sexta-feira, 22 de abril de 2016

Passar o Brasil a limpo é missão de todos nós



22/03/16

Torcendo pra que passado esse período de turbulência e confronto de visões e projetos tão diversos de Democracia e de país (e me refiro às muitas pessoas de Boa Fé que vejo dos dois lados), nós saibamos reencontrar a Alegria e a Esperança. Que possamos, sobretudo, voltar a nos dar as mãos.

Porém, torcendo mais que tudo pra que o Brasil seja passado a limpo. E isso significa também cada um de nós fazer sua reflexão, procurando responder, com honestidade: Qual é a minha responsabilidade no país que temos hoje? O que eu, como cidadão, preciso mudar no meu comportamento diário, para ajudar a construir o Brasil que desejo pra mim e pros que amo?

domingo, 17 de abril de 2016

Os Cinco Cegos e o Elefante

Minha Amiga, Querida! Saudades suas! De verdade.
E então. Existe uma lenda antiga na Índia -- que meu pai costumava me contar – e narra a história de cinco cegos de nascença aos quais se pediu que descrevessem um elefante. Como é um bicho muito grande, cada um deles se agarrou com uma parte diferente do paquiderme. Um assegurava que um elefante é um bicho fino e peludo na ponta (rabo). O outro teimava que um elefante é muuuito grosso, duro e pesado (perna). O terceiro cego bradava que elefante é um animal todo molengo e comprido (tromba)... e por aí vai. O fato é que toda Verdade tem vários lados, depende da perspectiva de que você olha. E a graça da Vida tá nessa pluralidade, né, não?
Não quero entrar em pendenga com você. Respeito sua posição e posso imaginar que você teve com a minha postagem sobre as manifestações desse domingo a mesma surpresa que eu tive quando vi a foto de Lula no seu perfil: Ôxe, como pode? (Minha Amiga tão inteligente!...) Mas minha surpresa durou apenas alguns segundos. Logo me lembrei da lenda do elefante e pensei com meus botões que cada um tem suas convicções, seus valores, sua visão de mundo. Serenei. Dessa serenidade, no entanto, brotou uma nostalgia. E eis que seu comentário me levou de volta aos nossos tempos de UFPE. Fiquei me lembrando da gente, na frente do CFCH, pintando aquela faixa comprida, pra passeata pelo Impeachment de Collor... e como um fio puxa outro, me lembrei -- com uma suave tristeza -- de como naquela época eu andava de broche de estrela do PT. Eu tinha também um Lulinha, de camisa vermelha e calça preta. Ficavam os dois, Lula e o PT, estampados no meu peito. Um orgulho danado. Foram quase 20 anos da minha vida, acreditando no sonho de que o PT mudaria o jeito de governar o Brasil, de fazer política. Lembrei da gente nas ruas, de cara pintada, esbravejando contra o Presidente Fernando Collor. Um Fiat Elba e uma reforma no jardim da Casa da Dinda eram os símbolos do governo corrupto que decidimos não tolerar mais. Ainda seguindo o fio da meada, recordei com nitidez dos oito anos em que esbravejei contra o “neoliberal” Governo Fernando Henrique, desejando que ele ardesse no fogo do Inferno por todo o mal que eu, naquela altura, achava que ele estava fazendo ao povo brasileiro.
Quando Lula foi eleito – finalmente!!! --, eu não estava no Brasil. Mas acompanhei, na casa de Zé, a apuração. Jamais esquecerei a alegria transbordante, intensa, o choro de emoção. Nunca havia desejado tanto estar no Brasil, como naquele dia. Afirmei que aquele era um dos dias mais felizes da minha vida e que se fosse possível, eu negociaria fácil, com Deus, alguns anos da minha existência por uns poucos minutos no Brasil, naquele dia, naquele momento! Todo o meu desejo se resumia em me misturar à multidão vermelha que tomava as ruas, e comemorar junto com a galera a realização de um dos meus maiores sonhos. Ironicamente, treze anos depois, neste 13 de março, eu teria dado tudo, novamente, para estar no Brasil, ocupando as ruas com meu grito de BASTA; declarando, uma vez mais, meu desejo de ter um Brasil ético e decente, o que, infelizmente, se mostrou incompatível com Lula e o PT. 
Querida Amiga, já passei por muitas fases no meu processo de desilusão e desencanto (que começou com o Mensalão). Já tive uma raiva imensa, que me corroía a alma e me tirava o equilíbrio. Até uns quatro anos atrás, eu não conseguia nem falar no assunto PT sem acabar em lágrimas. Não conseguia perdoar Lula por ele ter roubado não apenas meu sonho, mas minha ESPERANÇA de um governo diferente de tudo aquilo que as elites sacanas haviam feito com o país durante quinhentos anos. Felizmente, não há nada como o tempo para curar feridas e ensinar lições. 
Hoje, me libertei daquela raiva que me envenenava. E me dei conta de que nem tudo foi perda. Ganhei algo de muito precioso. Graças a Lula e ao PT conquistei uma lucidez cristalina sobre o Brasil, abandonei posições dogmáticas, fui capaz de rever paradigmas e pude, assim, reconstruir minha Esperança. Já não tenho uma Esperança cega e ingênua. Hoje, habita meu peito uma Esperança bem mais modesta e realista, e também mais determinada. 
Você olha para os milhões de pessoas que foram às ruas no domingo e enxerga apenas Bolsonaro, Malafaia e a ameaça de fascismo. Eu olho e vejo milhões de pessoas bem intencionadas, que foram às ruas para reclamar de volta o país que lhes pertence e foi sequestrado por criminosos de colarinho branco, infelizmente muitos deles filiados ao PT, ainda que não só. Vejo milhões de pessoas que se recusam a aceitar máximas cínicas e pueris, de que “todos roubam”, “os tucanos também roubaram”, “corrupção sempre existiu no Brasil”. Vejo milhões de pessoas que reivindicam o direito de serem governadas com um mínimo de Decência, Verdade e Ética. Entre esses milhões de pessoas há, certamente, Bolsonaros, Malafaias e fascistas. Faz parte de uma sociedade plural e democrática. Democracia para mim é justamente as pessoas poderem se expressar livremente e se organizarem para defender seus projetos de sociedade. Eu não queria ter sido governada por Lula em um segundo mandato. Fiquei arrasada quando Dilma se elegeu, e tive vontade de desaparecer da face da Terra quando ela se reelegeu -- usando pesadamente a máquina estatal e gastando rios de dinheiro com um mago da Propaganda, que não fez outra coisa a não ser vender deslavadas mentiras para enganar e amedrontar os eleitores. No entanto, aturei todos esses governos porque fui voto vencido nas urnas.
Agora, estamos descobrindo que no caso do segundo mandato de Dilma o cenário é diferente. Avolumam-se provas de que um gigantesco esquema de corrupção operou nos governos petistas, desviando bilhões de reais dos cofres públicos. Sou contra o Impeachment (por entender que o PMDB é feito de bandidos ainda mais bandidos que o PT). Mas espero ansiosamente pela cassação do mandato dela pelo TSE. Na minha perspectiva, inclusive, Dilma já deveria perder o mandato por crime de estelionato eleitoral. Só que há evidências muito mais graves, de que sua campanha milionária foi financiada com o dinheiro público, roubado descaradamente, ao longo dos últimos 13 anos, pelo Partido que está no Poder. Nada vai mudar isso, Minha Querida. Os fatos não se dobram à nossa vontade, nem aos nossos ideais. Com toda a sinceridade, como eu gostaria que tudo não passasse de uma armação da elite! Como eu gostaria que fosse tudo mentira e invenção das forças conservadoras desse país! Seria tão mais fácil, tão menos doloroso. 
Até que FATOS me mostrem o contrário, só posso esperar que Dilma se despeça do Planalto. E que sejam convocadas novas eleições. Eleições cujo resultado é imprevisível, porque a rejeição aos tucanos é hoje quase tão grande quanto aquela aos petistas. Pode até ser que um Malafaia ou um Bolsonaro se elejam Presidente da República. Tudo é possível. Estamos numa Democracia. Se essa for a vontade da maioria, expressa nas urnas, não terei outro remédio a não ser me conformar e esperar mais quatro anos, embora me disponha a militar ferrenhamente para que um futuro tão tenebroso não se realize. Lutaria contra esses segmentos retrógrados com o mesmo ímpeto com que um dia, na minha juventude, lutei para que Lula chegasse à Presidência da República.
Mas, como tentei dizer à minha irmã, que evocou argumentos semelhantes aos seus, as manifestações de domingo não foram declarações A FAVOR de nenhum político ou em prol de um futuro governo. Foram declarações CONTRA o status quo (ironicamente). E Sérgio Moro não é um herói nacional. Ele está simplesmente encarnando a Esperança de um caminho distinto para o Brasil. Os políticos nos dizem que a corrupção é atávica. Sérgio Moro (como figura simbólica) nos diz que existe uma escolha. 
Onde você vê o perigo do fascismo, eu enxergo um GRITO DE LIBERDADE. O Brasil reivindica o direito de tentar trilhar o caminho da Decência, da Ética, da Verdade (do mesmo modo que fez quando derrubou Collor). O PT nos havia roubado esse sonho. Estamos descobrindo que podemos reconquistá-lo.
Você já deve ter até desistido da leitura dessa longuíssima resposta. Sinto muito. Nunca consegui ser uma pessoa concisa. Além disso, estando longe do Brasil nesse momento tão importante, escrever tem sido minha forma de estar presente. Tem sido o meu front na luta pela Democracia e pelo Brasil, que amo profundamente. Voltarei à terrinha em breve, e pretendo ser ainda mais ferrenha na defesa do país democrático, justo e ético, que eu desejo e MEREÇO ter. Mais uma vez, vá desculpando a eloquência. Acaba que seu comentário despertou em mim memórias e sentimentos profundos. Senti a necessidade de lhe responder de maneira completa, sincera e transparente. Se é que você teve a disposição de chegar até aqui, lhe peço que me perdoe se fui indelicada ou se feri sua suscetibilidade em algum momento. Tentei me expressar com o máximo de ternura possível, sem abrir mão da minha própria Verdade.
Um beijo carinhoso no seu coração,
Val

