é mais difícil, porém, muito mais agradável. A descida até a cidadezinha de Molinaseca foi a parte mais delicada da caminhada de hoje. O terreno era muito íngreme e muito pedregoso! Fui realmente devagar. Todos os peregrinos passavam por mim, e eu, no meu passinho de formiga. Devagar e sempre, pois quero chegar a Santiago e quero chegar bem.
Molinaseca também é um amor de vilarejo. Maiorzinha e mais viva do que Riego de Ambrós, tem uma bela ponte de pedra, cruzando o rio que banha a cidade. Mais casinhas avarandadas, super charmosas. Entrei numa bodeguinha para descansar um pouco, verificar o mapa e usar o banheiro. Conheci três rapazes espanhóis que tinham passado por mim na descida até Molinaseca. Uma simpatia. A dona da bodega era extremamente amável e se percebia sua grande simpatia pelos peregrinos. Saí de Molinaseca debaixo de forte chuva. Minhas meias, que até então estavam aguentando firmes, começaram a ficar molhadas. O Caminho seguiu junto à rodovia, mas a dada altura desviava para a esquerda para chegar a Ponferrada pelo Oeste. No entanto, meu albergue ficava no lado Leste de Ponferrada. Como chovia muito e eu estava ficando com os pés encharcados, decidi seguir acompanhando o asfalto. A distância era praticamente a mesma, só que eu chegaria à cidade mais perto do meu destino final. E assim fui. Bem sem gracinha esse trecho entre Molinaseca e Ponferrada por essa estrada vicinal, mas, paciência. Só casas e asfalto. Molinaseca me pareceu ser quase um subúrbio de Ponferrada, que é uma cidade bem grande, com quase setenta mil habitantes.
Cheguei a Ponferrada mais aborrecida com a chuva, o frio e os pés encharcados do que propriamente cansada. Estou enfaixando meu pé direito bem direitinho e por cima da faixa coloco uma tornozeleira. Hoje ele aguentou bem o tranco. Ainda está dolorido, mas o inchaço é leve e está sob controle. Não vem aumentando. A bolha do calcanhar secou inteiramente. Na realidade, uns quatro dias atrás vi que tinha formado uma bolha dentro da bolha. Aí resolvi tirar a pele. Cortei com o alicate e protegi bem antes de caminhar, nos últimos dias. Hoje ela amanheceu bem sequinha.
Bom, ainda não vi nada de Ponferrada. Tem um Castelo dos Templários, que eu quero muito visitar, mas chovia tanto quando eu cheguei, que eu só quis saber de tomar banho e ficar no quentinho e no seco. Não tive mais coragem de pôr o pé na rua. Custei a achar meu albergue dessa vez. Pedi orientação num posto de gasolina e me mandaram pra outro albergue. Rodei um pouco, mas afinal encontrei o rumo. É um albergue muito bonzinho, familiar. Chama-se Alea. Conheci um brasileiro aqui, Rafael, do Espírito Santo. Creio que vá dormir bem. Só tem mais duas pessoas no meu quarto, e estou na cama debaixo. Tem várias cobertas aqui.
Nica, acredita que eu já andei 573 kms???!!! Só me faltam 207 kms para chegar a Santiago! Um dia desses papai me perguntou pela quilometragem, e eu tinha feito pouco mais de duzentos. Deus me permita chegar ao final direitinho! Amanhã pretendo ir até Pieros. A cidade não tem nada, mas Mincho me recomendou um albergue bem legal, com massagem, meditação. Se for mesmo legal, vou ficar dois dias, para dar um descanso ao pé. É isso, Minha Irmã. Vou comer uma coisinha leve agora e verei se me deito mais cedo hoje.
Muuuuuitas saudades!
Beijos no coração,

Léia 

domingo, 18 de outubro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 34


17/10/15

Niquinha, Querida,
Acordei cedinho como costuma acontecer nesses albergues grandes, com muita gente e hora marcada pra evacuar o lugar! No café da manhã, conheci mais duas brasileiras, mãe e filha. São do Sul e já fizeram o Caminho várias vezes. Estavam falando sobre um encontro de brasileiros que aconteceria ontem mesmo, no final do dia, em Astorga. Eles deveriam se encontrar e caminhar juntos até uma cidadezinha próxima, onde mataram a moça americana, para fazer uma homenagem a ela. Me convidaram para ficar e participar do encontro. Mas já parei demais nos últimos dias e acho que devo guardar os dias extra para alguma necessidade ou por alguma razão muito especial. Meu limite para chegar a Santiago é dia 6, porque Dani chega a Madri dia 7 de novembro e devo encontrá-la por lá. Vamos viajar pela Andaluzia, que eu sonho em conhecer. Estou muito feliz com a vinda dela.
