sexta-feira, 22 de abril de 2016
Despedida do Facebook
22/4/16
TRISTEZA. Funda.
Densa. A alma dói e chora.
PADECIMENTO. Quem
ama, sofre? O que foi que deixamos que fizessem com o nosso país? O que foi que
deixamos que fizessem com nossos Seres?
PERPLEXIDADE.
Aonde o bom senso, a tolerância, o respeito?
CANSAÇO. E
faz sentido despender tanta energia e tanto tempo num diálogo de surdos?
INTELIGÊNCIA.
Obrigada Seu Ernani (!!!), amado pai, que desde pequenininha me ensina a fugir
dos dogmatismos como o diabo da cruz.
DÚVIDA. Pra que
falar, quando a reação roubou o lugar da reflexão? Se não existe debate, apenas
reafirmação de posições há muito estabelecidas, pra que falar?
SURPRESA. Descobrir
que suas palavras, por mais cuidadosas e bem intencionadas, machucam e ferem
quem você ama.
HUMILDADE. O que me
dá o direito de despejar minha Verdade sobre os outros?
VERDADE. Que cada um
seja fiel a seus próprios princípios e valores.
AMOR. Só ele pode nos
salvar da loucura coletiva.
Tiro férias dessa
brincadeira do cordão azul e encarnado. Difícil atinar com um papel que me
caiba nesse Pastoril nacional.
Ciente de que minha
ausência não tornará esse embate nem mais rico, nem mais pobre.
Recolho-me.
Não por receio de
perder um ou outro amigo, porque a gente não perde o que nunca teve. Amizade
que se ressente de tempos assim é porque jamais existiu?
Menos ainda por
receio de perder a “admiração” de quem quer que seja. Faz tempo que aprendi a
buscar o espelho da minha própria consciência.
Recolho-me para o
exercício da Humildade. Para me fortalecer no Amor, única energia efetivamente
libertadora.
Que os Céus nos
iluminem.
Que um dia essa Nação
consiga se reencontrar com o Amor.
Inté.
Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é – DESDOBRAMENTOS
21/4/16
Amigas me esclarecem
que as reações à reportagem da Veja sobre Marcela Temer são protestos contra o
posicionamento da revista, e a propagação de um “modelo” de mulher, no caso,
submissa (bela, recatada e do Lar).
Não sei,
honestamente, se isso piora ou melhora o cenário, para a minha pobre
sensibilidade, um tanto cansada desse clima de Fla x Flu, que parece ter
sequestrado o Bom Senso em ambos os lados. Ou talvez eu ande lendo Sócrates
demais...
Passemos ao exame
lógico do argumento apontado acima e respondamos a algumas perguntas:
1) Se a revista em
questão propaga um modelo de mulher submissa (que deixou tantas pessoas
indignadas), o que dizer das muitas reportagens da mesma revista, que em tempos
recentes, propagaram modelos de mulheres independentes, inteligentes,
competentes e bem sucedidas, e, em muitos casos, belas, elegantes e
sofisticadas? (Se alguém tem alguma dúvida a respeito, sugiro que pesquise
edições passadas, em que há vários perfis, por exemplo, de altas executivas e
empresárias; ou leiam-se os textos sobre Amal Alamuddin, a bela e brilhante
esposa de George Clooney).
2) Se a revista em
questão defende um único modelo de mulher (recatada e do Lar), o que explicaria
a capa de edição recentes, que traz duas mocinhas com roupas curtas e ar
provocante, como ilustração para a matéria principal, que fala em sexualidade fluida
(e sem a emissão de juízos de valor)?
3) Se ao publicar a
matéria sobre Marcela Temer a revista está mesmo defendendo UM modelo de mulher
(a submissa), estaria a revista sofrendo de esquizofrenia? Ou subitamente, na
última semana, sofreu uma guinada de perspectiva sobre o feminino?
4) E, se, ao ir
cobrir a pauta que recebeu de traçar um perfil da provável futura primeira-dama
do país, a repórter (sim, é uma mulher) se deparou exatamente com o perfil
traçado, constatando, que Marcela Temer é, de fato, recatada e do Lar. Quem se
deu ao trabalho de ler a matéria, notou que são pessoas muito próximas a
Marcela que traçam seu perfil, como irmã e tia. Suponhamos (e ao que tudo
indica foi o que aconteceu) que a repórter não encontrou nada além do que ali está
posto. O que ela deveria fazer? Inventar uma personagem que de fato não existe,
só para não ferir suscetibilidades femininas e feministas?