sexta-feira, 11 de março de 2016

13 de Março: O Grito da Esperança?


Aproxima-se o domingo. Um 13 de Março que tem tudo para entrar pra História.

Pergunto-me, no entanto, o que faremos desse dia? Será esse apenas mais um momento -- como outros que já aconteceram nos últimos dois anos -- de catarse coletiva, de liberação da indignação e da raiva que tomam boa parte de nós? 
Diante do clima de profunda animosidade que se observa em todas as instâncias da vida social brasileira, inclusive nos universos virtuais, temo que esse 13 de Março seja mais um dos vários episódios que vêm nos dividindo, nos separando, nos colocando uns contra os outros, tirando nossa serenidade, nosso equilíbrio e nossa capacidade de enxergar as coisas com clareza e reagir com inteligência e sabedoria.
No meu coração, alimento, contudo, um sonho. Imagino um 13 de Março que seja: 
· menos sobre o pessimismo e mais sobre a Esperança; 
· menos sobre a raiva e mais sobre nosso Amor pelo Brasil; 
· menos sobre a desilusão e mais sobre a Determinação de superar as dificuldades, não importa que tamanho elas tenham;
· menos sobre o que fomos nos últimos anos, e mais sobre o País que Desejamos Ser daqui pra frente.

O Brasil está dividido “como nunca antes na sua História”. O próprio PT vem disseminando, desde a campanha de reeleição de Lula, o clima de medo, de raiva e de divisão do País. Pior é que todos nós, em alguma medida, acabamos por comprar esse discurso da cizânia, que alimenta, de maneira perversa, a desesperança e o pessimismo hoje reinantes entre esse povo que sempre se reconheceu na Alegria (para o bem e para o mal). 

Nunca soube que a raiva construísse nada de bom. 
Os fatos da vida são simplesmente fatos. São os sentidos que atribuímos a eles que fazem com sejam bons ou ruins para nós. De maneira objetiva, qualquer tipo de acontecimento é uma Oportunidade para decidirmos e afirmarmos aquilo que desejamos Ser (e o que Não queremos Ser também). Hoje o Brasil está tendo de se olhar no espelho como jamais foi compelido a fazê-lo. Estamos sendo confrontados com nossa própria imagem como Nação com uma crueza inédita. Ninguém há de discordar de que não estamos contentes com o que estamos contemplando no espelho. Só que de pouco vai adiantar essa constatação, se cada um de nós continuar dizendo para si mesmo que não tem nada a ver com essa imagem degradada, seja porque nunca votou no PT, seja porque votou de boa fé, ou por qualquer outra justificativa engenhosa que a mente seja capaz de elaborar. Todos e cada um de nós tem tudo a ver com o que está acontecendo no Brasil neste exato momento. E vou dar um exemplo muito simples e óbvio. Em que momento da sua vida você se preocupou com o tipo de educação ofertada às crianças e jovens que moram na favela mais próxima à sua casa? Em que momento da sua vida você fez algum gesto concreto para que pessoas que vivem na pobreza e na ignorância tivessem acesso a um sistema educacional que as preparasse para pensar por si mesmas, criticamente, e para serem donas de seus destinos, em lugar de ficarem dependendo das benesses de algum generoso governante? Outro exemplo. Você já parou pra pensar como essa cultura da transgressão à norma – que está na origem tanto das pequenas desobediências aos códigos legais e sociais como nos grandes assaltos ao bem público – faz parte do seu dia-a-dia? Quantas vezes, na última semana, você parou o seu carro na faixa de rolagem, super rapidinho, para pegar o filho na escola ou comprar uma revista na banca, atrapalhando todo o trânsito atrás de você? Quantas vezes, no último ano, você pediu a um amigo para agilizar um procedimento num órgão público, ou para furar a fila do SUS, marcando uma consulta para a sua empregada? Talvez seja esse um bom momento para pararmos de nos enganar. Em maior ou menor medida, o Brasil que temos hoje é fruto das nossas escolhas cotidianas (omissão também é escolha). 
Da forma como olho para o Brasil hoje, vejo dois caminhos à nossa frente. Nós podemos passar a próxima década entregues ao ressentimento e ao pessimismo, maldizendo Lula, Dilma e o PT por todas as – inegavelmente imensas – perdas que nos infringiram, ou podemos enxergar nessa “herança maldita” uma dura, mas importante, lição, e, principalmente, uma Oportunidade singular para passarmos o Brasil a limpo. A Operação Lava-Jato, os promotores paranaenses, o Juiz Sérgio Moro estão nos mostrando que existe uma Escolha, SIM, que não estamos condenados a ser, eternamente, o país do Jeitinho, da Impunidade e do Privilégio para os amigos. A corrupção pode ter existido até mesmo desde a chegada de Cabral, mas não precisamos e não devemos continuar sendo tolerantes com ela. Os tucanos podem ter roubado muito, e os petistas mais ainda, porém, não devemos ser tolerantes nem com uns, nem com os outros (eis mais uma falácia que agride a Inteligência e a Ética).
Lula deve ser preso, sim. E eu só posso lamentar, com profunda tristeza no coração, que a realidade que ele construiu para si mesmo na última década seja tão incongruente com as imagens do líder que fez História na luta pela Liberdade, pela Democracia e pelos Direitos dos Trabalhadores. Logicamente, Lula não deve ser preso simplesmente porque estamos indignados, decepcionados e com raiva pelos bilhões desviados dos cofres públicos no seu governo, nem pelo desastre econômico gerado pela personagem farsesca que ele deixou no comando do país. Lula deve ser preso porque escolheu o caminho da ilegalidade e do crime contra o patrimônio público, preferindo enriquecer a família, os amigos e o Partido a honrar seu próprio passado e sua História de Lutas. Do mesmo modo, Dilma deve perder o cargo com que foi investida nas urnas porque fez uma campanha suja, com dinheiro roubado dos contribuintes, e também porque se elegeu com base em grandes mentiras, que começaram a ruir ainda antes mesmo do início de seu segundo mandato. Lula deve ser preso e Dilma deve deixar o Palácio do Planalto porque doravante nos recusamos a aceitar que a corrupção seja uma fatalidade no Brasil, porque no país que desejamos Ser todos os corruptos devem ser presos, não importa sua filiação partidária, e porque não queremos mais deixar que a Mentira nos governe, nem queremos abrir mão da Ética em favor da cínica lógica de que os Fins justificam os Meios.