Em todo caso, meu coração não me pediu pra ficar em Astorga. Renata e o marido (o casal mineiro) também chegaram ao refeitório para tomar café, e ficamos conversando animadamente na cozinha do albergue, até a hora do toque de partir. Eu comi pouca coisa na cozinha do albergue porque estava de olho num chocolate quente de uma pastelería próxima. Pelo que percebi, Astorga tem uma tradição de chocolate. Até comprei uma barra de uma chocolatería local (chocolate negro com casca de laranja caramelizada), muito gostosa. Tomei meu chocolate quente e peguei a estrada.
Comecei a andar numa manhã fria e nublada. Aos poucos o céu foi abrindo e à tarde chegou a fazer um pouco de calor. Caminhei a maior parte do tempo por uma picada paralela a uma estrada vicinal, com pouco movimento de carros. Apesar de termos começado a subir, a paisagem não teve maiores atrativos até passarmos pelos dois primeiros povoados (Murias de Rechivaldo e Santa Catalina de Somoza). Ladeando a picada, apenas arbustos e vegetação rasteira. Ao longe, de vez em quando, se avistavam os picos da cadeia montanhosa que comecei a atravessar. Nos vilarejos, a feição das casinhas mudou. São quase todas de uma pedra pesada e angulosa. Telhados também de pedra.
No vilarejo de El Ganso parei num mercadinho super simpático. Mercadinho e pousada que pertencem a um casal. Quando entrei na pousada (procurando o mercado) tocava uma versão linda da Ave Maria de Gounot, e um incenso queimava sobre a mesa. No mercadinho tocava uma versão instrumental de uma música que eu adoro (Então minha alma canta a ti Senhor, quão grande és Tu, quão grande és Tu...). O mercadinho era super organizado e a dona uma gracinha. Se eu não tivesse mandado minha mochila pradiante, acho que teria me abancado por ali. Comprei uma paella pronta, que a senhora esquentou pra mim no micro-ondas, comprei tomate, fiz uma saladinha no prato que ela me emprestou e comi na varanda da pousada. Como estava andando muito lentamente, sabia que chegaria ao meu destino mais tarde que o habitual, e estava com fome.
O último trecho da caminhada foi bem bonito. A linha das montanhas foi ficando mais próxima, e passei a caminhar primeiro à beira de um bosque de pinheiros, e depois, em meio a um bosque com árvores coloridas de amarelo e laranja. Do lado direito, uma extensa cerca de arame estava repleta de cruzes de madeira -- deixadas pelos peregrinos--, de todos os tamanhos e jeitos, várias delas enroladas em fitas coloridas. A estradinha pelo meio do bosque era uma suave subida. A essa altura o tempo estava bem nublado e a luz do sol furava as nuvens, aqui e ali, iluminando as montanhas. Pouco depois do fim do bosque com as cruzes cheguei, finalmente, ao meu destino, Rabanal del Camino.
A verdade é que caminhei muito lentamente por causa da tendinite (a boa notícia é que a bolha do calcanhar está praticamente curada). Meu ritmo caiu consideravelmente. Levei o dia inteiro para fazer 21 kms. E cheguei bem cansada. Ainda bem que o albergue era bem na entrada. Dona Ângela, a proprietária, é uma gracinha de pessoa! Um doce de senhorinha. Me recebeu super bem e me instalou no mesmo quarto do casal mineiro! Uma das melhores coisas dos albergues privados é que eles são bem mais pessoas e aconchegantes. Instalei-me, tomei meu banho e andei poucos metros até um mercadinho, só pra comprar comida. No caminho, entrei na Ermida de São José, que tem um belo retábulo barroco no altar, e fiz uma oração. Mas não tinha condições de andar mais nada. Voltei pro albergue e fiz meu lanche no refeitório, que tinha uma deliciosa lareira. O albergue estava com o aquecimento ligado! Uma felicidade pra mim. Após comer, me instalei com o computador numa das mesas e estava refazendo minha programação de chegada a Santiago (pensando em trechos um pouco mais curtos, pra ver se eu mantenho a tendinite sob controle), quando chegou Moïse, um rapaz da Costa do Marfim, que é professor universitário na França. Ele mora em Toulouse. Ficamos um tempão conversando. Depois dele chegou Henrique, o paranaense, que mora há muitos anos em Rondônia. Também passei horas conversando com Henrique. Ambos estão fazendo o Caminho pela necessidade de repensarem a própria vida. No fundo, desejam fazer o processo de reset do próprio modo de vida, dos hábitos, das prioridades. Tivemos boas conversas e eu partilhei com eles minhas descobertas no meu processo de reset.