5) Agora, examinemos
o argumento de que as reações enfurecidas devem-se à propagação de UM modelo de
mulher, o que é uma violência essencialista, pois as mulheres são múltiplas e
não precisam se prender a um único papel ou perfil. Se Marcela Temer fosse
outra pessoa, digamos, na linha de Amal Alamuddin, e a matéria definisse a vice
primeira-dama como “Bela, brilhante e determinada”, haveria reações coletivas
indignadas e memes circulando nas redes sociais?
Pediria aos espíritos
independentes e críticos que refletissem sobre essas questões. Se ao final, sua
conclusão, a partir de uma leitura desarmada e desinteressada, for a de que a
revista está, sim, defendendo e propagando UMA visão do feminino, de modo a
estimular as mulheres brasileiras a serem recatadas e do Lar, muito bem,
proteste mesmo. Eu serei a primeira a respeitar e aplaudir sua posição e seus
memes.
Agora, se me
permitem, vou compartilhar aqui, minhas próprias conclusões.
Minha leitura, após
reflexão serena e cuidadosa, é a de que as reações à matéria tão boba são
desproporcionais e estão enviesadas pelo ambiente de guerra que vivemos no
Brasil. A ideia de que a revista Veja está “propagando o modelo de mulher
submissa” não me parece resistir a análise dos FATOS (i.e., inúmeras
reportagens, da mesma revista, que “propagam” outros modelos do feminino). Como
não percebo nenhum indício de que a revista tenha mudado de posicionamento nas
últimas semanas, nem creio que sofra de esquizofrenia, só posso concluir que o
perfil da vice primeira-dama foi aquele que a repórter conseguiu apurar. E, a
julgar pelas demais informações (poucas, aliás, o que sugere ser ela uma mulher
efetivamente recatada) disponíveis sobre Marcela Temer, parece ser fiel à
realidade. Não que Marcela Temer seja APENAS bela, recatada e do Lar, ela
certamente é mais que isso. Porém, essa é a dimensão do seu perfil que fica
mais evidente, e do qual, como disse em minha postagem anterior, ela talvez se
orgulhe.
Também concluo, como
já assinalei antes, que as reações indignadas da maioria das pessoas têm como
motivação de fundo a recusa a UM MODELO ESPECÍFICO DO FEMININO. E é
precisamente isso o que mais me incomoda. Não estou escrevendo a esse respeito
para defender a revista Veja, que nem precisa de minha defesa, nem me é tão
cara para que dispenda meu tempo e minha energia com ela. Escrevo porque
enxergo nas reações à matéria um preconceito, amplamente disseminado, contra
papéis femininos tradicionais.
Digo isso por
experiência etnográfica própria. Quando terminei meu doutorado, numa das
universidades mais prestigiosas do mundo, eu saí dizendo aos amigos que eu
estava farta da vida de mulher independente, que eu queria era ser sustentada e
virar dona de casa e mãe de família. A primeira reação das pessoas era
invariavelmente o riso. Quando eu esclarecia que não era piada, vinham o
espanto e as falas ligeiramente indignadas, normalmente precedidas da pergunta:
Você está louca? Foi ali que descobri como, enquanto sociedade, nos tornamos
intolerantes com relação às escolhas das mulheres. As expectativas sociais com
relação a mulheres que tëm acesso à educação de alto nível, e que têm a
possibilidade de seguir carreiras profissionais bem sucedidas, são de que elas
ESCOLHAM esse caminho, de independência, autonomia e igualdade com relação aos
papéis masculinos. Temos dificuldade de aceitar escolhas contrárias. Os
caminhos do Lar, do Recato e, por que não dizer, da Submissão, não são vistos
pela sociedade contemporânea (e pós-moderna) como escolhas legítimas. Não são
apenas desvalorizadas, mas moralmente condenáveis. A menos que, por falta de
talento, de inteligência ou de oportunidades (casos das mulheres que não têm
acesso à educação de alto nível), as mulheres se vejam “obrigadas” a aceitar
papéis femininos tradicionais. Ou seja, como coletividade, só admitimos que
mulheres sejam do Lar e submissas, se fatores EXTERNOS as compelirem a tanto.