É a Decência que pede a prisão de um e a destituição da outra. E é nosso compromisso com a Verdade, com a Justiça, com o Brasil-que-queremos-Ser que deve levar cada manifestante às ruas nesse 13 de Março.
Desejo muito que possamos assistir a uma gigantesca manifestação, não Contra Lula ou Dilma, mas A FAVOR do nosso Futuro como país. Que esse 13 de Março seja menos sobre o PT e mais sobre o BRASIL que queremos legar para as futuras gerações.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Quando a Vontade faz a diferença na vida do cidadão: um bom exemplo


 

Na sua vida, quantas vezes você já escutou gestores público recorrerem ao argumento da falta de recursos para justificar a desassistência aos cidadãos, que por força constitucional, têm DIREITO aos serviços essenciais, de Saúde, Educação e Segurança? Na Saúde Pública nem sei se já não estamos um tanto anestesiados com as notícias cotidianas sobre nossos compatriotas mais carentes, que impossibilitados de pagar pela saúde privada, padecem e morrem nas filas intermináveis de caóticos hospitais, isso quando conseguem chegar até um deles, depois de enfrentarem a via crucis que começa na busca por atendimento básico em precários postos de saúde (quando eles existem, e têm médicos trabalhando). Esse é um retrato bastante generalizado da situação atual do SUS, um sistema cuja concepção é irrefutavelmente bela e generosa, e que conta, sim com algumas ilhas de excelência. Quando os idealizadores do nossos Sistema Único, e universal, de Saúde o inscreveram na Constituição de 1988, não imaginaram que quase trinta anos depois, o SUS ainda não estaria plenamente regulamentado. Nem supuseram, decerto, a anomalia -- realidade prática e objetiva vivida hoje  -- que impõe aos estados e municípios as responsabilidades mais pesadas e custos incompatíveis com seus orçamentos,  enquanto a União vem lavando as mãos solenemente, limitando seus gastos com Saúde a meros 4% das receitas vinculadas do Orçamento (média anual). Só para que se tenha uma noção do que isso significa, há vários municípios no Brasil que chegam a gastar 30% das receitas vinculadas dos seus Orçamentos com Saúde, quando sua obrigatoriedade de investimento é de 15%. E isso para sustentar o precário cenário que se acaba de descrever. Do mesmo modo, até que se iniciasse a crise econômica e financeira que vem deixando estados e municípios sem capacidade de fazerem frente às suas despesas mínimas de manutenção, todos os estados da Federação investiam mais que os 12% obrigatórios. Já o governo federal seguia se fazendo de morto. Se, nos últimos anos, a União tivesse investido os 10% idealizados na concepção do SUS, seriam mais de 150 bilhões de reais por ano injetados no nosso sistema de saúde. Obviamente, não é que dinheiro só resolva tudo. Pode não resolver nada, sobretudo quando falta gestão, mas é fato que Saúde custa caro, seja ela pública ou privada. Aliás, com todas as justas críticas que se possa fazer à vinculação de despesas e receitas do Orçamento público, é alvissareira a notícia de que a União estará obrigada a investir mais em Saúde Pública nos próximos anos. Pois ao contrário da Educação, em que um bom professor é infinitamente mais importante que um tablet, na Saúde, a tecnologia e os insumos podem fazer a diferença entre a vida e a morte, a dor e o alívio. Faço esse extenso preâmbulo apenas para reconhecer que quem faz gestão de Saúde Pública neste país, realmente enfenta dificuldades reais e enormes. Falta dinheiro mesmo (pelo menos no âmbito de estados e municípios). E sobram necessidades. Mas é aí que conceitos como Prioridade, Compromisso e Seriedade fazem toda a diferença.
No dia dezoito do mês de dezembro passado, a capital do Rio Grande do Norte, inaugurou seu primeiro hospital público municipal. Na pindaíba generalizada em que andam os municípios brasileiros, que não estão conseguindo nem manter os postos de saúde funcionando em condicões básicas, o que explica esse fenômeno? Que prefeito maluco é esse que abre um serviço HOSPITALAR em conjuntura econômico-financeira tão adversa? E note-se bem que não me refiro ao custo de instalação do hospital, que embora seja elevado, é evento único, e sempre se consegue alguma verba extra para ajudar. Quem faz gestão pública de Saúde sabe que o drama vem depois, é o chamado custeio, ou seja, o dinheiro que vai sair todos os meses dos cofres públicos para pagar médicos, enfermeiros, faxineiros, seguranças, remédios, insumos de toda natureza, enfim. Essa foi, aliás, a grande pegadinha dos governos petistas para estados e municípios: cofres abertos para montar estruturas (como as UPA´s) e abrir serviços, mas e depois?
Bem, voltando a Natal, some-se à atual crise financeira nacional, um cenário de terra arrasada, herdado pelo prefeito Carlos Eduardo, há três anos. Sua antecessora havia deixado a cidade à mais completa míngua, sem coleta de lixo, sem merenda nas escolas, postos de saúde fechados, no maior colapso de gestão pública que eu já pude testemunhar, nesse país onde os absurdos da vida pública desafiam a imaginação. Pois foi enfrentando todas essas adversidades que Natal  ganhou, há pouco menos de um mês, seu primeiro hospital municipal. Palmas para Carlos Eduardo Alves, que fez da Saúde uma Prioridade de gestão, não apenas no discurso, mas na prática. Se não existe mágica em gestão pública, existe, sim, a escolha. A questão não é matemática, mas política. Quando os recursos são insuficientes -- e a verdade é que, hoje, eles são efetivamente insuficientes nos cofres da grande maioria de municípios brasileiros, face a todas as despesas de custeio, somadas a quedas expressivas de receita (que começaram no primeiro governo Dilma com as políticas de isenção fiscal para estímulo ao consumo) -- o gestor tem de fazer uma escolha, com base naquilo que considera ser prioritário. Não sei onde o prefeito Carlos Eduardo resolveu cortar, mas estou vendo que ele puxou o cobertor para uma área extremamente sensível, talvez a única em que o cidadão efetivamente não pode esperar. Em Medicina, segundos podem separar a vida da morte. Reconheço e parabenizo a coragem e a seriedade do prefeito de Natal.
No entanto, preciso deixar registrado que o mérito maior por esse feito compete a uma brilhante equipe de Servidores Públicos, que fazem gestão de Saúde com uma tenacidade, um compromisso, uma abnegação, um republicanismo e uma paixão que são exemplares, e, em se tratando do Brasil, quase inacreditáveis. Dou esse testemunho porque tive o privilégio de conviver e trabalhar com essas pessoas por alguns meses, quando eles estavam à frente da Secretaria de Saúde do governo do estado. Infelizmente, a realidade da saúde pública estadual era tão problemática e complexa, que o trabalho verdadeiramente saneador, e hercúleo, não se tornou visível para a Opinião Pública. O enfentamento do nefasto corporativismo dos médicos, a reorganização dos serviços, que antes funcionavam como a casa da mãe joana e sem qualquer racionalidade, a ginástica financeira e política feita cotidianamente para honrar os compromissos mais básicos da Secretaria e evitar a suspensão do atendimento aos usuários passaram quase batidos aos olhos da população, que a despeito de todo o empenho da equipe que geria a Secretaria, continuava a sofrer com a desassistência nos hospitais estaduais, amplamente insuficientes para fazer frente a demandas que lhes competiam, mas também às que correspondiam aos municípios e União.
Até a semana passada, Natal era das raras capitais do país a não terem um hospital municipal, e simplesmente despejava seus pacientes nas portas dos hospitais estaduais, cruzando os braços diante do sofrimento inaceitável de tantos de seus munícipes. Quando estavam à frente da secretaria estadual de saúde, Luiz Roberto Fonseca e sua equipe brigavam com o município de Natal, procurando chamá-lo às suas responsabilidades. O município se acomodava na desculpa clássica da falta de recursos. Era mais cômodo superlotar o sofrido Walfredo Gurgel. É muito importante que se compreenda que sempre que um município não faz sua parte no desenho do SUS, o preço é pago pelos usuários, principalmente aqueles carentes da atenção à saúde mais especializada, que têm de disputar leitos, médicos e medicamentos com os pacientes que apresentam problemas de menor complexidade, num jogo de perde-perde para a população. Uma vez que assumiu a secretaria municipal de saúde, Luiz Roberto determinou-se a fazer aquilo que já devia ter sido feito há décadas, abrir um hospital para atender às demandas de responsabilidade do município de Natal. Nada mais coerente. E, no entanto, nada mais desafiador, nem mais corajoso. O processo passou, inclusive, pelo convencimento do prefeito e dos secretários das pastas administrativas quanto à sustentabilidade da proposta, nesse já tantas vezes mencionado cenário econômico-financeiro extremamente adverso.
Esse hospital vai resolver os problemas da Saúde Pública em Natal? Claro que não. Longe disso. Se em São Paulo, estado mais rico da Federação, os cortes na Saúde Pública já estão sendo diretamente sentidos pelos usuários do SUS, com a suspensão, por exemplo, de programas de entrega de medicamentos crônicos, imagine-se no nosso Nordeste. O recém inaugurado hospital de Natal é uma gota no imenso oceano de necessidades da Saúde Pública potiguar. Porém, é uma gota de valor inestimável. Não apenas porque efetivamente salvará vidas, desafogará um pouco os corredores dos grandes hospitais estaduais e minorará as dores de quem antes ficava inteiramente entregue ao desamparo. É inestimável pelo que representa como ato e exemplo de gestão pública da Saúde. A inauguração desse hospital representa a vitória da Sim sobre o Não, da Tenacidade sobre a burocracia, do Compromisso sobre a leniência, da Prioridade sobre a Demagogia, da Solidariedade sobre o comodismo, da Paixão sobre o automatismo, do espírito de Serviço sobre o egoísmo (tão humano).