Disse aos dois aquilo que já escrevi para você: que o coração sabe todas as respostas; ele sempre sabe o que devemos fazer para vivermos em paz e sermos felizes; o problema é que a mente vem e traz os medos, os traumas, as convenções sociais, e aí o que era para ser simples fica complicado. Moïse está caminhando 45 kms por dia! Ou seja, ele está reproduzindo no Caminho o comportamento condicionado que faz com que sua rotina seja incessante, corrida, estressante, e sempre muito planejada. Estava tentando mostrar a ele que o exercício de abrir mão do controle é extremamente salutar. Ele me dizia que é muito difícil abrir mão do controle, do planejamento, das metas. Eu sei que é, mas, se a gente não tentar fazer diferente, é impossível quebrar o círculo vicioso (da própria mente). A questão é que o planejamento e a rotina nos dão uma falsa sensação de segurança, da qual é difícil desapegar. Moïse riu muito comigo e me prometeu que iria tentar. Acho que consegui lançar uma semente o espírito dele. Tomara que frutifique. Troquei contatos com ele e com Henrique. Moïse me convidou para ir a Toulouse e à Costa do Marfim.
Bom, o dia foi comprido e cansativo. Mas é assim mesmo. Tento viver um dia de cada vez. O Caminho está realmente desafiando minha paciência, ou, melhor dizendo, me obrigando a exercitá-la. Paciência e entrega. Pois, como diz Mincho, a gente só pode ter certeza do presente. O resto, é como Deus quiser. Mais um dia vencido. Agora, só peço que amanhã eu consiga chegar ao meu destino.
Beijo no coração,

Léia 

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 33


16/10/15

Nica, Querida!
Deixei Hospital de Órbigo para trás com muita dó. Incrível como o Albergue Verde é acolhedor e convidativo. Após meu lauto café da manhã, com direito a figos frescos, colhidos de uma figueira ao pé da casa, tomei meu rumo. A manhã estava geladíssima. Devia fazer uns dois graus. E olhe que já eram dez da manhã quando cruzei o portão cercado de hera. Entre Hospital de Órbigo e Villares de Órbigo (Órbigo é o nome de um rio que cruza a região), caminhei por uma estradinha de terra, junto a um enorme milharal. Estava eu caminhando ali, sozinha, quando vi um senhorzinho pequenino, de cabeça branca, que vinha numa bicicleta. Ele parou para dar alguma informação a um carro que passava, e quando eu me aproximei, ele me estendeu um lírio do campo, amarelo, recém colhido, e me desejou Buen Camino. Fiquei tão surpresa quanto feliz com aquele gesto.
Segui adiante mais animada. Passei por um bonito bosque de altas árvores bem à entrada de Villares, cruzei o vilarejo de uma única rua sem deter-me e continuei a caminhada por uma estradinha de terra branca. Pelos lados, apenas mato. Na verdade, uma vegetação rasteira, com arbustos e árvores salpicados. A grama ainda estava coberta pelo orvalho da manhã e refletia a luz do sol, como se fosse um espelho. Lindo demais. Ao longe, algumas árvores inteiramente amarelas pelo outono, davam um colorido especial à paisagem. À medida que o dia foi avançando, o azul do céu foi ficando mais intenso, e os contrastes com o colorido da vegetação, mais bonitos. Comecei uma subida íngreme, e olhando para trás podia ver, no vale embaixo, os contornos de Hospital de Órbigos.