Não admitimos, com facilidade, que esse seja um processo INTERNO de decisão.
Sei que meu
posicionamento é controverso e não pretendo ser a dona da Verdade. Obviamente,
posso estar completamente equivocada. Cada um fará sua leitura. Meu desejo, com
minha postagem anterior, e com esta, é apenas o de provocar reflexões. Para
concluir, quero insistir que a matéria da Veja sobre Marcela Temer até me
provocou incômodo, porém, por razões distintas. Acho que está fora de timing, é
deselegante e inapropriada porque desrespeita o PROCESSO que estamos vivendo.
Michel Temer ainda é vice. Dilma ainda é a presidente. Com tudo que vem
acontecendo no Brasil, todos os atores públicos deveriam se comportar com mais
decoro e respeito. Além disso, o texto é bobo. Parece reportagem de Caras. Por
fim, surpreendeu-me a clara empatia da jornalista com o “conto de fadas”
aparentemente vivido por Michel e Marcela. O único juízo de valor que consegui
enxergar no texto foi o de que o casal tem sorte pela relação harmoniosa e
amorosa que vive, com direito a poemas de amor (achei até bonito aquele citado
no texto) e jantares românticos a luz das estrelas. Porém, se essa imagem,
transmitida pelos familiares de Marcela, for fidedigna, é inegável que os dois
são sortudos. Quem não suspiraria por uma relação assim?
Quanto ao mérito da
polêmica, desde que constatei, pessoalmente, o nível de preconceito que vivemos
com relação aos papéis femininos tradicionais, aproveito toda e qualquer
ocasião para defender a escolha das mulheres que, dentre as muitas possibilidades
que a vida lhes oferece, optam por serem do Lar, ou recatadas, ou esposas
submissas. Não há valor maior, para mim, do que a defesa da Liberdade que cada
uma de nós deve ter para ser o que quiser, e quando quiser.
Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...
20/4/16
Se as manifestações
indignadas provocadas pela reportagem da Veja online sobre Marcela Temer se
dirigirem à revista eletrônica, eu até compreendo. Realmente, a matéria parece
mais um texto de Caras. Pouco adequada à mais importante revista de notícias do
país (goste-se ou não, é um fato). Particularmente, também considero muito
deselegante a revista fazer uma reportagem sobre a "futura" primeira-dama do país, num momento de tanta gravidade como o que passamos, em que as coisas ainda estão se definindo.
Parece que está todo mundo perdendo de vista a noção de decoro.
Porém, tem
algo nessas reações enfurecidas (mesmo quando procuram ser bem humoradas) que
me incomoda. Sinto um tom de censura à vice primeira-dama. É como se as pessoas
estivessem dizendo que a escolha dela por ser “recatada e do lar” não fosse
legítima (a beleza não é escolha, mas a danada é linda mesmo!). Paira no ar uma
condenação coletiva a qualquer mulher que, por livre e espontânea decisão,
resolva assumir, com alegria e porque não dizer, orgulho, papéis sociais femininos
tradicionais!
Espero estar
entendendo tudo errado. Porque se for isso mesmo, se o patrulhamento ideológico
e social no Brasil tiver chegado a esse ponto, é mesmo muito preocupante. Se já
era triste ver tanta intolerância na discussão do melhor caminho para o país
(destino coletivo), identificar essa intolerância com relação a escolhas que os
indivíduos fazem para suas próprias vidas, é estarrecedor.
Então, quando eu vejo
a imagem da jovem Dilma Rousseff, diante de um tribunal de exceção, exibida
como contraposição tácita à imagem da vice primeira-dama, eu fico atônita. Qual
é a verdadeira afirmação por trás disso? As pessoas querem dizer que Dilma
Rousseff é melhor do que Marcela Temer porque escolheu ter uma vida pública, ao
passo que essa última escolheu a insignificância do Lar? Ou será que é apenas
uma oportunidade para reafirmar a posição contra o Impeachment da presidente?
Alguém já pensou que se Marcela Temer já tivesse nascido e fosse uma jovem nos
anos em que Dilma Rousseff ficou presa, talvez, ela também tivesse feito uma
opção pela guerrilha? (a pergunta é retórica; só serve para acentuar o
disparate que é comparar as trajetórias das duas, com o propósito de condenar
as escolhas de Marcela). Juro que me é difícil sair de um estado de total perplexidade
com o que tenho visto.