Na época em que eu convivi com a equipe que hoje está no comando da Secretaria de Saúde de Natal, a dedicação desses servidores ao Interesse Público não despertava apenas a minha admiração, ela me comovia. Com eles aprendi o significado pleno e radical da expressão Servidor Público. Fui testemunha do alto nível de sacrifício pessoal a que se submetiam no esforço para melhorar a atenção à saúde da população. É uma bela equipe, cada um mais valoroso que o outro, e no comando de todos eles, um verdadeiro líder, um gestor público como até hoje não conheci igual. Não o vi titubear sequer por um segundo na defesa do interesse coletivo, mesmo quando isso significava cortar fundo na própria carne. Foi um Leão no enfrentamento do corporativismo dos seus pares, pagando o preço altíssimo da animosidade entre os seus. Como pude constatar de perto, o secretário Luiz Roberto só esmorecia quando se sentia impotente diante do sofrimento dos menores dos seus irmãos, dependentes de um Sistema de Saúde profundamente combalido, por décadas de má gestão, de omissão e de promiscuidade, em todos os níveis e por diveros atores, e pelo caixa de um estado quebrado. Sabe quando dá gosto ver a Administração Pública funcionando? E funcionando pelo e para o cidadão? Não?! Infelizmente, no nosso Brasil, é raro mesmo. Pois asseguro que o novo hospital de Natal é resultado disso. Meu sonho, preciso confessar, é ver Luiz Roberto e equipe no Ministério da Saúde. Não que ele seja o Superhomem e fosse resolver todos os graves problemas do SUS, mas tenho certeza de que com a enorme capacidade de trabalho de sua equipe, e com a liderança inspiradora, firme e republicana que ele exerce, os milhões de brasileiros que dependem da Saúde Pública estariam melhor amparados. Parabéns, Luiz Roberto! Parabéns Saudade, Marcelo, Teresinha, Manoella, Larissa, Otávio, Catharina, Camila, Renata, Juliana..... E parabéns ao prefeito Carlos Eduardo, que deu abrigo e cabimento a esse valente Exército de Brancaleão.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Cartas para Minha Irmã: chegando a Santiago de Compostela