Cruzei um outro pequeno povoado (Santibanez de Valdeiglesia), e logo depois me deparei com um canteiro de obras. Estradas estão sendo abertas e passei a caminhar em meio à terra vermelha, rasgada pelas máquinas. Subi colinas, cruzei bosques, andei por estradinhas ora nuas de vegetação, ora ladeadas por bosques coloridos de verde e amarelo, até que cheguei numa espécie de descampado. Ao longe avistei o que parecia ser uma barraquinha de comida. Quando me aproximei, vi pessoas sentadas num banquinho ao pé do muro, debaixo de uma coberta de madeira, duas rapazes se divertiam com um bambolê, e outras pessoas comiam, junto de um carrinho cheio de sucos, frutas, biscoitos. Por trás de um pequeno muro, havia um grande pátio, com um sol desenhado com pedras no chão. Nas pontas dos raios de sol, videiras ainda novinhas. Ao final do pátio, ruínas de uma casa. O lugar se chama Casa de Los Dioses. David e Susi, um espanhol e uma australiana, moram nessas ruínas e recebem os peregrinos com esses quitutes. Tudo de graça. Uma caixinha de doações fica ao lado do carrinho. Assim como Mincho, ouvi Davi dizendo a um peregrino que lhe perguntava quanto custavam as coisas, que havia a caixinha de doações, mas que só colocassem ali qualquer coisa, se fosse de todo o coração, que o importante para eles é a boa energia do Amor. Além do carrinho de comidas, ele e Susi estavam assando legumes e biscoitos, num forno à lenha que construíram dentro da casa.
Eu entrei no pátio e fiquei sentada, contemplando o sol de pedra e sentindo a energia desse lugar tão especial. Não consigo deixar de me comover com a entrega e a doação de pessoas como Mincho, Susi, David, o senhor do Hospital de Almas.... é lindo demais como essas pessoas abrem suas vidas, suas casas, seus corações para acolher quem passa pelo Caminho. Depois de ficar um bom tempo sentadinha na murada, contemplando e orando, me dirigi até a casa e fiquei conversando com Susi e com uma outra moça, americana, creio. Susi nos contava como chegou até ali, como passou três meses no Hospital de Almas e ajudou a redecorar o pátio dos fundos (o que são as coincidências do mundo), e como a simplicidade é desafiadora. Imagino mesmo! Além do fogão de lenha, nas ruínas onde eles moram, há alguns armários e uns colchões no chão. Eles pegam água do rio, lenha no bosque, e vivem assim, com o que Deus dá. De uma coragem absurda! Me comovi profundamente com Susi. E uma das coisas que ela disse que mais me chamaram a atenção foi que ali, longe de tudo e vivendo na mais absoluta simplicidade, a pessoa não tem outra alternativa a não ser se confrontar com ela mesma. A pessoa não tem nada como desculpa e se dá conta de que todo sofrimento e frustração se origina dentro de si mesmo.
Comi meia romã, provei dos legumes assados, dos biscoitos, saboreei uma geléia de tomate bem gostosa e tomei um suco de pera (orgânico). Ao lado da barraquinha conheci um casal de mineiros super simpáticos, e um paranaense. Devo ter ficado mais de uma hora na Casa de Los Dioses. Também parti com vontade de ficar. Não sei se foi a boa energia do lugar, mas o fato é que quase não senti a distância percorrida ao longo do dia, mesmo com o calcanhar doendo um pouco (não lembro se te falei que o osteopata, Gael, que fez a massagem no meu pé, me confirmou que tô com uma tendinite no tendão de Aquiles).
Pouco depois da Casa de Los Dioses, cheguei ao alto de uma colina, onde há um cruzeiro, e avistei Astorga lá embaixo, no vale. E lá ao fundo as montanhas que em breve terei de cruzar. Comecei a descer a colina e logo cheguei à cidadezinha de San Justo de la Veja, quase uma adjacência de Astorga. Atravessei a rua principal, passei por uma ponte e segui caminhando na calçada, junto à rodovia. À minha frente avistei uma figura curiosíssima. Um senhor, grisalho, arrastava uma enorme cruz feita com troncos de madeira, pintada de preto, com tiras de pano amarradas, uma bandeira da Espanha na ponta, e vários cartazes pendurados num fio que acompanhava  toda a extensão da cruz, como se fosse um varal. Acompanhava-o um cão. Ele parou para descansar e o alcancei.Quando estava passando por ele, o sujeito puxou conversa comigo. Tinha barba e estava todo sujo de preto, como se uma fuligem o cobrisse. A roupa estava imunda e ele usava um boné. Começou a falar sobre a crise na Espanha, sobre as dificuldades enfrentadas pelos mais pobres e sobre a destruição do planeta.