Na minha humilíssima
opinião, a melhor coisa de tudo o que o Feminismo poderia nos legar, é a
LIBERDADE para que nós, Mulheres, sejamos o que quisermos! E isso inclui os
papéis de mãe, dona de casa, esposa dedicada e mulher recatada. Se,
efetivamente, quisermos ser uma sociedade plural, precisaremos aprender a
respeitar as escolhas individuais. TODAS ELAS, e não apenas aquelas que
coincidem com nossa própria visão de mundo.
Bela Marcela, se você
é Feliz, vá em frente! Ser uma mulher recatada e do lar é uma escolha tão
legítima como a de seguir uma carreira pública e se tornar presidente do
Brasil. Ignore esse furor coletivo. Como diz a música de Caetano, cada um sabe
a dor e a delícia de ser o que é. Imagino que é duro ser objeto de um
julgamento coletivo, sem apelação e sem chance de defesa, por milhares de
pessoas que nem sequer a conhecem. Eu também não a conheço, não sei quais são
os seus valores, mas sei que ninguém tem o direito de julgá-la pelas escolhas
que você fez para a sua própria vida. E vou dizer mais – mesmo sabendo que
provocarei a ira das feministas e serei condenada à fogueira no Tribunal da
Inquisição em que nos transformamos –, embora seu marido me desagrade
profundamente, se ele assumir mesmo a presidência do Brasil, vou achar muito
bom você emprestar sua beleza e elegância ao Palácio do Planalto.
Em tempo: Se algum
homem romântico, que escreva poemas de amor inspirados, quiser me sustentar, um
dos meus sonhos é me tornar uma mulher do Lar. Adoro cozinhar! Cuido muuuito
bem de uma casa. Tenho loucura para ser mãe. Só não sou exatamente uma mulher
recatada. Você vai precisar me levar ao teatro, a concertos, a shows, ao cinema
e a bons restaurantes com frequência. Também poderemos viajar muito, e ter boas e
instigantes conversas acompanhadas de taças de vinho. Só tenho uma
exigência. Você precisa ser Honesto!
As Lentes do Bom Senso
20/4/16
Em minha tentativa de
defesa do Bom Senso no campo de batalha em que se transformaram as redes
sociais, gostaria de me pronunciar sobre duas personagens que protagonizaram
cenas “inesquecíveis” no fatídico domingo 17 de abril: Jean Wyllys e Jair
Bolsonaro.
Jean Wyllys: Quebrou
o decoro parlamentar ao cuspir num colega. Não há justificativa capaz de mudar
o fato, inequívoco, de que o ato praticado pelo nobre deputado é incompatível
com o decoro exigido pelo cargo que lhe foi conferido pelo voto popular. Em
circunstâncias normais de temperatura e pressão, o nobre deputado Jean Wyllys
deveria receber uma advertência da Comissão de Ética da casa, até para que a
prática de cuspir em excelências desafetas não se torne corriqueira. No
entanto, dado o circo de horrores em que se transformou a sessão de votação do
processo de Impeachment pela Câmara, honestamente, para que não se cometesse
uma injustiça com Jean Wyllys, seria preciso punir com advertências por quebra
de decoro pelo menos 500 dos nobres deputados. Ou será que exagero???!!!
Jair Bolsonaro:
Cometeu CRIME previsto no Código Penal: “Fazer, publicamente, apologia de fato
criminoso ou de autor de crime” (Art. 287 da Lei 2848/40). Tortura, por sua
vez, é crime tipificado pela Lei 9455/97. E é desnecessário reproduzir aqui a
lista das atrocidades cometidas por Carlos Alberto Brilhante Ustra durante o
Regime Militar. Portanto, estamos diante de um comportamento de outra
magnitude. Se nossos nobres deputados tivessem um mínimo de apreço pela
Democracia (e por tudo que ela representa em termos das Garantias Individuais e
de respeito à Liberdade), Jair Bolsonaro já estaria respondendo diante da
Comissão de Ética, e teria seu mandato cassado.
Só para deixar bem
claro o lugar de onde falo, esclareço a quem não me conhece que sou ex-petista.