05/11/15

Minha Amada Irmã!!!
Após 46 dias de caminhada, cheguei ontem a Santiago de Compostela!
No total, foram 56 dias de Caminho. Quase 800 kms percorridos, com meus pés, com o apoio imprescindível de Cosme e Damião (meus caríssimos bastões), e, principalmente, com a Graça e a Presença permanentes de Deus.
Tão difícil descrever a emoção da chegada a Santiago… na verdade, foi uma emoção gradual, porque acho que a minha ficha foi caindo aos poucos...
Saí de O Pedrouzo já debaixo de chuva. Tinha dormido muito bem, tanto que nem ouvi o movimento dos demais peregrinos. Quando acordei, já às sete e meia da manhã, só restávamos eu, Bia e um rapaz duas camas antes de mim. Todo o resto do pessoal já tinha partido. Tomei café com Bia, ajudei-a a resolver uma bronquinha no envio da mochila dela, e saímos as duas juntas. Eram nove da manhã. Meu pé tinha acordado mais dolorido que nos últimos dias. O arco plantar estava me incomodando mais, inclusive, do que o tendão do calcanhar. Comecei a andar pedindo a Deus que me concedesse a graça de chegar naquele dia.
Eu tinha pensado que chegaria sozinha a Santiago, e até estava contando com a ideia de caminhar só, para fazer minhas derradeiras orações e meditações andantes. Mas confesso que foi muito bom chegar a Santiago com uma boa companhia. E eu e Bia caminhamos o dia todo a certa distância uma da outra, porque creio que nós duas sentimos que precisávamos desses momentos solitários, para reflexão e conexão com Deus. De todo modo, Bia estava caminhando mais rápido que eu. Ficamos nos encontrando nos cafés, quando parávamos para descansar.
Os primeiros dez quilômetros foram de uma caminhada bem agradável (apesar das subidas e descidas), passando em meio a muitas matas, dessas que já lhe descrevi tantas vezes, e que me encantaram até o final, com suas altas árvores cobertas de musgos e heras. Em alguns trechos, as heras pendiam das árvores, sobre a estrada, parando a bem curta distância da cabeça dos passantes.
Nessa última etapa, o Caminho passa ao lado do aeroporto de Santiago. Um extenso gradil está coberto de cruzes, fotos, fitas, camisetas, e objetos variados, deixados pelos peregrinos, ao longo dos anos, talvez como derradeiros marcos das intenções apresentadas a Deus, antes da chegada a Santiago. Passar ao lado do aeroporto me deu uma sensação muito boa, de proximidade com o destino final.
Após deixar o aeroporto para trás, ainda caminhei um bocadinho pelo meio de matas e ao lado de bosques de pinheiros. Até que de repente passei a caminhar à beira de uma estrada asfaltada, em uma área mais aberta, com campos, hortas e casas mais próximas umas das outras.
Choveu muito o dia todo. E quanto mais próxima eu fui chegando de Santiago, creio que mais forte a chuva foi ficando. Comecei a me lembrar do primeiro de dia de caminhada, quando cruzei os Pirineus debaixo de muita chuva. E pensei: Nossa, é como o encerramento de um ciclo; parti com muita chuva e chego com muita chuva. E daí em diante passei a me lembrar dos momentos mais bonitos do Meu Caminho, pus-me a rezar pelas pessoas que conheci ao longo dessa jornada, e fui ficando cada vez mais emocionada. Quando dei por mim, estava chegando ao Monte do Gozo. Avistei Bia, que me esperava junto a uma barraquinha, ao lado de uma capela.
No alto do Monte do Gozo tem um monumento. E de lá, é possível vislumbrar Santiago. Como chovia muito, e uma neblina encobria o vale, Santiago apareceu para mim apenas como uma leve silhueta. Eu podia ver o contorno das edificações como uma sombra negra em meio à névoa, por trás da cortina de água. Mesmo assim, foi uma forte emoção. Eu sabia que dali até a porta da Catedral seriam apenas mais 4,5 kms! Me ajoelhei aos pés do monumento e rezei agradecendo a imensa Graça de ter chegado até ali. Ainda entrei na capelinha e rezei novamente. Enquanto permaneci no Monte do Gozo, estive tomada por um forte e comovente sentimento de gratidão, e chorei bastante.
Tomei um chá com Bia, para aquecer um pouco o corpo, e começamos nossa derradeira descida. A partir dali caminhamos bem próximas uma da outra. O trajeto nessa parte final não é tão belo, porque a gente vai entrando no perímetro urbano de Santiago, que é, hoje, uma cidade de grande porte. Algo em torno de cem mil habitantes. A gente anda um longo trecho por avenidas movimentas, amplas, com muitos prédios de vários andares, restaurantes lojas. Todo o movimento acelerado, o tráfego intenso, o barulho, e a poluição visual de uma grande cidade. Depois de muito caminhar nesse cenário meio caótico, finalmente a gente começa a adentrar uma área da cidade com ruas mais estreitas e sobrados de dois andares, compridos e finos, paredes de pedra e varandas de madeira e vidro. Começa aos poucos, para o visitante, uma viagem no tempo. Saímos do século XXI e começamos a nos deslocar em direção ao final do XIX, e quanto mais nos adentramos pelas ruas estreitas, mais longe vamos viajando no tempo, até que finalmente chegamos ao coração do centro histórico, com suas várias Igrejas, suas edificações de grossas paredes de pedra, e a enorme Catedral.
O Caminho chega pelos fundos da Catedral. Pedindo informações (pois a essa altura já não há as setas), seguimos direto, descemos umas escadas, cruzamos um arco, onde havia um jovem tocando uma gaita de fole lindamente, e, enfim, após dobrar à esquerda, nos encontramos na praça do Obradoiro, com a fachada principal à nossa frente. A sensação nesse momento foi um misto de alegria, alívio e incredulidade.... ficamos paradas, por alguns minutos, abestalhadas, olhando as altíssimas torres, encobertas pelas redes de proteção da obra de reforma da fachada. Tiramos fotos, para registrar o momento da chegada, e fomos atrás da porta para entrar na Catedral para rezar. Foi quando descobrimos que é proibido entrar na Catedral com mochila. Saímos, então, à procura de um local onde eu pudesse deixar minha mochila. Nos indicaram a Oficina do Peregrino. Para lá nos dirigimos. Mas deixa que era a Oficina de Acojida dos Peregrinos, onde se selam as credenciais e se dão os certificados de peregrinação.  Já que estávamos ali, pegamos a pequena fila e esperamos para selar logo nossas credenciais e pegar o documento que atesta que nós, de fato, fizemos o Caminho de Santiago. Devidamente documentadas, decidimos ir logo procurar a mochila de Bia, que tinha sido enviada para uma Oficina de Información. Rodamos um pouco e finalmente conseguimos resgatar a mochila dela.
Chovia muito, e como descobrimos que a Catedral fica aberta até as oito e meia da noite, resolvemos procurar logo um albergue, deixarmos as mochilas e depois irmos à Catedral. Como Bia tem um desses aplicativos maravilhosos, que falam tudo dos albergues, já fomos certeiras num albergue novinho e bem avaliado. Felizmente, tinha lugar. Chama-se The Last Stamp. Nos instalamos, tomamos banho e fomos correndo para a Catedral, pois, a essa altura, já passava das oito da noite.
Quando chegamos na Catedral, a missa estava terminando. Foi nós nos sentarmos no banco e o padre pedir para todo mundo se levantar, para a bênção aos peregrinos. E fui durante essa bênção que senti, efetivamente, a emoção plena da chegada. Um choro de Alegria e Gratidão tomou conta de mim. Terminada a bênção, ainda fiquei ali, ajoelhada, agradecendo profundamente a Deus por ter me concedido a imensa felicidade de fazer o Caminho.
Sabe, Niquinha, não digo que não seja importante chegar. Pelo contrário. Agradeci muito pela força, pela coragem, pela disposição que certamente me foram concedidos em abundância, para que eu pudesse caminhar quase oitocentos quilômetros. Porém, sempre senti que a maior das bênçãos era a possibilidade de estar ali, caminhando, percorrendo essa via espiritual, esse caminho mágico de que fala Paulo. E era, principalmente, a possibilidade de percorrer essa via como uma forma de agradecer a Deus pela Graça que busco, e tenho certeza de Fé que receberei. Não caminhei pedindo. Caminhei agradecendo. Sempre. Pois sei que Nosso Pai, que nos ama, infinita e misericordiosamente, sempre nos concede aquilo que pedimos. No tempo certo, e da forma mais perfeita.