O primeiro dos cartazes tinha um de desenho cheio de simbologias, dentre elas a da Terra como uma teta – que estamos sugando, sugando e sugando, sem cuidar dela. Não li o que havia nos cartazes porque eram muitos. Um longo texto de protesto contra muitas coisas, a julgar pelo discurso dele. Havia um apelo qualquer ao Papa Francisco. E ele falou muito das eleições que devem acontecer na Espanha no final do ano. Ao final, entendi que tudo era motivado pela perda de sua mãe, que teria falecido sem receber a adequada atenção médica. Me contou isso muito emocionado e me disse que chegou a fazer protestos à porta de algumas autoridades. Fiquei muito sentida por ele, até porque sei exatamente do que ele estava falando. Não tive coragem de dizer-lhe o quanto isso ainda é corriqueiro no Brasil.  
Já cheguei a Astorga depois das cinco da tarde. Registrei-me no albergue Siervas de Maria, de uma Associação dos Amigos do Caminho, tomei meu banho e saí para dar uma volta pela cidade e comprar algo para comer. Consegui visitar a Catedral, mas não deu para visitar o Palácio Episcopal, que é projeto de Gaudí. Só pude vê-lo por fora. Honestamente, espero que Gaudí tenha gastado todo o seu talento em Barcelona, porque os dois edifícios de autoria dele que eu vi até aqui, pelo menos por fora não têm absolutamente nada demais. Me pareceram uns arremedos de construções medievais, honestamente.
Com relação a Astorga também devo dizer que achei muito sem gracinha. Até mesmo a Catedral, depois que a pessoa viu Burgos e León, não tem quase apelo. O que mais gostei de Astorga foi um jardim público junto à antiga muralha da cidade, e um sítio arqueológico com ruínas de uma casa romana. Isso eu adorei! Tem, inclusive, um belo mosaico do século II D.C. Também achei legal o movimento da Plaza Mayor, que ao anoitecer ficou cheia de crianças brincando, gente conversando, senhorzinhos e senhorinhas passeando. Adorei essa sensação de vida e movimento da população local, num espaço público, que é muito rara na maior parte das cidades atravessadas pelo Caminho.
Comprei tomates e atum num mercadinho e voltei pro albergue para comer. Reencontrei os brasileiros que havia conhecido à tarde (os mineiros e o paranaense). Estavam todos no mesmo albergue que eu. Astorga não tem muitas opções de albergue. Por sorte, escolhi certo, porque caminhando pela rua, encontrei Nicolás (aquele espanhol que com quem fui ver a Catedral de León à noite) e ele estava furioso com o albergue dele, dizendo que era uma fraude. Estava quase a ponto de chamar a Guardia Civil para interditá-lo. Quando cheguei na cozinha para preparar minha salada, reencontrei Nicolás, que havia sido convidado para jantar no meu albergue com um enorme grupo de peregrinos. Eles tomavam toda a comprida mesa do refeitório (comedor) e faziam uma grande algazarra. Um rapaz muito gentil me cedeu seu lugar para que eu pudesse comer sentada.
Durante o jantar conheci Pilar, uma jovem das Canárias, muito, muito doce. Ela é professora de Yoga e, como muitos peregrinos, está querendo produzir mudanças expressivas no seu modo de vida. Não sei porquê, mas enquanto ela falava, me veio a ideia de que eu deveria lhe dar o contato do Albergue Verde. Senti que conhecer Mincho seria bom para ela. Subi ao meu quarto, peguei o cartão, chamei-a num canto e transmiti a ela minha intuição. Pilar ficou muito feliz e agradecida.
A noite estava muito fria. Pedi um cobertor ao hospitalero e decidi me recolher ao quarto. Com todos os albergues municipais e de associações, o Siervas de Maria tem hora de dormir, de acordar e de ir embora. É uma das coisas que me faz preferir sempre ficar nos albergues particulares, quando tenho essa opção. Não foi o caso de Astorga, que, aliás, não me deixará saudades.
Por ora é só.
Beijos mil, Minha Irmã!
Léia