Apoio o Impeachment da presidente Dilma. E reconheço, ainda que com profunda
tristeza, que o PT se transformou (ou se revelou, disso ainda não tenho
certeza) numa quadrilha, especializada em assaltar os cofres públicos. Admiro o
juiz Sérgio Moro, os procuradores da República e policiais federais que estão
passando a história recente do país a limpo, e abrindo precedentes para que os
caminhos da decência e da probidade sejam finalmente a escolha preferencial dos
nossos governantes. Espero ardentemente as prisões de Lula e Dilma pelos crimes
cometidos contra a nação.
Agora, não posso me
calar diante de um absurdo como o cometido por Jair Bolsonaro no último
domingo. E nem posso deixar de tentar chamar à razão aqueles defensores do
Impeachment (como eu), que tentam, em alguma medida defender o indefensável, ou
mesmo comparar as atitudes de Jean Wyllys e Jair Bolsonaro. São incomparáveis!
O primeiro teve um gesto de destempero, indecoroso, certamente, porém não
cometeu crime, e ofendeu a pessoa de um nobre colega. O segundo cometeu um ato
criminoso, tipificado pelo Código Penal. Seu ato violentou a Lei, o País, e a
própria Democracia, a Memória nacional e as Memórias das Vítimas do torturador
infame. Muito me admira, inclusive, que toda a resposta da OAB a esse episódio
absurdo tenha sido uma singela nota de repúdio. Pelo menos a OAB-RJ parece ter
a intenção de entrar com um pedido de cassação de mandato, único caminho capaz
de preservar a nossa dignidade democrática.
Espero, sinceramente,
que consigamos sair das posições de militância a que nos aferramos nos últimos
meses e sejamos capazes de voltar a enxergar a realidade pelas lentes do Bom
Senso.
Inteligência e Amor
19/4/16
Dada a gravidade do
momento vivido pelo Brasil, creio que as pessoas inteligentes e preparadas têm
a obrigação – cívica -- de elevar esse debate acima dos clichês, do senso comum
e, principalmente, das retóricas fáceis e falaciosas.
Fico tão
perplexa com posts que andam circulando por aí, que estou me transformando em
uma “patrulheira de falácias”. Do fundo do coração, não é o meu Ser Moral que
se sente agredido quando alguém acusa os pro Impeachment (como eu) de serem
“reacionários”, “golpistas”, “coxinhas”, “burgueses”, “cegos”, “burros”,
“alienados”, “torturadores” ou coisas do gênero. Sei quem eu sou, portanto,
esses impropérios, mesmo quando saem da pena de pessoas queridas, não causam
nem a mais leve comoção no meu espírito. É a minha Inteligência que se sente
frequentemente agredida. O problema é que, quase invariavelmente, esses
qualificativos resultam de raciocínios rasos, e se amparam em argumentos
flagrantemente falaciosos. Aí eu não “guento”. Minha Inteligência esperneia e
eu praticamente não consigo controlar meu ímpeto de publicar uma resposta que
possa, eventualmente, levar as pessoas a usarem seus neurônios (é beeeem mais
simples usar clichês e propagar ideias prontas).
Num dos muitos tour
de force da retórica contra Impeachment, propaga-se o argumento de que no campo
de batalha da “guerra do Impeachment” só há duas trincheiras. A dos “Bons”, que
estão peleando pela Democracia, e têm ao seu lado figuras probas e admiradas da
intelectualidade e das artes nacionais (já circulou até mural com as fotos
dessas figuras), e a dos “Maus”, nós, membros da burguesia reacionária, que
estaríamos “na companhia” de Michel Temer, Eduardo Cunha e Jair
Bolsonaro.
Daí, quando você
reage e faz o emissor desse tipo de mensagem enxergar você como indivíduo (não
sei se com algum nível de constrangimento ou não, a criatura é obrigada a se
lembrar que você é, sim, uma pessoa de Bem), ela lhe ameaça com o poderoso
julgamento da História. Afinal, quem gostaria de entrar para a História como
“aliado” dos Cunhas e Bolsonaros da vida...
Pois é. Vejamos o que
a História pode nos ensinar a esse respeito. Vou citar só um exemplo, que me
ocorreu de imediato.