E o Amor de Deus é tão incrível, que vim para agradecer uma Graça futura e ganhei, além da Graça, uma experiência incrível, mágica mesmo, de crescimento e cura interiores. Escrevendo para você, neste exato momento, ainda choro de emoção: por todas as belezas que vislumbrei; por todas as pessoas que conheci e que me mostraram, com seu desprendimento e generosidade, a face mais linda do Amor de Deus; por todos os amigos que fiz; por toda a energia que senti se desprender da terra, das árvores, dos rios, e entrar em mim, pelo meu nariz, pela minha pele, pelos meus olhos; pelas intensas sensações de conexão com meu Criador, que experimentei em tantas ocasiões; pelas dores que me fizeram andar devagar e, assim, aprender a Paciência, a Humildade, a Confiança, a Entrega; pelas dificuldades que me fizeram parar e, assim, desfrutar mais detida e profundamente a experiência do Caminho; pelas pessoas que me ajudaram e por aquelas que tive a oportunidade de ajudar; pela viagem interior que pude fazer, enquanto vencia os quilômetros; pelas feridas tratadas e saradas; pela aprendizagem do despojamento e da simplicidade; pela diminuição do EU; pelos perfumes novos, pelos sabores inusitados, pelas paisagens surpreendentes.... enfim, foram tantas e tão incríveis as dádivas, que não é possível enumerá-las todas. Creio que por muito tempo ainda estarei realizando novas descobertas, relembrando e aprendendo.
Várias pessoas já disseram que não existe um Caminho de Santiago. Há inúmeros Caminhos. Tantos quantos sejam os peregrinos. Eu acrescentaria que além de cada peregrino ter Seu próprio e particular Caminho, ele não acaba. Essa é a sensação que eu tenho agora, a de que cheguei a Santiago, mas o Caminho continua em mim, como uma jornada ainda em curso. Talvez ele dure para sempre. Quem poderá dizer que frutos o Caminho ainda seguirá gerando em mim? Sou e serei eternamente grata por tudo o que o Caminho significou, significa e significará na minha vida, nas nossas vidas, Minha Irmã.
E para voltar ao prosaico, antes de encerrar essas Cartas, quero acrescentar que após a emoção da bênção na Catedral, fizemos nossa visita ao túmulo do Apóstolo. Uma bela caixa de prata contém seus restos, e está abaixo do altar principal. As pessoas fazem fila e vão passando na frente do túmulo, e pode-se parar, ajoelhar-se num genuflexório e rezar um pouco, antes de dar a vez ao próximo. Também pegamos a fila parar subir no altar e tocar o busto de Santiago (creio ser também um relicário), por trás. Paguei o ritual e fiz minhas orações, pedindo a colaboração do Santo para a minha Graça.
Da Catedral fomos a um restaurantezinho simpático, chamado Cervantes, comemos uma deliciosa salada de camarão com queijode cabra e nozes, e tomamos um vinho para brindar nossa chegada. Voltamos para o albergue, localizado bem perto da Catedral, ainda debaixo de chuva. Foi quando liguei para vocês pelo Skype. Foi muito bom conversar com vocês de viva voz, depois de quase dois meses! Acaba que fui dormir muito tarde. Ainda assim, vi que havia muitos peregrinos pelas ruas, certamente comemorando o final de suas jornadas.
Eu pretendia acordar tarde hoje. Só que uma galera que estava no meu albergue acordou bem cedo para irem a Finisterre (o final da rota, já chegando ao Oceano). Seis e meia eu já estava acordando. Ainda enrolei um pouco na cama, mas sete e meia me levantei. Eu e Bia fomos tomar café da manhã num restaurante em frente ao albergue. Tomamos um chocolate quente divino, cremosíssimo, com churros. De lamber os beiços. Não sei porque não pensamos em juntar essas duas maravilhas, aí no Brasil. A combinação é perfeita.
Hoje continuou chovendo muito! Enfrentamos a chuva e fomos até a estação ferroviária, para eu comprar minha passagem de trem. Depois, fui à agência dos Correios para pegar minha encomenda (lembra que despachei umas coisas em Samos?), e de lá fomos assistir à missa do meio-dia, na Catedral, que é a mais concorrida. É a essa missa que os peregrinos mais acorrem. Nos sentamos pertinho do altar. Como chegamos antes da missa começar, fiquei apreciando a decoração da Igreja. A Catedral de Santiago é enorme. Trata-se de um edifício alto e amplo, com várias naves, e muitos arcos. Na ponta da nave principal está o altar de Santiago, que tem um retábulo Barroco imenso. É uma peça feita para transmitir uma impressão de grandiosidade, força e opulência. O busto de Santiago, em prata, ocupa o centro do altar. Sobre ele, enormes anjos, de asas e vestes douradas sustentam uma espécie de dossel, de ouro, sobre o qual há uma outra peça esculpida em madeira, com uma outra imagem de Santiago, a cavalo, lá no mais alto, e umas figuras de anjos guerreiros nas laterais. O conjunto do retábulo me lembra um Triunfo de um imperador romano. Confesso que me causou estranheza. Me pareceu grandiloquente demais para uma Igreja...
Sabe o que é muito engraçado? Eu já tinha estado duas vezes em Santiago, e a minha sensação é de que estou aqui pela primeira vez. Não consigo acessar minha memória dos lugares. Lembro bem de cenas com Deolinda, com César, de momentos vividos, porém, não consigo me lembrar dos lugares. Com relação à Catedral, minha única lembrança é o turíbulo gigante (ou fumeiro). Não é curioso isso?
Enfim. Antes da missa, uma freirinha super simpática ficou ensaiando uns cânticos com a gente. A voz dela era belíssima. E a música vinha dos dois enormes órgãos da nave principal. Acho que nunca vi órgãos tão grandes. São elaboradíssimos, inteiramente decorados com figuras de anjos barrocos. A missa em si foi meio esquisita. Não sei. Acho que faltou emoção, de um lado. E, de outro, tinha um grupo de peregrinos que fazem parte de uma empresa. E o padre, no sermão, falou muito dessa empresa. Achei um negócio tão estranho. Ainda por cima, no final, ele não deu a bênção dos peregrinos. Não entendi porquê. Só sei que dei Graças a Deus por termos pego a bênção ontem à noite. A coisa boa é que fizeram a cerimônia do turíbulo (desconfio que o grupo de peregrinos da empresa pagou, porque o fumeiro só é aceso na sextas e domingos, a menos que se pague; assim me informaram). É sempre um espetáculo ver o belo e grande fumeiro voando por sobre as cabeças das pessoas.
Da missa, deixei minha caixa no albergue e fomos comer. O pai de Bia disse pra ela escolher um restaurante que o almoço era por conta dele, e mandou me convidar. Não é gentil?!!! Só que no caminho pro restaurante, passamos pela praça da Catedral, e ficamos observando a chegada dos peregrinos. É tão interessante contemplar as reações das pessoas. E emocionante também. A cena mais comovente que vimos foi a de uma família, pai, filho e esposa. Quando eles chegaram, o pai largou a mochila, se deitou no chão (molhado, porque chovia muito) e começou a chorar. O filho de ajoelhou e ficou faazendo carinho na cabeça dele. Até que eles se levantaram, a mãe se aproximou, e os três ficaram abraçados, no meio da praça, sob a chuva. Fiquei toda arrepiada, e não pude evitar as lágrimas. É claro que você acaba se reconhecendo um pouco naquela emoção. Também é muito bonito ver companheiros de caminhada se reencontrando, seja na praça, seja nas ruas no entorno da Catedral.
Comemos numa tasca, um lugar simples, mas local, fugindo do turístico, e com a comida muito saborosa. O pai de Bia tinha pedido para ela comer um polvo por ele. Comemos um polvo a galega (ou à feira), e eu ainda comi um cotovelo de porco delicioso! Bia foi no peixe. Estava tudo muito bom. Acabamos de almoçar tarde e eu corri de volta pro albergue, porque tinha marcado massagem para as quatro e meia. Foi a melhor coisa do mundo!!! Fiz uma massagem relaxante, de corpo inteiro. Uma hora e meia. Não podia ter me dado presente melhor. Acho que agora sou uma nova mulher, rs, rs, rs. Já posso recomeçar a caminhar! Brincadeira. O que é sério, é que ele me disse que com uns dias de gelo e anti-inflamatório meu pé deve ficar bom. Me animei porque esse massagista, Miguel, também é quiroprata. Vamos cruzar os dedos.
Bom, após a massagem, tomei banho e fui com Bia num mercadinho. Compramos uma massa, que cozinhamos para o jantar. O albergue tem uma boa cozinha. E agora estou aqui, entada na minha cama, te escrevendo. Amanhã pego o trem para Madri às dezesseis horas. Devemos tomar café da manhã no albergue mesmo e depois vou tentar dar uma olhada nas lojinhas (que existem aos montes) dos arredores. Reza aí pra não chover! Quem sabe eu consigo tirar umas fotos mais bonitas da Catedral? Talvez eu vá novamente à missa. Veremos.
Minha Irmã, muito amada, com essa carta encerro meu relato da longa jornada que me trouxe até Santiago! Muito obrigada por sua companhia, por sua torcida, por suas orações, e pela paciência em ler tão longas cartas (e me perdoe os muitos erros, pois nunca tive energia para revisar nenhuma delas)! Tentei compartilhar minhas emoções, mais que qualquer outra coisa. Novas jornadas me esperam, nos esperam, pois, lembrando a última das Bem-aventuranças do Peregrino: Bem-aventurados os que descobrem que o verdadeiro caminho começa quando se acaba. Vamos em frente, então, segurando firme na Mão Amorosa, Misericordiosa e Fiel do nosso Pai.
TE AMO!!! Que você esteja sempre com Deus, assim como Ele está sempre com você, assim como Ele está sempre com cada um de nós.
Beijos cheios de saudade,

Léia

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 45



03/11/15

Niquinha!!!!
Já estou a 20 quilômetros de Santiago! Se Deus permitir, amanhã chego lá!
Nem vou escrever muito hoje, porque conheci Bia, uma carioca que está hospedada no mesmo albergue que eu, e ficamos conversando até agora. Por aqui já são dez da noite e a galera já tá se recolhendo. Estou em O Pedrozo, num albergue todo descolado, chamado Rem. É uma espécie de amplo loft, embaixo, que está muito bem ambientado, com cortinas de voal separando os espaços, abajures, tudo em tons de cinza, com uns toques vermelhos. Em cima fica uma área comum, com uma pequena copa. Bem legal. Só tem dois problemas: a área dos chuveiros não tem nenhuma divisória, é banho coletivo mesmo (unissex, claro!) e é frio. Por sorte, tem várias camas vazias e eu saí catando as mantas, pra não passar frio de noite.
No meu passinho de formiga consegui vencer os vinte quilômetros de hoje, com mochila nas costas. O pé reclamou um pouquinho no início, mas até que chegou bem. Caminhei com um pouco de chuva, nas primeiras horas. Depois, estiou e ficou só o céu nublado. De novo teve muitas subidas e descidas. Com a capa de chuva e o esforço adicional das subidas senti um certo calor.
A paisagem foi muito semelhante à de ontem. Muitas matas com árvores cobertas de musgo e hera, pastos, pequenas plantações e hortas. Cruzei com umas vacas que vinham andando pela estradinha enlameada da chuva e passei por um galinheiro com galinhas supernutridas, de bela plumagem marrom. Em certo momento, vinha andando pela estrada, rezando, quando noto muita uva esparramada pelo chão. À beira de um bosque, aquilo me pareceu inusitado. Levantei a vista e vi uma parreira carregada, que cresceu entre os galhos das árvores. Tão interessante! Ainda consegui puxar um ramo da videira e colhi umas uvas para provar. Eram pequenas, negras e docinhas.
De novo, passei por vários lugarejos de três ou quatro casas, e por pequenos povoados, onde parei para tomar um chá, comer uma bobagem, carimbar meu passaporte e descansar um pouco os pés e as costas. Num dos lugarejos, uma casa tinha a parede externa cheia de pequenos cartões coloridos, plastificados, com pensamentos e reflexões. O primeiro deles dizia: filosofia grátis. Coisas do Caminho. E o que a pessoa faz quando chega num povoado e vislumbra duas opções de café, à beira da estrada: um mais requintado, com guarda-sol, na frente de uma pousada bem arrumada, e o outro cheio de camisas coloridas penduradas no teto, paredes e janelas cobertas de mensagens escritas em hidrocor por centenas de peregrinos, e um rock’n roll de raiz, daquele dos primórdios, tocando num alto-falante precariamente fixado na árvore defronte da casa? Claro que a pessoa para no segundo! A Casa Verde, no povoado de Salceda, é mesmo um lugar pitoresco. Estava cheia de peregrinos. Alguns, inclusive, dançando, embalados pela música animada. Havia alegria no ar. Sentei-me em uma das mesas inteiramente cobertas de mensagens rabiscadas por peregrinos, e tomei um chá enquanto observava o ambiente e as pessoas. Um senhor de barba branca e turbante na cabeça conversava animado com um grupo de peregrinos. A dona do bar parecia a mais animada de todos. Sorria permanentemente e acompanhava a música com os movimentos do corpo, enquanto atendia os fregueses. Adorei o lugar.
Já pertinho de O Pedrouzo, passei por uns bosques de árvores muito altas, com troncos finos, já meio pelados. Não eram pinheiros, mas também não soube identificar que árvores seriam. Confesso que já estava com as costas bem cansadas nos quilômetros finais. Dei graças a Deus quando cheguei e achei logo um bom albergue (dentro daquela minha teoria de que albergue bom é albergue novo). Na verdade, estava com outro albergue na cabeça (também novinho), porém, ele estava lotado, com um grupo grande de estudantes que creio fossem alemães. Mas o Rem era duas casas depois. Só fiquei um pouco triste porque quando pedi ao rapaz do primeiro albergue uma sugestão de lugar, ele veio com uma conversa de que estavam todos cheios, que alguns já tinham fechado, e que podia ligar pra ver se tinha vaga numa pensão. Pensões costumam ser bem mais caras. Agradeci e recusei, porque tinha visto o Rem de passagem. Quando cheguei aqui, tinha cama de sobra. Parece que por conta de competição pelos peregrinos, o rapaz não quis me indicar seu vizinho. Isso me entristeceu, e me lembrei dos comentários que venho escutando sobre como o Caminho está se tornando mais turístico e comercial. Uma pena. Espero que essa fase não dure muito.
Fui ao supermercado, fiz umas comprinhas e preparei uma salada bem gostosa, que comi com o resto da tortilla de ontem. Estava comendo quando chegou Bia, e começamos uma boa e longa conversa, que só parou quando começaram a apagar as luzes das áreas comuns. Bia, como muitas pessoas, começou a me confortar por eu ter tido problemas com o pé e ter levado tanto tempo para fazer o Caminho. Eu lhe disse que fiz o Caminho no tempo certo. Levei o tempo necessário para a minha viagem interior. E me sinto profundamente agradecida pelo luxo de dispor de tanto tempo assim, pelo privilégio de poder andar devagar, desfrutando de cada recanto, de cada paisagem, e, principalmente, de poder parar e me conectar com os lugares e pessoas. Como sei que tudo de Deus é perfeito, tenho a certeza de que chegarei a Santiago no tempo certo, nem um minuto antes, nem um minuto depois.
E por hoje é só. Vou dormir, pra ver se consigo sair mais cedo amanhã.
Beijos mil, Minha Irmã!

Léia

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Cartas para Minha Irmã: a caminho de Santiago de Compostela 44