Gandhi é a figura
mais emblemática e celebrada do longo movimento pela Independência da Índia. No
entanto, foram muitos os atores daquele processo. Tinha gente que matava, tinha
gente que explodia bomba na cabeça alheia e tinha gente que defendia o Amor
como único caminho para a luta. Na grande colcha de retalhos que foi essa luta
contra o poderoso Império Britânico, teve um sujeito -- tido, na Índia, como um
dos heróis desse processo, juntamente com Gandhi e Nehru – que, no período da
Segunda Guerra, firmou uma aliança com os Nazistas alemães e com o (à época)
crudelíssimo Japão Imperialista, e contou com a ajuda deles para enfrentar a
Inglaterra (ajuda que chegou ao campo de batalha).
Embora tenham lutado
juntos inicialmente, Gandhi afastou-se de Chandra Bose justamente por discordar
das atitudes e valores deste. E cada um, de acordo com seus princípios e sua
visão de mundo, permaneceu combatendo pela mesma causa da Independência da
Índia. A historiografia acabou relegando Bose a um segundo plano, ao passo que
Gandhi se transformou num ícone mundial, associado aos mais elevados valores
éticos e políticos. Com esse exemplo, quero chamar a atenção para o fato de que
UMA GUERRA PODE TER APENAS DOIS LADOS, MAS MUITAS TRINCHEIRAS.
Como eu disse no
início, essa retórica falaciosa não me ofende, apenas me instiga. Porém, devo
confessar que uma coisa me entristece. Implícito nesse raciocínio de que apoiar
o Impeachment é igual a alinhar-se a Bolsonaro, Temer e Cunha está um
cerceamento da minha LIBERDADE de escolha. Pressupõe que eu não posso escolher,
LIVREMENTE, E DE ACORDO COM A MINHA PRÓPRIA CONSCIÊNCIA, que caminho eu, a
cidadã Valéria, considero mais adequado para o meu país. De acordo com essa
lógica, se eu fosse uma pessoa “decente” teria de alinhar-me automaticamente
contra a posição de Bolsonaro (ou Temer ou Cunha), o que, no limite,
significaria que essas figuras desprezíveis estariam fazendo escolhas por mim.
Será que posso chamar
isso de autoritarismo moral???!!!
Felizmente, Gandhi me
conforta e me livra da ameaça desse terrível julgamento da História: “A glória
dos bons está na sua própria consciência e não na boca dos outros”.
Um pouco de Lógica
19/4/16
É lamentável, mas o
desrespeito ao Outro, que pensa diferente, realmente tem sido a tônica dos
debates sobre o país! E eu nunca deixo de me surpreender com o nível rasíssimo
de certos argumentos.
Aula básica de
Lógica. Falácia: raciocínio (silogismo) em que as premissas não sustentam a
conclusão. Exemplo: 1. Bolsonaro apoia o Impeachment. 2. Bolsonaro faz a
apologia da tortura. 3. Valéria apoia o Impeachment. Conclusão falaciosa: Logo,
Valéria apoia a tortura e os torturadores.
Lula é um ladrão (se
não for coisa pior; aguardemos as delações premiadas com relação à morte de
Celso Daniel), e eu não saio por aí chamando os apoiadores do PT e do Governo
de ladrões.
Por favor! Vamos pelo
menos manter o debate em níveis mínimos de respeito à Inteligência. Isso pra
quem acha que não vale à pena manter o respeito aos outros, só porque eles têm
uma perspectiva diversa sobre o que está acontecendo com o país.
Em tempo: Embate de
opiniões e de projetos para o país é a ESSÊNCIA da DEMOCRACIA!
E só para deixar bem
claro, para os que não forem bons entendedores. Eu apoio o Impeachment, e NÃO
SOU: burra, inocente, cega, alienada, fascista, retrógrada.
Eu não apoio
ditadores ou ditaduras de nenhuma espécie (o que, aliás, me parece não ser o
caso de muitos que estão a favor do Governo neste momento), e muito menos
torturadores. Não apenas creio que o comportameto de Jair Bolsonaro foi
inadmissível, como, nesses últimos dois dias eu apresentei denúncia ao
Ministério Público Federal contra ele, e assinei petição pela cassação do seu
mandato.
E você?
Uma última palavra.
No circo de horrores em se transformou a Câmara dos Deputados na votação do
Impeachment, o MEU deputado votou pelo Impeachment, com a elegância, o decoro,
a gravidade, a compenetração e o entendimento (da matéria) que deveriam ter
dado a tônica daquela sessão histórica.
Assinar:
Postagens (Atom)