02/11/15

Apóstolo Santiago:
Estou aqui, como milhares de peregrinos, ao longo dos séculos, oferecendo a Deus o cansaço do Caminho. Venho com o desejo de aprender a caminhar pela senda da Vida, que é Cristo. Ajuda-me, tu que seguiste o Mestre até dar tua vida por Ele. Dá-me um coração grande e generoso como o teu, para que também eu seja apóstolo de Cristo. / Maria Santíssima, Rainha dos Apóstolos, faz-me sentir o amor e a ternura do teu coração. Ajuda-me com teu sorriso e teu carinho de Mãe a percorrer o caminho da vida com a alegria dos filhos de Deus. / Roga por nós, bem-aventurado Santiago. Para que sejamos dignos das promessas de Nosso Senhor Jesus Cristo. / Oremos: Aceita, Senhor, as súplicas que te dirigimos por meio do teu Apóstolo Santiago, e faz com que a peregrinação ao seu sepulcro, farol de unidade cristã, nos disponha a percorrer juntos o caminho que conduz à glória eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
Eis, Niquinha, a oração a Santiago, que ganhei hoje numa Igrejinha do Santo, em Boente. Lá assisti à missa do Dia de Finados. Um padre velhinho e simpaticíssimo me recebeu com tanta alegria e carinho! É uma Igreja pequenina, caiada de branco, com uma torre de sinos vazada, mais comprida e delgada que as que tenho visto. O interior é muito simples e o altar tem as feições renascentistas que não me encantam muito. Mas nada disso importa. Assisti à missa tão comovida. Parecia que todos os senhorzinhos e senhorinhas da pequena Boente estavam lá, para rezar por seus mortos. Eles iam chegando e depositando papéis dobrados em cima do altar. A missa foi rápida, talvez mais curta que a leitura dos papeizinhos, logo antes da bênção final. A cada intenção, rezávamos um Pai-Nosso e o padre encomendava as almas dos mortos. Em silêncio, rezei pelos meus.
Tão engraçado, porque eu já estava meio que num espírito de finalização do Caminho. Já com vontade de chegar, e achando que tinha vivido o que era necessário e importante. E, no entanto, o Caminho continua me surpreendendo. Antes dessa missa, na saída de Melide, passei por uma outra Igrejinha, toda de pedra, cercada por uns cipestres. Estava aberta e entrei. Havia um rapaz recebendo os peregrinos, carimbando as credenciais e dando explicações sobre a Igreja de Santa María. Nica, eu estava em frente ao altar e José me contava a história daquele templo, e eu fui ficando toda arrepiada. Enquanto ele falou, fiquei emocionada, sem entender muito bem porquê.
Essa Igrejinha de Santa María é uma preciosidade! Foi construída no século XII e o altar tem pinturas em estilo bizantino, do século XIV. Lembra que eu te falei do Panteón, um claustro que existe em León, com umas pinturas magníficas (que não podem ser fotografadas)? Pois é o mesmo estilo. Inclusive, tem a mesma representação, do Senhor do Mundo, cercado de figuras que simbolizam os quatro Evangelistas (águia, touro, anjo e leão). Só que na pintura de Santa María, o Senhor do Mundo é Deus Pai, que segura Jesus crucificado. Todo o altar, inclusive a mesa, está decorado com essas pinturas do século XIV. A Igreja também conserva o exemplar mais antigo da Espanha das grades que se usavam muito nas Igrejas, para separar altares. É um trabalho em ferro tão delicado, como se fossem uns arabescos. E a pia batismal, também do século XII, tem a forma octogonal que era marca registrada dos Cavaleiros Templários. A fachada da Igreja tem, igualmente, várias particularidades templárias. No portal da entrada principal, há um relógio solar de 24 casas. As primeiras casas têm símbolos templários, e lá pelo meio há símbolos celtas, que evocam a energia da Terra. Segundo José, há alguns pontos da Igreja com elevada concentração de energia (lembra que uma brasileira com quem eu caminhei, Celina, me disse que nas pesquisas dela, ela leu que os Templários tinham muito conhecimento sobre a energia dos elementos naturais?). Eu só posso te dar testemunho da emoção que senti enquanto estive ali.
Ah! Aprendi com José a razão de ser dos frisos de xadrez que tanto me encantam nas Igrejas de pedra mais antigas do Caminho (as do período Românico). O óbvio ululante: as Igrejas eram o principal abrigo de quem peregrinava a Santiago. O xadrezinho indicava aos peregrinos o próprio Caminho de Santiago. Numa época ainda extremamente distante das famosas flechinhas amarelas. Ao seguirem as Igrejas com frisos em xadrez, os peregrinos de outrora sabiam que estavam no rumo certo.
Conversei um tempo bom com José, que sabe Reike, e trabalhou um pouco no meu pé. Continuei minha caminhada mais leve e mais alegre. Cruzei muitos bosques na primeira parte. Em dado momento, deu um vento mais forte e vi uma linda chuva de folhas bem à minha frente. Fazia um bonito dia de sol, e eu podia vislumbrar o azul do céu por entre os troncos e galhos das árvores já bastante desnudas. Estava eu andando por uma dessas matas, quando escuto uma flauta. Eu já comentei que esses bosques me dão a impressão de estar numa estória dessas meio mágicas. Pensei, rindo comigo mesma, só me falta aparecer um Fauno aqui. A música era doce e alegre. Não era um fauno, apenas um rapaz, numa velha calça jeans, de barba trançada. Ele é húngaro (esqueci seu nome!) e conheceu a namorada, italiana, no Caminho. Cada um deles tinha um burrinho consigo. Ao observarem a coincidência, entenderam que aquilo não era coincidência. Terminaram o Caminho juntos e agora estão voltando, procurando por um lugar para ficar e montar um ponto de acolhida de peregrinos. No momento, estão acampando, e ficam ali, no meio da mata, pedindo doações. Com uma batata eles fizeram um carimbo que tem a carinha de um burro. No burro de verdade, o mais claro, pintaram um sorriso e a frase Buen Camino. Eu carimbei meu passaporte, fiz uma doação e pedi que ele continuasse tocando. Ele tocou uma música linda, meio celta, chamada O caminho do peregrino. Nos abraçamos e continuei minha marcha.
Foi depois da flauta e dos burros que passei pela Igrejinha de Santiago, onde ia começar a Missa de Finados. Nessa cidadezinha de Boente, pouco antes da Igreja, duas crianças estavam vendendo braceletes numa banquinha. O menino devia ter uns 4 aninhos, e a menina, uns 6. Comprei uma pulseirinha e eles me desejaram Buen Camino. Tão fofinhos! Após a pequena Boente, passei por um lugarejo de poucas casas, e por uma cidade bem charmosinha, Ribadiso de Baixo, com casas de pedra, ao pé de uma ponte medieval toda coberta de musgo e de hera. De resto, quando não estava caminhando pelo meio de bosques, andei por entre pastos, pequenas plantações e vários sítios, com belas hortas. Cada pé de couve imenso. Te juro que via algumas mais altas que eu. Ah! Pela primeira vez na vida vi um pé de kiwi! É uma trepadeira. Cresce que nem videira! Uma graça. Os kiwis ficam penduradinhos feito cachos de uva. Aliás, vi belos cachos de uva nos quintais e fachadas de algumas casas. São uvas distintas das que vi nos parreirais das vinícolas. São grandes e parecem bem suculentas. Fiquei tã tentada a pegar um cachinho... mas não tive coragem.
A caminhada de hoje foi dura, viu? Me surpreendeu. Muitas subidas íngremes e, claro, muitas descidas também. Assim, não foi nada terrível. Só puxado mesmo. Acaba que cheguei a Arzúa sentindo a planta do pé meio dolorida. Mas acho que é mais muscular. A inflamação da lateral está sob controle. O lado bom das subidas é que normalmente nos proporcionam vistas preciosas. Foi o caso hoje. Muitas vistas de vales e colinas. E essa área da Galícia é muito graciosa, porque tem muitas pequenas plantações, e pastos, casinhas perdidas no meio das colinas, vacas, ovelhas. E pelo meio, sempre algum bosque.
Sabe quem eu encontrei na estrada, no meio de um bosque, voltando de Santiago? Nacho. Lembra do espanhol que está peregrinando desde Roma? Pois é. Ele chegou a Santiago junto com o grupo de brasileiros que conheci em O Cebreiro, e agora está voltando. Quer caminhar até Lourdes. Conversamos um pouco. Dei a ele minha medalhinha de São Bento, um abraço bem forte, e segui meu rumo.
Ontem, Flávio tinha me mandado uma foto dele, Paulo e Karine em Santiago. Desde o dia 18 de outubro, mais ou menos, venho recebendo notícias dos meus companheiros de caminhada que já chegaram a Santiago. É sempre uma grande alegria receber a notícia de que alguém que compartilhou momentos especiais com você, chegou a Santiago. É como se uma parte de você também estivesse lá...
Para mim serão mais dois dias de marcha. Estou em Arzúa. Uma cidadezinha sem maiores interesses. Me instalei em um albergue novinho em folha, De Camino. Tomei um banho quente delicioso, meditei um pouco e saí para procurar algum lugar pra comer. Muita coisa está fechada porque é Dia de Finados, então, a cidade está bem morta. De todo jeito, não há nada de muito especial em Arzúa. Nem a Igreja de Santiago tem muita graça. Jantei no Café teatro. Pedi uma salada e um pedaço de tortilla. Veio tanta comida que saí de lá quase passando mal. Gostoso, abundante e barato. Não posso me queixar.
Vou ver se durmo cedo, para acordar cedinho e ver se saio até umas oito da manhã. Foi a hora que saí hoje de Melide, e o dia rendeu muito. Aliás, dormi muito bem em Melide. O austríaco não roncava e dormi bem quentinha. Só que tinha hora para deixar o albergue. Por isso, tive de levantar às seis e meia. Às oito eu estava pegando meu beco. O albergue aqui de Arzúa é mais flexível, porém, vou tentar sair cedo amanhã, pois até Pedrouzo são vinte quilômetros, e com meu pé ainda sensível, e minha mochila, isso me custará muitas horas de caminhada. O quarto onde estou tá cheio. Tem umas americanas, umas canadenses e apenas um homem. Uma das canadenses é uma senhorinha de 83 anos! Fala pra mamãe que da próxima vez ela vem comigo!
Agora de noite o tempo fechou e começou a choviscar. Amanhã a previsão é de chuva.
É isso, Minha Irmã! Vou começar a me organizar para dormir.
Beijos mil,

Léia